A “bimby” das vacas

A “bimby” das vacas

Quando recebo visitantes na minha vacaria, costumo apresentar-lhe um estranho reboque amarelo que costuma estar acoplado ao trator e parado próximo das vacas como “a minha bimby” 😊. Para ser exato, tenho de reconhecer que os reboques misturadores que temos nas vacarias portuguesas, mais conhecidos como “unifeeds”, não são ainda os “robots” ou sistemas automáticos de alimentar vacas que já existem noutros países, mas andam perto. São a segunda máquina mais importante, a seguir ao sistema de ordenha.

Até há 40 anos, as vacas eram alimentadas com erva ou silagem de milho carregados à mão (com gancho e forquilha) para o reboque ou caixa de carga e às vezes levados em cestas para alguns corredores estreitos dos velhos estábulos. Em pequenas vacarias, esse trabalho duro ainda subsiste, mas ao longo destas 4 décadas fomos aliviando essa tarefa, primeiro com  “desensiladores” e depois com o reboque misturador “unifeed”.

O princípio do sistema “unifeed” ou TMR (total mixed ration – ração totalmente misturada) baseia-se em colocar à disposição das vacas, 24 horas por dia, toda a comida que precisam, devidamente misturada, sob análise e conselho do nutricionista. Carrega-se para o unifeed a palha ou feno, que podem ser recortados e junta-se depois a silagem de erva, silagem de milho, ração ou outros alimentos, mistura-se tudo como numa “picadora 1-2-3“ e distribui-se imediatamente às vacas. Estas, conforme a sua produção de leite ou estado corporal (mais ou menos gordo) podem ainda receber um suplemento individual de concentrado na ordenha ou “estações de alimentação”.

Oferecer sempre a mesma comida pode parecer monótono, mas é mais eficiente porque, na verdade, nós não alimentamos as vacas. Nós alimentamos a “flora ruminal”, que vive na sua pança ou rúmen, o primeiro dos seus 4 estômagos. Para a digestão de cada alimento, depois de triturado na boca, misturado com saliva, ruminado e fermentado, há uma equipa de digestão, composta por bactérias e protozoários específicos. Quando mudamos o alimento, temos de esperar que se desenvolva a nova “equipa” e só depois o animal vai alcançar todo o seu potencial de produzir leite ou engordar para produzir carne. É essa “bicharada pequenina” que é capaz de degradar a celulose e tornar disponível a digestão complementar nos 3 “estômagos” seguintes. É isto que permite alimentar os bovinos e outros ruminantes com pastagens (há áreas enormes que não poderiam ter outra forma de servir para nos alimentar) e aproveitar todo um conjunto de subprodutos para alimentação animal que doutro modo iriam para o lixo.

Nos últimos anos, os reboques misturadores, puxados por tratores, tem sido substituídos por “misturadores automotrizes” mais modernos, inclusive com sensores capazes de analisar imediatamente os alimentos para ajustar as doses de modo a equilibrar o alimento a fornecer. Tal como nos robôs de cozinha para uso humano, também para as vacas podemos escolher entre diferentes cores, marcas e sistemas. Para além das imagens, podem ver aqui um pequeno filme de 2 minutos a mostrar uma dessas maquinas em funcionamento.

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O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.

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