A Global ENSO Analysis Cell alertou que Moçambique dispõe de poucas semanas para reforçar medidas de prevenção face ao fenómeno El Niño, com a janela para reduzir os impactos das perdas agrícolas a encerrar no final de outubro.
De acordo com o relatório “Situação do El Niño e Perspetivas Humanitárias”, divulgado hoje pela Global ENSO Analysis Cell, mecanismo interagências de monitorização dos impactos humanitários associados ao fenómeno climático, Moçambique figura entre os países da África austral mais expostos aos efeitos do atual episódio de El Niño.
Segundo o documento, a principal época chuvosa e de plantio na região decorre entre outubro de 2026 e abril de 2027, sendo que “a principal janela de ação antecipada encerra no final de outubro”.
“Acionem os mecanismos existentes e distribuam sementes, apoio pecuário, água, nutrição e assistência de saúde antes que as decisões de plantio sejam perdidas”, recomenda-se no relatório, dirigindo-se aos países da África Austral.
Os especialistas alertam que o fenómeno está já estabelecido e deverá atingir uma intensidade “muito forte”, persistindo pelo menos até fevereiro de 2027.
“Os principais impactos ainda estão por vir”, refere-se no documento, acrescentando-se que os riscos de seca e calor extremo poderão reduzir as áreas cultivadas, os rendimentos agrícolas, a disponibilidade de água e as condições do gado durante a campanha agrícola 2026/27.
Na avaliação específica da África austral, a Global ENSO Analysis Cell indica que parceiros humanitários estimam uma probabilidade de 70% de os défices de precipitação entre outubro e dezembro superarem os registados em qualquer episódio de El Niño desde 1950.
No relatório acrescenta-se que as reservas agrícolas resultantes da campanha anterior oferecem uma proteção temporária às famílias vulneráveis, mas alerta-se que essa margem de segurança poderá desaparecer rapidamente caso as previsões climáticas se confirmem.
“Colheitas fortes em 2025/26 proporcionam um amortecedor temporário, mas a oportunidade para construir reservas encerra com o plantio”, indica-se no documento.
Moçambique surge ao lado de Maláui, Zimbabué, Zâmbia, Madagáscar e Angola entre os países considerados prioritários para ações de preparação antecipada na África Austral.
No relatório destaca-se igualmente que Moçambique já ativou um protocolo de ação antecipada contra a seca da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) em quatro distritos, no âmbito das medidas de preparação para os impactos esperados do fenómeno climático.
“Moçambique ativou um protocolo de ação antecipada da FAO para a seca em quatro distritos”, refere-se no documento, defendendo-se o reforço do apoio agrícola e pecuário, bem como do acesso à água, enquanto ainda existe margem para prevenir perdas mais severas.
Além da África Austral, no relatório identifica-se como áreas prioritárias países do Corno de África, incluindo Somália, Sudão do Sul, Sudão, Etiópia e Quénia, e da África Ocidental e Central, como Nigéria, Camarões, Burkina Faso, República Centro-Africana, Chade, Níger e Mali, onde os efeitos climáticos poderão agravar situações de fome, deslocações populacionais e surtos de doenças.
A Global ENSO Analysis Cell estima que até 50 milhões de pessoas em todo o mundo possam ser afetadas pelos impactos humanitários do atual episódio de El Niño nos próximos seis a nove meses.
O Governo moçambicano pretende reforçar e repor a segurança hídrica para consumo humano, agricultura e pecuária, ao mesmo tempo que prepara os setores da saúde, energia, educação e indústria para enfrentar os efeitos do fenómeno, segundo um plano aprovado na terça-feira.
O plano visa proteger as populações vulneráveis através do reforço dos sistemas de monitorização e aviso prévio e da mobilização atempada dos recursos necessários para a implementação das medidas prioritárias de mitigação dos impactos do El Niño.















































