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Azeites de Portugal: tratar diferente o que é diferente

por José Martino
26-07-2026 | 07:00
em Últimas, Opinião
Tempo De Leitura: 6 mins
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Há um número que os relatórios setoriais escondem sempre atrás de uma média: o custo de produção do azeite em Portugal varia, na minha avaliação técnica, entre 2,5€/l e mais de 12€/l, conforme o sistema cultural — forma de condução, compasso, largura da entrelinha — e a produtividade daí resultante.

Os números de base, do estudo da AEMO — Associación Española de Municípios del Olivar —, elaborado para Espanha num ano em que a produção nacional caiu para metade, mostram a seguinte relação entre sistema cultural, produtividade e custo de produção do azeite à saída do lagar:

Sistema cultural Produtividade (kg/ha) Custo de produção (€/l)
Olival Tradicional Não Mecanizável 1 750 10,93
Olival Tradicional Mecanizado Sequeiro 3 500 7,61
Olival Intensivo Sequeiro 5 000 5,81
Olival Tradicional Mecanizado Regadio 6 000 4,88
Olival Intensivo Regadio 10 000 3,76
Olival Superintensivo (Regadio) 10 000 3,35

 

Estas diferenças de custo refletem em Portugal  duas realidades opostas do setor. De um lado, as grandes empresas do Alentejo e do Ribatejo: olival intensivo, regadio, negócio verticalizado — produzem azeitona, detêm o lagar, comercializam a granel para mercados externos e vendem a embaladores nacionais ou a grandes cadeias de distribuição para marcas próprias. Do outro lado, os pequenos produtores de olival tradicional e extensivo, de sequeiro, com mecanização ausente ou incipiente: entregam a azeitona ao lagar — ou apenas a fração correspondente à prestação de serviço de extração — e o azeite resultante destina-se sobretudo ao autoconsumo familiar e ao comércio informal, em garrafão de 5 litros, vendido como “produto caseiro”, “sabor tradicional” ou “azeite de um amigo” — designações que, em bom rigor técnico, descrevem com frequência azeite com defeitos.

Os dados do Recenseamento Agrícola de 2019, do INE, confirmam esta dualidade com números oficiais. O olival é a cultura permanente presente em mais explorações agrícolas do país (129,8 mil) e a que ocupa maior área — 377.234 hectares, dos quais 98,9% destinados a azeitona para azeite. O Alentejo concentra 52,4% dessa área (mais do que os 48,9% de 2009), seguido de Trás-os-Montes com 21,7% (a perder peso face aos 22,4% de 2009) e da Beira Interior com 13,1%.

A intensificação já é visível nos números do INE: as plantações intensivas e superintensivas, com mais de 300 árvores por hectare, ocupam agora mais de um quinto da área de olival para azeite (23,6%, contra 9,4% em 2009). Do regime superintensivo, com mais de 1.500 árvores por hectare — hoje 13,8% da área nacional —, 95,8% está no Alentejo.

O valor económico confirma a assimetria. O VPPT (Valor da Produção Padrão Total) das explorações especializadas em olivicultura ronda os 169 milhões de euros — apenas 2,5% do VPPT agrícola nacional —, mas o Alentejo, com 30,2% das explorações, concentra 82,9% desse valor. Em média por exploração, o Alentejo gera o triplo do valor nacional médio; Trás-os-Montes e Beira Interior, as duas regiões de maior tradição olivícola do país, ficam três a cinco vezes abaixo dessa média. O próprio INE resume a dualidade: a olivicultura portuguesa divide-se entre uma vertente tradicional, concentrada em regiões sem alternativas económicas viáveis, e uma vertente moderna, irrigada e intensiva.

Os dados mais recentes do INE, nas Estatísticas Agrícolas 2024, mostram que esta concentração se acentuou desde então. Em 2023, a produção nacional de azeite atingiu 159 mil toneladas — a segunda campanha oleícola mais produtiva de sempre —, um crescimento de 11,2% face a 2022. O grau de autoaprovisionamento chegou aos 214,9%: Portugal produz mais do dobro do que consome. O consumo humano interno ficou-se pelas 74 mil toneladas (7,0 kg por habitante), o que significa que a maior parte da produção nacional continua a ter como destino o mercado externo, apesar de exportações e importações terem recuado em 2023 (-12,0% e -3,2%, respetivamente, face a 2022). Já na campanha de 2024, a produção voltou a bater recorde — 180 mil toneladas, mais 12% —, sustentada pelos 66 mil hectares de olival intensivo em sebe do Alentejo, dos quais mais de 50 mil plantados só na última década. É este modelo que já garante mais de 80% de toda a produção nacional de azeite.

Havendo diferenças desta ordem nos custos de produção, como pode o preço de venda ao público dos azeites em Portugal apresentar um intervalo tão mais estreito do que seria de esperar? Um azeite de Trás-os-Montes, do Douro, das Beiras ou mesmo de olival tradicional alentejano deveria, em teoria, custar ao consumidor de 2 a 6 vezes mais do que um azeite alentejano de olival superintensivo. Não custa.

A resposta só pode ser uma de duas: ou a fileira não comunica esta diferença ao consumidor, ou comunica-a de forma ineficaz. O consumidor português médio vê o azeite como uma commodity e dificilmente aceitará pagar 15€ por uma garrafa de 0,5 litros — mesmo tendo poder de compra para isso — porque no imaginário português o azeite tem que ser barato e uma única marca que sirva para todo o tipo de utilização. Os operadores comerciais sabem disto, e agem em conformidade: exportam o azeite de alta qualidade diferenciada a valor muito superior ao praticado no mercado nacional, frequentemente reexportado sob rótulo de origem espanhola ou italiana — países associados pelo consumidor internacional a produção de alta qualidade — e importam azeite de preço baixo para reforçar marcas nacionais, casos em que o rótulo passa a indicar “mistura de azeites da União Europeia” (quando incorpora azeite espanhol) ou “mistura de azeites de países terceiros” (quando inclui Tunísia ou Marrocos).

Portugal produz azeites de grande qualidade. O azeite virgem extra — a categoria premium — significa ausência total de defeitos: puro sumo de azeitonas sãs, colhidas no estado ideal de maturação, trabalhadas no lagar a menos de 24 horas da colheita, com extração a frio. Na sua produção há exclusão de qualquer processo químico ou de reesterificação, exclusão de mistura com azeite de outra natureza, acidez livre final não superior a 0,8 g/100g, e ausência de defeitos organoléticos — ranço, borras, bolor — avaliada por painel de prova oficial, não apenas por análise laboratorial. São, aliás, os azeites de variedades tradicionais portuguesas que têm conquistado medalhas em concursos internacionais.

Ficam por isso três perguntas em aberto:

  1. Estará o GPP a calcular anualmente os custos reais de produção do azeite ao longo do território nacional, por sistema cultural e por região?
  2. Quando o Ministério da Agricultura desenha os apoios “à fileira do azeite”, tem em conta esta diferença estrutural nos custos de produção em função do sistema cultural e da produtividade?
  3. Com a nova PAC 2028-2034 em discussão, não fará sentido reservar o apoio ao investimento para quem produz acima do limiar de competitividade internacional — e não precisa de apoio ao rendimento — e criar, para os sistemas extensivos, uma compensação por litro que feche a diferença entre o custo real de produção e o preço de mercado, gerando margem positiva ao agricultor?

Sem o cálculo anual das contas de cultura do olival e da produção de azeite, por região e por sistema, continuaremos a ler, todos os anos, que “a produção nacional de azeite bateu recorde” — uma verdade estatística que esconde que esse recorde é quase inteiramente alentejano, enquanto o olival tradicional do interior Norte e Centro continua, hectare a hectare, a ser abandonado por políticas públicas mal desenhadas, desligadas da realidade do terreno.

A estatística agregada é confortável para quem, desde sempre, beneficia deste sistema de apoios. É inútil para quem desenha política pública. E é enganosa para quem, no terreno, continua a acreditar no seu olival e azeite — quando, na verdade, é de levantamento de dados, tratamento estatístico, e falta de justiça na atribuição das ajudas financeiras públicas: tratar de forma diferente o que é, de facto, diferente.

José Martino
Consultor em Desenvolvimento Territorial

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