O escritor e editor espanhol, Manuel Pimentel, esteve recentemente em Lisboa na última edição das Lisbon Agriconferences. Andaluz e formado em agronomia, a vida levou-o a trilhar outros caminhos longe do “agro”, mas as suas reflexões sobre o setor são de uma enorme pertinência.
Manuel Pimentel defende que a agricultura vai entrar numa mudança de ciclo, pressionada pelo abrandamento da globalização, o que dará uma renovada importância ao abastecimento estratégico a que chama, com ironia, “vingança do setor agrícola”, com o pressuposto de que já não chega ter conhecimento técnico para enfrentar os desafios futuros: é preciso adicionar “sabedoria”.
Esta nova camada, que descreve como uma espécie de “alquimia” onde se misturam “conhecimento, sentido comum, experiência e entendimento da alma humana”, traduz-se na capacidade de entender pessoas e antecipar possibilidades.
Pode parecer poético, até porque são palavras de um escritor, mas Manuel Pimentel tem toda a razão. Toda a ciência e tecnologia e todas as ferramentas que fomos adquirindo e dominando terão de ter um sentido e um propósito. E, acrescento eu, esse sentido passa por alimentar pessoas, conservar territórios, fixar populações, dinamizar economias rurais… E isto só tem realismo se houver uma valorização do que se produz. Sim, os alimentos terão de ficar necessariamente mais caros. Mas teremos de saber explicar isso ao consumidor, ouvi-los, entender as suas necessidades.
“Toda a ciência e tecnologia e todas as ferramentas que fomos adquirindo e dominando terão de ter um sentido e um propósito. E esse sentido passa por alimentar pessoas, conservar territórios, fixar populações, dinamizar economias rurais… E isto só tem realismo se houver uma valorização do que se produz.”
Encontrar forma de valorizar é um pilar de sustentabilidade, mas não chega ficar pelo lado económico. É preciso reconquistar a notoriedade e o reconhecimento perdidos nas últimas décadas e voltar a colocar a agricultura no radar, como atividade que agrega, que protege ecossistemas e permite mantê-los vivos, que produz alimentos seguros, com qualidade (e quantidade) e que é um pilar forte das economias. Isto é muito desafiante e vai exigir uma aproximação grande entre agricultores e consumidores. Esse trabalho tem de ser feito com inteligência. A tal sabedoria de que fala Pimentel.
Nestes primeiros dias do ano, ficam os votos de um excelente 2026 a todos os leitores da VIDA RURAL. E pratiquemos o #agricultarcomorgulho!
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.

















































