Nos últimos anos, o agribusiness tem vindo a afirmar-se como um dos setores mais dinâmicos e estratégicos da economia. A conjugação de fatores como a valorização dos ativos agrícolas, a entrada de investimento institucional e o aumento da profissionalização dos agentes do setor está a redesenhar o mapa da agricultura em Portugal. O que antes era visto como um mercado conservador, avesso à mudança e de elevado risco começa agora a ser reconhecido como um ativo sustentável, rentável e crucial, tanto para a segurança alimentar, como para a transição ecológica.
A agricultura deixou de ser um setor apenas produtivo para se tornar um campo de investimento estratégico. O volume de investimento institucional em ativos agrícolas tem crescido de forma consistente e expressiva. Só nos primeiros meses de 2025, o montante transacionado ultrapassou os 400 milhões de euros — sinal de que o capital está a reconhecer o valor da terra e da produção alimentar como classes de ativos de longo prazo. Esta tendência é acompanhada por fundos especializados e investidores internacionais que procuram oportunidades estáveis, menos expostas à volatilidade dos mercados financeiros, mas com forte potencial de valorização.
Este movimento traduz uma tendência global de procura de investimentos com retornos previsíveis, apoiados em ativos tangíveis e na crescente necessidade de garantir cadeias alimentares seguras e resilientes. Portugal, pela sua localização, qualidade do solo, diversidade de microclimas e resiliência hídrica suportada num quadro de governança com uma qualidade ímpar a nível mundial, tem vindo a posicionar-se como destino privilegiado para este tipo de investimento. A capacidade exportadora do país, associada à profissionalização e ao uso de tecnologia, tem reforçado esta atratividade.
Mas o investimento só se sustenta quando acompanhado de conhecimento técnico e planeamento rigoroso. É aqui que a profissionalização do setor assume um papel central. A agricultura moderna exige hoje uma abordagem empresarial e multidisciplinar: análises de solo e de clima, estudos de viabilidade económica, planeamento da utilização da água, integração de dados e sensores na gestão produtiva e uma leitura atenta das tendências de mercado.
Nos últimos anos, assistimos a uma transformação significativa. Produtores e proprietários estão a estruturar os seus ativos de forma mais eficiente, recorrendo a consultoria técnica e a dados concretos para tomar decisões racionais e sustentadas. Já não se trata apenas de produzir, mas de gerir estrategicamente o ativo agrícola. Esta profissionalização traduz-se em ganhos tangíveis: aumento da produtividade, melhor aproveitamento dos apoios da Política Agrícola Comum (PAC), maior capacidade de resposta a períodos de stress climático e maior atratividade junto dos investidores. O conhecimento técnico tornou-se o novo motor de valorização do campo.
Paralelamente, a sustentabilidade deixou de ser um tema acessório para se tornar o eixo central da rentabilidade agrícola. Se a profissionalização traz os dados e a informação de gestão, a partir daí, a decisão não pode ser outra sem ser aquela que conduz a uma preservação absoluta do capital natural, enquanto se procura uma maximização dos juros, sob a forma de produtividade, que se podem retirar desse mesmo capital. A aposta na agricultura de precisão e a preservação dos serviços do ecossistema deixaram de ser tendências de nicho para se tornarem requisitos de competitividade.
O equilíbrio entre produtividade e preservação ambiental só não será o grande fator diferenciador das próximas décadas porque não haverá outro padrão que não o atinja. Falhando, com as pressões a que a agricultura se vê atualmente sujeita, falhará redondamente face à competitividade imposta pelo mercado agrícola global. A incorporação de práticas regenerativas, o uso racional da água e a adoção de tecnologias digitais são hoje determinantes para assegurar sustentabilidade económica e ecológica.
Este novo paradigma exige também planeamento estratégico. O setor agrícola atravessa um período de mudança em que a improvisação já não tem espaço. Decisões sobre culturas, diversificação ou aumento de escala devem basear-se em estudos técnicos, económicos e ambientais. A valorização dos ativos agrícolas depende cada vez mais da compreensão do potencial do solo, dos recursos hídricos e das tendências de mercado.
A definição de estratégias integradas — que otimizem os apoios da PAC, reduzam riscos e aumentem a resiliência — é hoje determinante para garantir sustentabilidade financeira e ambiental. Esta abordagem planeada e tecnicamente suportada é o que distingue um investimento agrícola moderno de uma exploração avessa à mudança e pouco alinhada com a realidade do mercado que a rodeia – entre os que cá ficarão para contar a história e os que ficarão, exclusivamente, nessa mesma história.
O agribusiness está, portanto, a atravessar uma fase de maturidade. O capital está mais atento, os produtores mais preparados e as políticas públicas mais orientadas para a eficiência e inovação. A próxima década será decisiva para consolidar este novo paradigma — um em que a terra deixa de ser apenas um recurso produtivo e passa a ser uma classe de ativo estratégico, com impacto direto na segurança alimentar, na coesão territorial e na mitigação das alterações climáticas.
Portugal tem aqui uma oportunidade única. Se continuar neste caminho de profissionalização, inovação tecnológica e sustentabilidade, poderá afirmar-se como um destino de investimento agrícola competitivo e detentor de um setor agrícola exemplar que alia rentabilidade, responsabilidade e futuro. A agricultura portuguesa tem, assim, todas as condições para se afirmar como pilar essencial do futuro verde europeu — um setor que combina tradição e modernidade, capital e conhecimento, produção e preservação.
Inês Marques Lopes
Valuation Consultant CBRE Portugal













































