A realidade dos últimos meses confirma que a pressão exercida sobre os sistemas naturais continua a intensificar-se. Em 2026, sucederam-se novos episódios de calor extremo em várias regiões do planeta, incêndios florestais de grande dimensão na América do Norte e na região mediterrânica, secas persistentes que comprometeram a produção agrícola em diferentes continentes e cheias devastadoras associadas a episódios de precipitação intensa. Estes fenómenos, cuja frequência e intensidade são potenciadas pelas alterações climáticas, traduzem-se em perdas humanas, económicas e ecológicas cada vez maiores, evidenciando que o défice ecológico não é um conceito abstrato, mas uma realidade com impactos diretos sobre a sociedade.
O dia da sobrecarga do planeta (Overshoot Day) assinala o dia em que a humanidade esgota todos os recursos biológicos que o planeta é capaz de regenerar num ano, operando em défice ecológico a partir desse momento. A partir dessa data torna-se necessário usar recursos naturais que só deveriam ser utilizados a partir de 1 de janeiro do ano seguinte, neste caso, 2027.
Este ano o uso do cartão de crédito ambiental foi ligeiramente atrasado em quase uma semana face a 2025 (a 24 de julho). Contudo, esta alteração ficou a dever-se à revisão de alguns dos dados científicos usados para o cálculo deste indicador e não devido à redução da pressão sobre o ambiente.
Nos últimos anos a tendência tem sido de uma certa estagnação. Contudo, mesmo que o dia da sobrecarga não varie muito, a pressão sobre o planeta continua a aumentar, à medida que os danos causados pela ultrapassagem do limite ecológico se acumulam ao longo do tempo.
Este conceito revela de forma concreta como os modelos económicos atuais, baseados no uso insustentável de recursos naturais, crença num crescimento contínuo num planeta finito e o apelo constante ao consumo, pressionam os sistemas naturais além da sua capacidade de recuperação. Esta tendência é ameaça para as gerações presentes, mas, muito em particular, para os direitos e expectativas das gerações futuras.
É preciso acelerar
O que os dados nos indicam é que a Humanidade tem de acelerar o passo e promover as mudanças necessárias de forma a reduzir o impacte que as suas atividades e necessidades têm sobre a capacidade de carga do planeta.
- Por exemplo:
- Já se fosse aplicada uma taxa por tonelada de carbono de cerca de 90 euros a todas as atividades emissoras de gases com efeito de estufa à escala mundial, o adiamento seria de 63 dias.
- Se reduzirmos o consumo de carne em 50% e substituirmos essas calorias por uma alimentação vegetariana, o cartão de crédito seria acionado 17 dias depois, com 10 desses dias a resultarem das emissões de metano evitadas.
É urgente a tomada de consciência para a necessidade de alterar o paradigma de desenvolvimento no sentido de promover uma economia do Bem-Estar, que garante qualidade de vida para todos dentro do respeito pelos limites do planeta.
A tendência das últimas décadas
Ainda que a tendência desde a década de 70 se tenha mantido no sentido da antecipação do uso do cartão de crédito ambiental, o facto é que a última década espelha uma desaceleração.
| Ano | Dia da sobrecarga do Planeta |
| 1973 | 3 de dezembro |
| 1983 | 4 de dezembro |
| 1993 | 27 de outubro |
| 2003 | 12 de setembro |
| 2013 | 3 de agosto |
| 2023 | 2 de agosto |
| 2026 | 30 de julho |
Fonte: https://www.overshootday.org/newsroom/past-earth-overshoot-days/
A variabilidade dos resultados
As agências da ONU e as organizações afiliadas fornecem os dados utilizados para calcular a Pegada Ecológica e a biocapacidade. Como estes conjuntos de dados são atualizados regularmente, os resultados anteriores são, por vezes, também revistos. Este ano, a alteração mais significativa foi uma revisão em alta da capacidade dos oceanos para absorver carbono. Juntamente com alguns ajustes menores, isto fez com que o Dia da sobrecarga do Planeta fosse adiado cerca de 8 dias em relação à estimativa para 2025. É importante referir que esta alteração reflete dados atualizados e não reduções efetivas da pressão ambiental. Aliás, as tendências no mundo real seguiram a direção oposta. Ao longo do último ano, o fosso entre a Pegada Ecológica da humanidade e a biocapacidade do planeta aumentou, fazendo com que o Dia da sobrecarga do Planeta se antecipasse em dois dias.
Como se calcula o indicador
Tal como um extrato bancário dá indicação das despesas e dos rendimentos, a Pegada Ecológica avalia as necessidades humanas de recursos renováveis e serviços essenciais e compara-as com a capacidade da Terra para fornecer tais recursos e serviços (biocapacidade).
A Pegada Ecológica mede o uso de terra cultivada, florestas, pastagens e áreas de pesca para o fornecimento de recursos e absorção de resíduos (dióxido de carbono proveniente da queima de combustíveis fósseis). A biocapacidade mede a quantidade de área biologicamente produtiva disponível para regenerar esses recursos e serviços.
Fonte: ZERO












































