Zero com zero, dá zero – João Adrião

Zero com zero, dá zero – João Adrião

O uso do fogo acompanha a história do Homem. Enquanto ferramenta do mundo rural, é usado há milénios. É até um dos segredos da nossa grande biodiversidade.

(Teoria dos jogos)

Biotrituradores para acabar com queimas e queimadas? A proposta é da Associação Ambientalista ZERO. Que de conhecimento da realidade rural ou envolvimento, soma zeros. Noves fora? Nada…

Com menos de 1% das Ignições a responder por mais de 90% da área ardida, dos custos e dos danos, a generalidade do ambientalismo — e das forças políticas, e da sociedade como um todo — insiste em focar-se na incidência, e não na propagação.

Têm as queimas e queimadas a dimensão que se quer transmitir?

Não têm. As queimas e queimadas respondem por 10% do total da área ardida, 4% dos quais no período crítico, sendo que as queimas ficam abaixo de 0,5% (ICNF, 2001-2017).

Trocado por miúdos: não há correspondência entre números de ignições e hectares ardido; a maioria dão-se fora do período crítico e não está envolvida na maioria dos custos e dos danos; sendo que as queimas, sobre as quais esta proposta maioritariamente incidiria, apresentam mesmo valores residuais. Vamos gastar milhões a troco de 0,5% do problema?

Assim, dividir os danos e custos por um terço das Ignições, não é um “exercício simples”, é uma simples fraude.

A que se soma uma aritmética de pré-primaria, nas costas de um guardanapo:

Quer em pressupostos socio-económicos: uma máquina a operar 8 horas em dias úteis para toda uma freguesia? O agricultor fazia marcação e ia lá no mês seguinte com os seus camiões cheios de mato? Isto é, gastava 1000€ por hectare para cortar e transportar, mas estava a contribuir para a reindustrialização do país? Gastava a sua reforma anual a dar emprego aos envolvidos da Junta de freguesia, sapadores e universidades?

Quer em pressupostos ambientais: sempre a laborar com múltiplos utilizadores, a que se juntam jardins? As máquinas funcionam sem motores? A que se juntam os transportes, seja da máquina, seja da biomassa? Onde estão as contas dessas emissões? Os nutrientes não eram subtraídos aos solos (ao contrário do que imaginam com o uso do fogo)?

Por último, soma-se o afastamento do mundo rural. As pessoas, as suas condições, o seu modo de vida, os seus costumes, as suas necessidades, as suas expectativas… Nada disso é metido nem achado, ao barulho. Podendo ser contraproducente ao ponto de fomentar ainda mais o abandono rural, do qual o trágico padrão de fogo é um sintoma. E já que se fala em justificação ambiental, essa sim uma séria ameaça quer ao ambiente quer a vidas humanas e animais, bens, infraestruturas, etc.

Nada como ir, perguntar, testar as ideias, conhecer a realidade antes de propor. Digo eu.

O uso do fogo acompanha a história do Homem. Enquanto ferramenta do mundo rural, é usado há milénios. É até um dos segredos da nossa grande biodiversidade. Há fogo bom e fogo mau, já dizia, há 200 anos, o Coronel Varnhagen, primeiro Administrador das Matas do Reino. Mas a Zero junta-se à Quercus no ataque ao uso do fogo-ferramenta por parte de quem ainda vive na e da paisagem.

Cai-se assim noutro problema da Teoria dos jogos, o “dilema do prisioneiro”: a falta de abertura, o radicalismo, a falta de empatia ou envolvimento, extrema posições. Quando podíamos todos sair a ganhar pois estas actividades, ao invés de perseguidas e proibidas, precisam antes de ser apoiadas e acompanhadas, precisam de ajuda e envolvimento, até porque muitas vezes as expectativas dos envolvidos vão de encontro ao bem comum. E é até ingénuo pensar que não temos nada a aprender com atividades rurais milenares… Não se aceitam soluções intermédias, é ganhar ou perder. Enfim, na minha modesta opinião pessoal, uma soma de zeros.

O artigo foi publicado originalmente em Observador.

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