Os vinicultores confirmam a estimativa do Instituto Nacional de Estatística (INE), que aponta para uma descida da produção em 2025, que justificam com condições meteorológicas adversas, que obrigaram a muitos tratamentos fitossanitários, encarando agora 2026 com alguma prudência.
“Os valores oficiais apontam para uma queda de 14% em relação à vindima de 2024 e de 16% em relação à média dos últimos cinco anos”, indicou a diretora executiva da ACIBEV – Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal, Ana Isabel Alves, em resposta à Lusa.
Conforme explicou, 2025 foi um ano agrícola “muito exigente”, que obrigou a vários tratamentos fitossanitários, registando-se quebras de produção.
Os viticultores de menor dimensão apresentam dificuldade em fazer todos os tratamentos necessários, quer por motivos económicos, quer por falta de equipamentos, o que resulta em quedas de produção ainda mais expressivas.
Já o “calor excessivo” que se sentiu na época do verão levou a uma diminuição acentuada do peso das uvas.
Ana Isabel Alves disse que, face ao excedente de ‘stocks’ que o setor tinha antes da vindima de 2025, uma diminuição entre os 10% e 20% levará a um ajuste das reservas e “possivelmente a uma estabilização dos preços”, o que considerou ser uma “forma injusta de ajustar os ‘stocks’ do setor”.
De acordo com a primeira estimativa das “Contas Económicas da Agricultura – 2025” do INE, apesar de a produção de vinho – uma das principais produções agrícolas nacionais, a par do azeite, – ser este ano “a mais baixa da última década, espera-se a obtenção de vinhos de qualidade, com níveis de açúcar equilibrados e boa concentração aromática”.
A Sogrape, que está no pódio dos maiores produtores de vinho em Portugal, também observou menores volumes, embora com um comportamento assimétrico por região.
“A primavera chuvosa e amena favoreceu doenças como o míldio e o verão muito quente e seco provocou queimaduras e desidratação das uvas”, explicou à Lusa o administrador executivo da Sogrape, João Gomes da Silva.
Contudo, a empresa antevê um “impacto gerível”, uma vez que a Sogrape está preparada para ciclos de maior volatilidade.
“Trabalhamos com diversificação de origens, gestão de inventários e um portefólio de marcas e mercados que ajuda a mitigar oscilações de volume. A elevada qualidade desta colheita permite-nos preservar valor nas principais marcas”, precisou.
Na mesma linha, a Casa Santos Lima adiantou que a produção de 2025 foi inferior à de 2024, destacando a “qualidade excecional” das uvas, o que permite à empresa “encarar esta colheita com enorme confiança”.
O impacto irá sentir-se, sobretudo, ao nível do ‘stock’ do vinho, embora a empresa admita ter reservas para responder às necessidades dos mercados onde está presente.
Já sobre o impacto do contexto geopolítico no setor, a ACIBEV destacou que as exportações foram atingidas com a instabilidade associada à política tarifária norte-americana, uma vez que, até estar definido o valor, os importadores não arriscavam comprar vinho a um preço “e três semanas depois (tempo de os contentores chegarem aos EUA), o seu valor estar substancialmente aumentado”.
A falta de previsibilidade acabou por penalizar mais o setor do que o próprio valor da tarifa, admitiu.
Por outro lado, tendo em conta que o vinho não é um produto de primeira necessidade, é expectável que os consumidores reduzam as compras para poderem poupar.
“Os EUA estão também a aplicar uma tarifa mais baixa aos vinhos de países nossos concorrentes como a Argentina, Austrália, Chile e Nova Zelândia, criando uma concorrência ‘menos justa’”, referiu.
Ainda assim, para este ano, a ACIBEV espera que o setor consiga manter as vendas, com um impulso do acordo entre a União Europeia e o Mercosul e com a perspetiva de ser aprovado, a curto prazo, um acordo de comércio livre com a Índia.
Sobre estas matérias, a Sogrape destacou que a tarifa de 15% aplicada pelos EUA aos vinhos europeus criou uma “enorme incerteza” ao negócio, que acresceu ao efeito sentido em toda a cadeia de valor desde a pandemia de covid-19.
A Sogrape defendeu ainda que o Mercosul é um “passo fundamental”, que reforçará a competitividade dos vinhos europeus e disse entrar em 2026 “com prudência e confiança”, consciente do grau de incerteza que tem pela frente.
Já a Casa Santos Lima está a responder aos desafios geopolíticos com uma estratégia de “inovação e diversificação”, ao nível da oferta e dos destinos de exportação, com a criação de produtos ajustados aos diferentes perfis de preço e preferência de consumo.
“Acreditamos que 2026 será um ano particularmente desafiante para o setor vitivinícola. As dificuldades e ameaças que marcaram 2025 […] devem acentuar se, agravadas por uma concorrência substancialmente mais intensa entre as empresas do setor, a nível nacional e internacional”, rematou.


















































