José Macedo Tá bô p’ra comer o ganhado!

Tá bô p’ra comer o ganhado!

Lá fora chove. Chuva macia, boa, certinha, daquela que se infiltra no solo sem arrastar a terra fértil para os rios e para o mar. Boa para regar as sementeiras de erva do outono, boa para recuperar as reservas subterrâneas de água e boa ainda, li ou escutei algures, para engordar as castanhas mais atrasadas.

Ali na vacaria, à mangedoura, abrigadas e enxutas, vacas e novilhas comem o que cultivámos e guardámos, a silagem de erva do inverno passado e a silagem de milho deste verão, condimentadas com um pouco de palha e ração qb. Hoje está mais agradável ali que na pastagem.

Chuva boa de morrinha, mas dia morrinhento, triste e deprimente por causa da mesma chuva. Algures na América do Norte já cai neve e uma colega agricultora fala em colocar a árvore de natal. O fenómeno deve ser global, porque na rádio falavam do mesmo, da árvore de Natal, não da neve, embora ontem já tenha nevado em alturas do Barroso, Boticas. Coisas boas que sabemos pela internet, não é só notícias e contra-notícias de covid.

Natal já? Calma, ainda faltam dois meses. Não gastem já o Natal. Quando o presidente falou em repensar o natal não era para celebrar antes dos Santos, era só para não ter 50 ou 100 pessoas à mesa.

Eu sei que “dos Santos ao Natal é um salto de pardal”, mas ainda falta o S. Martinho, o verão de S. Martinho e as castanhas. Castanhas boas e com produção a sério vem de Trás os Montes, mas por aqui junto ao mar também há castanheiros e castanhas. Já colhi e comi meia dúzia delas de um pequeno castanheiro plantado na bordadura dos campos, ao pé da ribeira. (e mais algumas que a minha esposa trouxe do mercado).

Ainda há por aí bastantes castanheiros. Antigamente havia mais, mas foram-se cortando porque a sombra não deixava crescer o milho, porque ficou mais caro mandar fazer a mobília de madeira de castanho do que comprá-la e a baixa produção de castanhas ainda tinha de ser dividida entre o dono e a rapaziada que por esta altura batia todos os castanheiros da região. Apesar disso, há 30 anos, quando andávamos na silagem, então com a máquina que cortava um linha de milho de cada vez, enquanto esperava pelo reboque ainda dava tempo para encher os bolsos e a caixa de ferramenta do trator com as castanhas que à noite assávamos no fogareiro com carvão ou no forno ainda quente do fogão a lenha. Hoje, para ter menos trabalho, pode-se usar a torradeira / sandwicheira elétrica, não tem o mesmo sabor mas é fácil e rápido.

Pois, já estamos a ver que não vamos ter os magustos do costume, mas podemos “repensar o S. Martinho e os magustos”. Pode ser em zoom, com sala de chat do facebook ou no sossego da família nuclear, podemos comer umas castanhas regadas com um bom vinho, vinho do Porto, ou sumo ou o que quiserem.

Disse-me o José Macedo, produtor de leite e de castanhas, a quem roubei esta foto, que o mercado da castanha está mais difícil por causa da pandemia. Vamos ajudar? A castanha faz parte da história da nossa alimentação. Comprar, assar e comer castanhas sabe bem e faz bem à economia de Portugal. Em dias morrinhentos ainda sabe melhor.

O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.

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