Produção de Batatas em cama de Eucalipto

Produção de Batatas em cama de Eucalipto

Na Herdade do Freixo do Meio, em Montemor-o-Novo impera o sistema do montado, tal como era feito na Idade Média. “Trata-se de um modelo totalmente agro-ecológico, que imita a natureza e que se desenvolve numa estrutura de agrofloresta, com três estratos principais: arbóreo, arbustivo e de pastagem”, explica Alfredo Cunhal Sendim, que no início dos anos 90 retomou a exploração da propriedade com a mãe.

Na produção, a Herdade tem vindo a realizar várias experiências na área da agrofloresta, com um trabalho muito focado na utilização das árvores. “Estamos convencidos de que a árvore é o motor da natureza; é o ser que está mais capacitado para transformar energia em matéria”, diz Alfredo Cunhal Sendim. E quem se aproximar do campo em que estão a ser produzidas as batatas apercebe-se que, mais do que a terra, é o eucalipto que tem ali um papel primordial.

As batatas não são enterradas, mas antes colocadas sobre a terra e cobertas com 10 centímetros de madeira de eucalipto triturada, resultando em tubérculos mais saborosos e duráveis.

Tapar as batatas, depois de colhidas, com ramos de folhas de eucalipto, é uma técnica conhecida para as conservar e evitar a traça. Mas na Herdade do Freixo do Meio a utilização desta árvore começa logo na plantação. As batatas não são enterradas, mas antes colocadas sobre a terra e cobertas com 10 centímetros de madeira de eucalipto triturada, de acordo com a técnica Boix Raméaux Fragmentés (BRF), ou, em português, Aparas de Ramos Fragmentados, desenvolvida pelo canadiano Gilles Lemieux.

Proteção do solo e do produto

“Dentro da panóplia de árvores com que trabalhamos, o eucalipto é absolutamente excecional”, afirma Alfredo Cunhal Sendim, que explica que esta espécie florestal pode ser usada para recuperar ecossistemas e solo, num modelo compatível com a produção de pasta para papel: “Depois do primeiro corte da árvore, nascem uma série de varas da toiça, e tem de se selecionar uma para voltar a dar uma árvore. Tudo o resto pode ser triturado e usado para este fim. Numa perspetiva mais pura, o eucalipto é usado para produzir madeira. Neste caso, é cortada a ponta da árvore, que só engrossa para os lados, e todos os anos lhe são cortadas as varas”.

Na produção da Herdade, a madeira triturada vem dos vários eucaliptos espalhados pela propriedade e de algumas árvores cedidas pela The Navigator Company, que, através de uma colaboração informal, tem doado também algumas sementes.

Na produção de batata, a madeira, além de funcionar como manta morta que vai proteger o solo, ajuda na retenção da humidade e, por nela se desenvolverem fungos que vão buscar nutrientes e água à atmosfera, permite um uso mais eficiente da água. Em consequência, a necessidade de usar fatores de produção externos ao ecossistema, como agroquímicos ou agrotóxicos, é praticamente anulada, preservando o produto e o meio de eventuais contaminações. “Não tem havido pragas ou problemas com a geada. A batata dura muito mais e é mais saborosa”, garante Alfredo Cunhal Sendim.

A técnica BRF ao serviço da agricultura

A técnica BRF consiste na fragmentação de galhos de árvores para aplicação na superfície dos solos, com o objetivo de os cobrir, nutrir e recuperar. Por meio da decomposição da cobertura vegetal, a quantidade de nutrientes disponível aumenta e as condições do solo melhoram. Fomenta-se, assim, o crescimento e desenvolvimento saudável do que se planta, sem recurso a químicos, o que, no caso dos produtos comestíveis, como as batatas, resulta também em mais sabor.

No fundo, o que acontece é que o fungo mycelium ataca mais depressa a lenhina dos ramos fragmentados, levando a que se desenvolvam micorrizas no solo – uma simbiose entre fungos e raízes que favorece toda a cadeia de vida da terra e também a retenção de água. Como resultado, temos uma terra esponjosa, nutrida e com maior capacidade de absorver e reter água.

Trata-se de um método extremamente ecológico, não só por favorecer o solo sem recurso a químicos e por exigir menos rega, mas também porque os ramos das podas ganham nova vida com este valor suplementar.

O artigo foi publicado originalmente em Produtores Florestais.

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