Precisamos de falar (II) – O mistério das placas vermelhas

Precisamos de falar (II) – O mistério das placas vermelhas

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Foi no fim de semana, numa conversa à volta da panela de leite que levei do meu tanque direto para a feira de natal da Árvore Viva, para ferver à frente de toda a gente, dar provar e matar saudades a quem não bebia uma meia de leite direta da vaca há muito tempo… Dizia eu que o leite era local, que as vacas estavam 500 metros atrás de nós, era só atravessar a bouça e passar o regato (a Ribeira da Granja) e dizia também que o alimento principal das vacas é o milho produzido à volta da vacaria e também noutros terrenos ainda mais perto do local onde estávamos quando a senhora franziu o sobrolho e perguntou: “E nós podemos comer esse milho?” E eu disse que sim, às vezes até me roubam espigas para assar, apesar de não ser tão bom como o milho que se vende nos supermercados, porque esse é de uma variedade de milho doce, e ela continuava com ar desconfiado e perguntou se o milho não levava nenhum tratamento, e eu disse que levava o herbicida contra as ervas daninhas antes de nascer ou pouco depois, e, se fosse preciso, inseticida também nessa altura, abril ou maio, e depois não leva mais nenhum tratamento que o milho é uma planta muito resistente, a título de exemplo a batata e o tomateiro têm de ser sulfatados contra o míldio (o “arejo”) todas as semanas, e ela perguntou então se aquelas placas vermelhas que ainda estavam no campo não eram avisos sobre tratamentos feitos nos com produtos químicos perigosos para as pessoas e eu fiquei espantado porque nunca me tinha passado pela cabeça que alguém pudesse pensar isso…
E expliquei então que aquelas placas coloridas com nomes e números junto aos campos de milho e junto à estrada são publicidade das empresas que vendem as sementes de milho, com o nome da empresa e das diversas variedades, de forma a dizer aos outros agricultores que o Carlos ou o Manuel escolheram aquele milho. Para entenderem, da mesma forma que temos “maçãs” em macieiras parecidas mas com variedades diferentes (golden, vermelha, reineta…), também no milho temos diferentes variedades desenvolvidas pelas várias empresas de sementes (mais rápidas a crescer, mais produtivas, mais digestivas, melhores para as galinhas ou para as vacas…); Em alguns terrenos, os que tem muitas placas seguidas, as empresas de sementes fazem campos de ensaio com diferentes variedades e pouco antes da colheita convidam os agricultores para ver os campos de ensaio, falam das vantagens de cada espécie, convidam-nos para almoçar e nós ficamos com vontade de comprar aquele milho todo😊. E se alguns agricultores compram a várias empresas, milho de semente produzido em vários países, há agricultores que tem preferência por uma marca milho e defendem-na com a paixão de um adepto de futebol, tal como outras pessoas podem discutir marcas de carros, motas ou tratores.
E porque é que deixei as placas no campo depois de colher o milho? Porque não tive tempo de as tirar, porque andei atarefado com as sementeiras da erva, colóquios, feiras de natal e outros assuntos, mas por via das dúvidas, para não preocupar mais ninguém já guardei as placas todas. E para o ano, se os vendedores quiserem e eu deixar, haverá novas placas.
Já agora, por principio, devemos respeitar um período de segurança de 24 horas (ou outra data indicada no rótulo do pesticida) antes de entrar no campo que foi tratado, em abril ou maio.
(continua)

O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.

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