Por amor à vida

Há uma perceção generalizada de que nos aproximamos de um possível colapso ambiental cuja magnitude ameaça a própria sobrevivência da humanidade. Esta apreciação resulta em particular das alterações climáticas, mas também da brutal contaminação dos rios e dos oceanos, ou das situações extremas de seca e perda da produtividade agrícola em várias regiões do mundo. Sendo plausível um colapso de dimensão global, não se pode sustentar esse cenário no rigor de factos, pelo que prevalece a expectativa e a ditosa esperança que encontraremos soluções na ciência e na tecnologia, e que seremos capazes de adotar comportamentos mais responsáveis para a transição e para as escolhas que se exigem.

Uma leitura mais otimista do momento é de certo modo suportada pela História, que nos revela diversos episódios de pré-colapso que desencadearam uma reação reparadora por parte das sociedades que os viveram. No domínio do ambiente, destaca-se frequentemente o recente problema da destruição da camada de ozono, que justificou, há cerca de três décadas, o Protocolo de Montreal, numa reação convergente e comprometida com vista à resolução do problema. Invocam-se ainda outros exemplos positivos, relacionados com a restauração de rios e florestas, situações em que tem sido possível reverter cenários complexos e que se julgavam dificilmente reversíveis. O que estes momentos revelam é que a resolução de ameaças graves é possível quando se alcança uma convergência efetiva em benefício do interesse geral.

Somos hoje confrontados com o desafio ambiental e político mais complexo e decisivo para o futuro da Humanidade: as alterações climáticas e o seu inexorável impacto sobre os ecossistemas naturais. Para enfrentar esta ameaça, a estratégia tem sido a da comunicação realista da catástrofe, na convicção de que acabará por incitar a necessária mudança de comportamentos. Mas também é verdade que a excessiva pressão desta narrativa pode induzir ao esmorecimento face à magnitude do problema e à incapacidade imediata para lhe fazer frente. Se, por um lado, o discurso absurdo e chocante de alguns responsáveis políticos suscita uma oposição radical e agressiva, por outro, uma narrativa excessivamente dramática é suscetível de produzir um efeito de paralisia naqueles que estão disponíveis para a mudança. 

Uma estratégia que poderá parecer mais idílica é aquela que nos convida a assumir o nosso papel integrante e plural na dinâmica dos sistemas vivos, numa aproximação afetiva à vida e na senda de um projeto coletivo em que todos existimos de forma cúmplice e relacional. Esta harmonia ecológica é também aquela que mais nos aproxima da nossa condição humana e é também esta condição que nos responsabiliza a fazer tudo para que a transição ecológica se torne realidade; temos recursos financeiros e somos capazes de produzir conhecimento para viabilizar o caminho do compromisso entre o bem estar humano e o equilíbrio dos sistemas vivos.

A transição ecológica e a promoção da sustentabilidade é o caminho mais transformador, mais racional e mais inteligente que qualquer organização ou comunidade pode adotar e promover. Por outro lado, a felicidade humana estará igualmente mais próxima de uma relação existencial comprometida com o outro e com as demais formas de vida do que prisioneira de uma visão materialista e individualista do mundo. Não se encare por isso como utopia a proposta de mudança em função do amor à vida, na construção de uma existência solidária com todas as suas formas. E o tempo corre contra nós.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

O artigo foi publicado originalmente em Público.

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