Pinhal de Leiria: madeira por cortar, acácias sem controlo e rearborização insuficiente

Pinhal de Leiria: madeira por cortar, acácias sem controlo e rearborização insuficiente

Especialistas apreensivos com o cenário na Mata Nacional de Leiria

Os técnicos que integram o Observatório do Pinhal do Rei estão preocupados com a madeira ardida que continua por cortar na Mata Nacional de Leiria, mas, também, com os trabalhos de máquinas pesadas que mais de dois anos depois ainda decorrem no terreno e colocam em risco o sucesso da regeneração natural. Avisam que as plantações e sementeiras feitas até à data representam muito pouco face à área atingida pelas chamas em Outubro de 2017. E pedem um plano de controlo de espécies invasoras, em especial, das acácias, que desde o incêndio progridem sem oposição.

Numa resposta ao Bloco de Esquerda conhecida já este mês, o Ministério do Ambiente explica que está a monitorizar os efeitos da regeneração natural proporcionada pelos bancos de sementes no solo e promete avançar em 2020 com medidas de rearborização e contenção de espécies invasoras (ver desenvolvimento noutro texto nesta página).

Segundo o engenheiro agrónomo e deputado do Bloco de Esquerda Ricardo Vicente, eleito por Leiria, que pertenceu ao Observatório do Pinhal do Rei até se demitir em Junho do ano passado, com críticas, “o principal problema” da Mata Nacional de Leiria é a “falta de vontade” do Governo “para construir um compromisso de recuperação de médio e longo prazo”, o que também sucede noutras florestas públicas do litoral que arderam em 2017.

“Isso tem um preço caro a pagar no futuro que é a continuidade do desordenamento destas matas e a colocação em risco das populações e dos bens que estão em sua proximidade, porque dentro de alguns anos, se se mantiver o business as usual, as catástrofes voltam a aparecer”, alerta. Através da Assembleia da República, o Bloco de Esquerda quer levar o Governo a fixar publicamente um calendário de acções e investimentos.

De acordo com a bióloga Sónia Guerra, membro do Observatório do Pinhal do Rei, a tutela tem gerido “essencialmente a questão da venda da madeira, da remoção, dos leilões, deixando todo o restante trabalho de requalificação para depois”. Ao serviço do ICNF – Instituto Conservação da Natureza e das Florestas, “a meia dúzia de operacionais que se vêem no terreno parecem ser os mesmos” e não há “o reforço técnico, de meios humanos, tecnológicos, mecânicos, que se esperaria haver”, o que, conclui a especialista, “aflige bastante a população porque passa a ideia de que o Pinhal de Leiria, sendo a mata mais emblemática do País, não está a ser uma prioridade”.

Segundo Sónia Guerra, “é visível” que ao nível de sementeiras e de plantação se fez “muito pouco” e resulta em maioria da iniciativa de voluntários e mecenas privados. Já se podia “ter plantado e semeado muito mais”, acredita, tendo em conta que nos talhões de povoamentos mais jovens é menos viável ou mesmo improvável o êxito da regeneração natural.

A especialista lembra também que depois de um incêndio “há um boom germinativo” de acácias, que “têm uma vantagem competitiva” e “ocupam grandes áreas, não deixando que outras espécies se implementem, nomeadamente, o pinheiro bravo, que fica comprometido”. Daí a importância de desencadear planos de contenção o mais cedo possível, até numa óptica de poupança de tempo, dinheiro e meios humanos. Mas, garante a bióloga, na Mata Nacional de Leiria “o controlo das espécies invasoras, nomeadamente, das acácias, só está a ser feito nalgumas faixas de contenção na chamada rede primária dos 10 metros de margens de estrada”.

Outro técnico do Observatório do Pinhal do Rei, que confirma a praga das acácias e os baixos índices de reflorestação, aponta a lentidão na venda e retirada de madeira, que, de acordo com o Ministério do Ambiente, continua por fazer em 15% da área ardida com material lenhoso para exploração florestal. “Esses cortes deviam ter sido logo feitos. A Mata Nacional de Leiria vai até ao vale de Água de Madeiros. A Sul desse vale chamamos a mata do Camarção, que é uma mata privada, que também sofreu o incêndio. Passados uns meses, já estava limpa e os pinheiros que nasceram espontaneamente já estavam ali a desenvolver-se sem terem problemas de serem pisoteados”, refere José Nunes André. O geógrafo alerta para os danos provocados pelas máquinas pesadas que ainda hoje operam no Pinhal de Leiria. “Vão pisoteando os pinheiros que nasceram espontaneamente e são esses que se calhar são capazes de ter 99 ou 100 por cento de êxito de sobreviver, porque nasceram naquele habitat”.

O deputado do Bloco de Esquerda Ricardo Vicente conclui que o ICNF “vive em pobreza extrema”. E dá o exemplo das áreas que não arderam, onde as intervenções de gestão florestal continuam “muito atrasadas”. Nesse sentido, o Bloco de Esquerda quer que pelo menos metade dos 13,5 milhões de euros previstos no Orçamento do Estado 2020 para as matas nacionais do litoral sejam destinados ao reforço do ICNF, em meios operacionais, humanos e tecnológicos.

O incêndio de Outubro de 2017 atingiu 86% do Pinhal de Leiria, exclusivamente localizado no concelho da Marinha Grande, mas invadiu manchas de outras matas nacionais, incluindo a mata do Pedrógão e a mata do Urso, que atravessam os concelhos da Marinha Grande, Leiria e Pedrógão.

Em Janeiro de 2018, passam agora dois anos, o primeiro-ministro António Costa esteve no concelho da Marinha Grande a apresentar a Estratégia de Recuperação do Pinhal do Rei.

Governo promete investimento

A comissão científica constituída pelo Governo produziu já um relatório para a recuperação das matas nacionais do litoral, com recomendações que são conhecidas desde Outubro de 2018. Numa resposta ao Bloco de Esquerda, na passado dia 10 de Janeiro, o Ministério do Ambiente diz que existem quatro projectos de reflorestação que se encontram na fase final de contratação pública e que visam um investimento de 4,9 milhões de euros num total de 3.258 hectares de área ardidas nas matas nacionais de Leiria, Pedrógão, Urso e Dunas de Quiaios. No mesmo documento, é explicado que a plantação vai ocorrer maioritariamente nas áreas com povoamentos de idade inferior a 20 anos. Nas restantes, pretende-se aguardar pelos efeitos da regeneração natural durante quatro ou cinco ciclos vegetativos (até ao ano 2021 ou 2022). De acordo com o Ministério do Ambiente, o ICNF irá desenvolver em 2020 um plano de acção para controlo e contenção de espécies exóticas invasoras. Na resposta ao Bloco de Esquerda, o Governo revela ainda que foi alienada 85% da área ardida no Pinhal de Leiria com material lenhoso para exploração florestal. Os planos de gestão florestal para as matas nacionais e perímetros florestais do litoral encontram-se em reformulação.

O artigo foi publicado originalmente em Jornal de Leiria.

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