O setor pecuário fornece um terço da oferta mundial de proteína, com os sistemas mistos de produção agrícola e pecuária e a avicultura a assegurarem a maior fatia, conclui um novo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
O documento indica ainda que o setor atravessa uma transformação profunda, que deverá prolongar-se pelas próximas décadas.
Os sistemas mistos de produção agrícola e pecuária e os sistemas de produção avícola representam, cada um, cerca de 30% do fornecimento global de proteína de origem pecuária. Os sistemas de pastoreio contribuem com 12%, a produção de suínos com 19% e os sistemas de engorda em confinamento com apenas 3%. Os ruminantes asseguram 26% da produção mundial anual de carne, contra 74% dos monogástricos, e os bovinos são responsáveis por 81% da produção mundial de leite.
Os alimentos de origem animal terrestre (TASF, na sigla em inglês) representam, em média, 33% do fornecimento mundial de proteínas, com valores acima de 50% na América do Norte e do Sul, na maior parte da Europa e na Austrália e Nova Zelândia, e abaixo de 18% em África. Segundo o relatório, a produção destes alimentos aumentou mais de cinco vezes desde 1961.
Em termos económicos, o setor pecuário representa 40% do PIB agrícola mundial, o equivalente a cerca de 1,8 biliões de dólares, com contributos relevantes tanto para a economia formal como para a informal. A FAO sublinha que o papel do setor na segurança alimentar assenta sobretudo na comercialização nacional e local: apenas 15% da carne, 12% do leite e derivados e 3% dos ovos são transacionados internacionalmente.
A competição entre a alimentação animal e os alimentos para consumo humano pelo uso da terra, num contexto de estabilização da expansão das terras aráveis e da desflorestação, está a impulsionar um melhor aproveitamento de subprodutos agroindustriais, de fontes de alimentação menos convencionais e de pastagens e terras marginais. O aumento da procura está também a acelerar a intensificação dos sistemas mistos e a favorecer a produção de monogástricos, pela sua eficiência económica, menor utilização do solo e menor necessidade de mão de obra nas zonas rurais.
No plano ambiental, os sistemas de produção pecuária são responsáveis por 12% das emissões antropogénicas de gases com efeito de estufa (GEE), com os bovinos como principal fonte e o metano entérico como componente importante. Os sistemas com baixa dependência de fatores de produção externos emitem menos GEE por unidade de área, enquanto os sistemas com alta dependência apresentam, em geral, menor intensidade de emissões por quilograma de produto ou de proteína. O relatório destaca ainda o papel da pecuária na bioeconomia, ao aproveitar recursos não comestíveis para humanos e ao fornecer produtos que podem ser transformados em fertilizantes orgânicos, bioenergia e biomateriais.
“As diversas raças e espécies de animais de criação no nosso planeta podem prosperar numa ampla variedade de ambientes, particularmente em áreas menos adequadas ou inadequadas para a produção agrícola, e contribuir para uma grande variedade de dietas saudáveis”, escreveu QU Dongyu, diretor-geral da FAO, no prefácio. O responsável aponta, porém, desafios como a desflorestação, o uso da terra e da água, as emissões de GEE, a competição entre alimentos e alimentação animal, o maneio dos efetivos, as lacunas de produtividade, a saúde e o bem-estar animal, a resistência antimicrobiana e o risco de doenças zoonóticas e de origem alimentar.
O investimento no setor tem crescido desde 2000, embora a partir de uma base baixa. As prioridades públicas incluem o controlo de doenças animais, a nutrição animal, o melhoramento genético e a infraestrutura de investigação, enquanto o investimento privado se concentra na produtividade ao nível da exploração, sobretudo na produção leiteira. As perdas de alimentos de origem animal nas fases de produção, manuseamento, armazenamento e transformação são elevadas nos países de rendimento baixo e médio, em particular na África subsaariana, devido sobretudo à mortalidade animal causada por doenças.
O relatório, intitulado “Contribuição do setor pecuário para a segurança alimentar e sistemas agroalimentares sustentáveis”, é o terceiro de uma série elaborada a pedido dos membros da FAO.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.















































