No âmbito do Dossier ‘Coesão e Territórios Rurais’, publicado na última edição da Revista Jovens Agricultores (n.º 144), da AJAP – Associação dos Jovens Agricultores de Portugal, publicamos hoje o artigo de João Almeida, Coordenador da Associação Rural Move e Membro do Conselho Consultivo da AJAP, sobre o empreendedorismo no Mundo Rural. No artigo, é realçada a figura do Jovem Empresário Rural (JER), considerada “um instrumento com enorme potencial, que pode ser a chave para atrair talento, dinamizar os ecossistemas locais e acelerar a renovação social, económica e demográfica dos nossos territórios rurais”.

Autor: João Almeida | Investigador e Docente Universitário; Coordenador da Associação Rural Move; Membro do Conselho Consultivo da AJAP
O empreendedorismo é hoje uma das forças mais transformadoras do mundo rural. Para além de criar emprego e gerar rendimento, traz vida, inovação e identidade aos territórios. Cada novo projeto que nasce numa aldeia é uma semente de futuro, capaz de valorizar recursos locais, atrair talento e renovar a esperança das comunidades.
Contudo, o empreendedor não aparece do vazio e raramente é apenas uma questão individual. O sucesso de um empreendedor depende do ambiente que o rodeia, das pessoas, das instituições e das relações. É aqui que o conceito de ‘ecossistema empreendedor’, um termo cada vez mais usado nas políticas públicas, pode ajudar a compreender como os territórios rurais podem criar condições para inovar e prosperar.
Um ecossistema empreendedor é o conjunto de pessoas, instituições, recursos e valores que interagem entre si para apoiar a criação e o crescimento de iniciativas empreendedoras. Tal como na natureza, a força de um ecossistema está na sua diversidade e na interdependência das várias partes. Municípios, universidades, associações locais, bancos, empresas, cooperativas e cidadãos desempenham papéis complementares que, quando articulados, formam um ‘solo fértil’ onde as ideias destes empreendedores podem ganhar forma.
Nos territórios rurais, o desafio é maior, mas também mais interessante. No mapa (Fig. 1) é descrito um índice dos ecossistemas empreendedores (EE) em Portugal1 (por sub-região) onde é possível ver a disparidade entre territórios rurais. No entanto, a distância dos grandes centros não significa necessariamente isolamento, desde que se aposte em redes de confiança, colaboração e aprendizagem mútua. Um empreendedor rural precisa tanto de apoios financeiros como de mentoria, partilha de experiências e reconhecimento. O capital humano e o capital social (a capacidade de cooperar) são importantes bases para estas inovações locais.

A investigação que realizei sobre ecossistemas empreendedores rurais em Portugal mostra que os territórios mais dinâmicos são aqueles que constroem relações de longo prazo entre o setor público, o setor privado e a sociedade civil. Neles, a inovação não nasce por acaso, mas de uma cultura de participação, experimentação e de abertura ao exterior.
Para fortalecer os ecossistemas empreendedores rurais, é essencial agir em quatro frentes complementares:
- Reforçar a governança colaborativa e aberta – envolver autarquias, universidades, associações e empresas em plataformas comuns de planeamento e ação.
- Valorizar as instituições de proximidade – escolas, cooperativas ou associações juvenis devem ser reconhecidas como espaços de aprendizagem empreendedora.
- Apostar nas ligações translocais – criar pontes com outras regiões e países para trocar conhecimento, recursos e inspiração.
- Promover narrativas positivas – afirmar o orgulho em pertencer e construir a partir do rural, contrariando visões de atraso ou dependência.
O futuro do empreendedorismo rural passa por reconhecer que o território é mais do que um espaço físico, é uma rede viva de relações, identidades e possibilidades. Criar condições para que as pessoas cooperem, inovem e se sintam parte de um propósito comum é o primeiro passo para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável.
A figura do Jovem Empresário Rural (JER) é um instrumento com enorme potencial, que pode ser a chave para atrair talento, dinamizar os ecossistemas locais e acelerar a renovação social, económica e demográfica dos nossos territórios rurais. A sua efetiva operacionalização (com financiamento adequado, apoio técnico e mecanismos de integração) permitiria reconhecer formalmente o papel destes jovens que investem no Interior e criaria um verdadeiro “corredor de oportunidade” para a nova geração que quer viver, trabalhar e inovar no mundo rural.
Os Jovens Agricultores e os Jovens Empresários Rurais estão na linha da frente desta mudança. São eles que mostram que é possível unir tradição e inovação, economia e comunidade, o local e o global. Estimular um ecossistema empreendedor é, no fundo, semear o futuro, enraizado no território, mas aberto ao mundo.
1 Ver mais sobre este estudo em: Almeida, J., & Daniel, A. D. (2025). Medição de Ecossistemas Empreendedores Locais: Perspetivas das Sub-Regiões Portuguesas. Revista Portuguesa de Estudos Regionais, (70), 53-72. https://doi.org/10.59072/rper.vi70.683
Nota: Artigo publicado na edição n.º 144 da Revista Jovens Agricultores da AJAP. A sua reprodução, na íntegra ou parcial, requer autorização prévia da AJAP.
O artigo foi publicado originalmente em AJAP.














































