Os desafios das Perdas Pós-Colheita (PPC), o seu impacto na economia, no ambiente e na saúde e possíveis soluções para a sua mitigação – Willy Gabriel Mbouken II

Os desafios das Perdas Pós-Colheita (PPC), o seu impacto na economia, no ambiente e na saúde e possíveis soluções para a sua mitigação – Willy Gabriel Mbouken II

O desperdício de alimentos em cada ano devido a Perdas Pós-Colheita (PPC) é suficiente para alimentar o total de pessoas desnutridas a nível global. Cerca de 870 milhões de pessoas sofrem de desnutrição crónica, sendo que 27% destas estão em África. Este problema é agravado pelo aumento da população mundial, particularmente em África, onde se espera um crescimento da população de 2,5% (de 1990 para 2020) comparativamente a uma média global de 1,1%.

Devido aos desafios existentes no que toca à segurança alimentar e ao aumento da escassez de recursos, o tópico do desperdício alimentar tornou-se central na agenda internacional, uma vez que tem grandes implicações sociais, económicas e ambientais. O desperdício alimentar é particularmente preocupante na região africana subsaariana. Por conseguinte, a sua redução é amplamente reconhecida como determinante para reduzir os desafios de sustentabilidade, tais como a insegurança alimentar, as alterações climáticas e a falta de água.

Onde nos encontramos?

De acordo com a FAO, cerca de um terço dos alimentos produzidos anualmente em todo o mundo são perdidos ou desperdiçados. Isso representa um total de quase 1,3 biliões de toneladas. O desperdício envolve alimentos destinados ao consumo humano, que são perdidos em todas as etapas da cadeia de valor, variando de acordo com a sua posição na cadeia de valor e localização geográfica, bem como com as condições sociais e económicas existentes num determinado território.

Os países em desenvolvimento são os mais afetados pelas perdas de alimentos como parte da produção agrícola (durante a colheita, transporte e armazenamento de alimentos produzidos), enquanto os países mais desenvolvidos são principalmente afetados pelo desperdício de alimentos no retalho e no consumidor (em casa e na restauração).

Esta dispersão do problema destaca a medida em que as desigualdades causam disfunções: na primeira situação há subdesenvolvimento e, na segunda, há abundância (muitas vezes distribuída de forma desigual), o que impulsiona o desperdício.

Foco insuficiente na redução de PPC

As intervenções em Perdas Pós-Colheita podem ter amplos impactos económicos, de saúde e ambientais. Embora uma intervenção em PPC tenha o principal resultado de redução de perdas, também pode criar impactos secundários importantes, como por exemplo, melhorar os meios de subsistência dos agricultores e outros atores da cadeia de valor, proporcionar uma oportunidade para a segurança nutricional e a diversidade de produção, e melhorar o uso dos recursos naturais e a gestão ambiental.

O aumento da disponibilidade de alimentos é impulsionado principalmente por três tipos de intervenção:

  1. Aumento da área de terra arável disponível;
  2. Aumento da produtividade em áreas cultiváveis;
  3. Redução de Perdas Pós-Colheita (PPC)

Em África, a maioria dos esforços tem-se verificado, principalmente, no aumento da produtividade, por uma boa razão – a produtividade em África (1,1 toneladas por hectare) foi aproximadamente um terço da média global (3,2 toneladas por hectare) entre 2008 e 2010.

No entanto, também se deve intensificar os esforços para reduzir as Perdas Pós-Colheita, de modo a que mais alimentos produzidos cheguem aos consumidores, pelo mesmo nível de utilização de fatores de produção. Assim, irá garantir-se que as melhorias previstas na produção agrícola (através do aumento da produtividade) terão o impacto desejado na disponibilidade de alimentos necessária para o crescimento da população subsaariana.

Mas o que se tem verificado não corresponde à necessidade, pois embora o aumento da produção agrícola tenha e continue a receber grande atenção, empregaram-se desproporcionalmente menos recursos para abordar a questão das Perdas Pós-Colheita.

Podem ser empregues inúmeras soluções para reduzir as PPC e criar os impactos secundários desejados. Estas soluções podem ser categorizadas genericamente como soluções de produto (i.e., tecnologias – que, por conseguinte, podem ser divididas em tecnologias para armazenamento e manuseamento e tecnologias de valor acrescentado), e soluções de processo (i.e. canais de venda).

Soluções de produto

Soluções para armazenamento e manuseamento referem-se a tecnologias que melhoram as condições na fase de manuseamento e armazenagem de produtos agrícolas e focam-se principalmente em reduzir perdas – exemplos podem incluir sacos herméticos ou silos metálicos que permitem aos agricultores reduzirem perdas por limitação da cultura.

Outras soluções de produto focam-se na adição de valor, tendo o efeito de diminuição da perecibilidade e, por conseguinte, reduzir as PPC. Estas soluções incluem unidades de processamento móvel, secadores solares, raladores e prensas. Tipicamente reduzem as PPC por limitarem o manuseamento e o transporte de produtos frescos (se utilizados na exploração agrícola ou perto dela) e por aumentarem a vida útil dos produtos.

Soluções de processo

Os canais de venda não são, necessariamente, desenhados para reduzir as PPC. No entanto, a sua boa implementação permite uma eficiente transferência dos produtos agrícolas desde os agricultores e agroindústria até aos consumidores, já que a produção é realizada com base na procura por parte do mercado. Quando tal acontece, os produtos são menos propensos a perecerem já que se assegura que os mesmos são produzidos para um fim pré-determinado.

A necessidade de uma abordagem sistémica orientada para o mercado para abordar a questão das PPC tornou-se evidente a partir de falhas no passado e sucessos recentes. A abordagem impulsionada pela tecnologia que dominou as atividades relacionadas com PPC nos anos 70 e 80 são ainda prevalentes, mas na sua maioria não tiveram o impacto desejado na redução de perdas. Tradicionalmente, a redução de perdas foi vista como uma intervenção autónoma para melhorar a segurança alimentar. Apesar de algum sucesso na redução de perdas na exploração ou perto desta, muitas intervenções deste tipo têm enfrentado diversos desafios, como sejam:

  1. Alcançar a adoção adequada
  2. Atrair suporte financeiro a longo-prazo
  3. Alcançar sustentabilidade
  4. Alcançar impacto em larga escala
  5. Assegurar que o alimento produzido chegue aos consumidores.

Conclusão

O tópico das PPC é muito importante para mim, enquanto Camaronense (país onde nasci e que é o celeiro da África Central, mas que continua a perder 45% de toda a fruta e legumes produzidos naquele país).

Encontramos cada vez mais cidades em África com uma população necessitada de novas experiências e novos produtos, acima de tudo porque os produtos nacionais começaram a ser favorecidos em detrimento dos produtos importados, não só porque aparentemente serem mais baratos mas acima de tudo pela questão do desenvolvimento local.

Estão a ser desenvolvidas muitas iniciativas para potenciar este ema apesar de, no meu ponto de vista, o foco devia ser na partilha de conhecimento e no marketing de novos produtos.

 

Willy Gabriel Mboukem II

Fundador da PHL Solutions

 

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