Os amigos do ambiente gostam de passear no campo ou nas redes sociais? – José Maria Vieira Martins

Os amigos do ambiente gostam de passear no campo ou nas redes sociais? – José Maria Vieira Martins

Não devemos tomar decisões com base em fundamentalismos vindos das redes sociais e na desinformação acerca do mundo rural, pois há alternativas, reais e sustentáveis, para os problemas ambientais

Hoje tenho a sorte de estar a passear pelo Saldanha. Enquanto caminho descontraidamente, penso na sorte que tenho em estar aqui, a passear em pleno centro da cidade, longe dos incautos bovinos que insistem em poluir o nosso planeta, por constantemente deixarem fugir incontáveis flatulências. E longe, bem longe dos malfadados olivais intensivos que destroem o nosso Alentejo, destruindo a identidade e paisagem, ávidos sorvedouros de água do nosso querido, e tão histórico, Alqueva.

Apesar de ser apenas uma paródia, a verdade é que existe hoje uma necessidade cada vez maior de optimizar a agricultura. Existem cada vez mais pessoas para essa agricultura alimentar, cada vez mais concentradas nas cidades.

É uma impossibilidade matemática: face ao número de pessoas que actualmente habita nas cidades um pouco por todo o mundo, como poderia a agricultura não ser super intensiva, industrializada, mecanizada e optimizada? Existem hoje, é um facto, alternativas para produzirmos os nossos próprios alimentos, tais como a producónica, as hortas comunitárias e até pequenos vasos em casa. E sim, elas resultam em alimentos mais saudáveis e alguma poupança na carteira. Porém, a sua expressividade será sempre reduzida e pouco contribuem para alteração significativa do rumo da agricultura mundial.

Qual o cenário alternativo? Podemos abraçar uma agricultura mais sustentável, mas industrializada e de larga escala. Claro, mas nesse caso abracemos também as consequências: alimentos com menor capacidade de conservação e mais caros; compras de menor volume, mais deslocações (a pé de preferência), a um custo mais elevado. Talvez não seja para todos…

Aliás, as praças e os mercados estão a desaparecer; preferimos comprar tudo de uma vez (compras para o mês se pudermos, feitas online e com entrega em casa, enquanto passamos o dedo pelo Instagram). É o constante desenvolvimento, mecanização e melhoria da agricultura que permite, agora como no passado, esta distribuição em escala a menor custo, financeiro e mesmo ambiental.

Podemos melhorar e gastar menos recursos ambientais? Sem dúvida! Não sou daqueles que pensa que “está sempre tudo bem”. Quero apenas lembrar que quem mais se preocupa com o ambiente é quem dele depende, nele vive e trabalha — e não quem tem mais publicações nas redes sociais…

Existe muita coisa a melhorar no ambiente, na agricultura, na pecuária, na caça, na pesca, em geral existe muita coisa a melhorar no mundo. Agora, não devemos tomar decisões com base em fundamentalismos vindos das redes sociais e uma desinformação acerca do mundo rural e as alternativas, essas sim reais e sustentáveis, para os problemas ambientais.

Não podemos achar que resolvemos os problemas do país comprando em mercados de produtos biológicos como programa chic de sábado à tarde e os problemas dos outros países e continentes com longos posts no Facebook sobre as suas “barbaridades” contra o ambiente. Os Romanos somos nós, temos o dever de instruir e civilizar.

Proponho pois que troquemos o campo dos comentários por um passeio no campo para percebemos os problemas técnicos, ouvirmos os agentes diretos e indiretos. Não tomemos o todo pela parte, nem nos deixemos levar por fundamentalismos ou demagogias de vão de escada.

Quem não distingue uma cebola de uma batata plantada, talvez troque alhos por bogalhos.

O artigo foi publicado originalmente em Observador.

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