O pacto ecológico europeu e o futuro dos processos de ruralização – António Covas

O pacto ecológico europeu e o futuro dos processos de ruralização – António Covas

Estão em curso distintos processos de ruralização, fonte de muitos e novos conflitos de interesse. Não podemos mais idealizar o mundo rural por mais assombrosas que sejam as nossas representações.

Na formulação de novas propostas para as políticas europeias da próxima década observamos os esforços da União Europeia para consagrar uma agenda das alterações climáticas e riscos globais, da economia da biodiversidade, dos ecossistemas e serviços de ecossistema, enfim, de uma economia energética hipocarbónica e ecossistémica. De onde se deduz que temos de voltar a reconhecer a imanência dos territórios e reinventar um contrato social com o mundo agro-rural para lá de todas as dicotomias reais e artificiais criadas pela modernidade urbano-industrial e urbano-rural.

No cruzamento das grandes transições em curso – climática, ecológica, energética, digital, laboral – os bens e serviços que incorporem, ao mesmo tempo, a eficiência económica, a responsabilidade social, a sustentabilidade ambiental e a cultura dos territórios, serão considerados bens de mérito e reputação e estes atributos distintivos serão a sua fonte de valor primordial, que a sociedade premiará quer por via do preço, de contrato e/ou transferência pública. A procura destes sinais distintivos tornar-se-á, em si mesmo, um fator de diferenciação por excelência e os territórios-rede procurarão constituir-se à sua volta. Assim é, por maioria de razão, também, com a agricultura e os mercados de futuro do mundo rural onde o objetivo primordial é reduzir as pegadas ecológica, energética, hídrica, pedológica.

Os mercados de futuro do mundo rural

Do que se trata, portanto, é de criar as condições para que estes sinais distintivos vejam a luz do dia e sejam, progressivamente, incorporados no desenho dos mercados agroecológicos, a fonte de provisão dos bens de mérito e reputação. Pela sua natureza sócio-estrutural, os mercados agroecológicos serão o grande desafio do próximo futuro, quer para a investigação científica, na zona de fronteira entre a economia e a ecologia, quer para as políticas do território, na formulação conceptual e no desenho de novos instrumentos, de tal modo que seja possível lançar uma nova geração de bens públicos rurais e infraestruturas agroecológicas, em que o lugar central seja desempenhado pelos mercados e bens de mérito e reputação.

Chegados aqui, estamos em condições de enunciar aqueles que serão, seguramente, os principais mercados de futuro do mundo agro-rural das próximas gerações. Eles estarão, certamente, na confluência de quatro grandes vetores estruturantes: a biodiversidade, a agroecologia, os ecossistemas e as paisagens globais. Eis os principais mercados de futuro do mundo rural:

  • Os mercados dos produtos “limpos, justos e seguros”: uma gama cada vez mais alargada, que as biotecnologias, as tecnologias agroecológicas e ecossistémicas, mas, também, a agricultura de precisão vão dilatando;
  • Os mercados do carbono: as transações entre quem limpa e quem suja e o papel dos fundos de investimento no “sequestro carbónico” do mundo rural;
  • Os mercados da água: da água da chuva à água do mar e desta até à água da rede, de novo as cisternas da nossa nostalgia, quem sabe?
  • Os mercados da biodiversidade e dos serviços de ecossistema: os bens de mérito por excelência, socializados, com gosto, por todos nós, os contribuintes;
  • Os mercados das amenidades e da arquitetura paisagística: o ordenamento da paisagem global é um recurso precioso e uma externalidade de primeira linha para a produção de amenidades recreativas e turísticas;

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