Estarão as “novas culturas” a ameaçar os Sistemas agro-silvo-pastorais? – João Sousa

Estarão as “novas culturas” a ameaçar os Sistemas agro-silvo-pastorais? – João Sousa

No seguimento do Webinar: “Cultivar o Futuro – Cultivar na Região: a Diversidade dos Modelos Agrícolas”, no dia 21 de outubro do ano transato, a Doutora Lívia Madureira (PhD em Economia Agrária) analisou de forma bastante interessante a grande ameaça que os sistemas agro-silvo-pastorais poderão sofrer tendo em conta a vaga comercial de “novas culturas” e as “modernas tendências de pensamento”. Por ter trabalhado no Sistema Importante do Património Agrícola Mundial (GIAHS) da região do Alto Barroso na minha tese de mestrado e estar dentro das características biológicas e ecológicas deste, para além da grande preocupação que este assunto me desperta, decidi explorar esta ideia.

Atualmente há uma vincada vertente de pensamento de anti consumo animal assim como dos produtos resultantes das atividades destes, onde se tenta substituir estes consumos através de produtos de origem vegetal. Assiste-se assim, aos poucos, a uma redução das atividades de pastorícia e substituição dos produtos derivados quase exclusivamente por plantas. Claro que com o avançar dos estudos nas áreas da saúde e da alimentação/nutrição sabe-se cada vez mais que há certos alimentos que devem constar nas nossas dietas e que uma boa alimentação é a base para uma vida mais prolongada e com menor propensão para sofrer de doenças potencialmente mortais. Mas, infelizmente, não é de equilíbrio que esta questão se trata, mas sim curiosamente da falta dele.

Imaginemos então o quão desastroso poderiam ser para os sistemas agro-silvo-pastorais a substituição da sua flora característica por novas culturas em ascensão, como a do amendoal (e.g. tanto para consumo da fruta em si, como também, para substituição do leite obtido do gado bovino), aliado a uma redução ou paragem total das atividades de pastorícia.

  • Muitos destes sistemas possuem relações biológicas e ecológicas milenares (há documentação de atividades agrícolas e domesticação de animais, na Península Ibérica, pelo menos desde 5500 a.C.), onde o equilíbrio dos serviços de ecossistemas depende vitalmente da interação entre todos os agentes de solo e os produtos das suas atividades. Por exemplo, se não houver presença animal uma razoável porção da matéria orgânica disponível desaparece, impedindo o normal fornecimento e circulação de nutrientes, não havendo assim alimento para os seres vivos presentes naquele terreno. É muito simples, já dizia o filósofo Lao-Tze no século IV a.C. “grandes feitos são possíveis quando se dá importância aos pequenos começos”, isto é, se se cortar um elo da corrente, todo o ecossistema vai sofrer danos irreparáveis.
  • Grande parte da população que habita nestes sistemas depende deles para a sua sobrevivência. Sem a venda dos produtos da pastorícia, aliado a uma alteração das espécies cultivadas, várias famílias poderão perder o seu sustento tanto económico como alimentar, criando assim um grave problema social.
  • Como já referi, alguns destes sistemas agro-silvo-pastorais foi-lhes atribuída a classificação de Património Mundial, devido aos milénios de interação equilibrada entre o Homem e a Natureza que acabaram por criar ecossistemas únicos e de uma riqueza histórica, cultural e biológica inigualável. Estes sistemas devem assim ser protegidos e preservados com o máximo afinco e dedicação.
  • Como se já não bastassem todas as razões que enumerei nos pontos anteriores, deixo ainda (para os mais céticos) mais alguns motivos para pensarem nas consequências que estas novas culturas e modos de exploração podem causar:

− Nas novas culturas, na grande parte dos casos, são empregues métodos de super produção e exploração, o que não respeita nem os ciclos de vida nem a sazonalidade natural das espécies, provocando um acentuado desgaste e empobrecimento do solo.

− Muitas destas plantas não possuem características próprias da área e/ou do clima em que irão ser produzidas.

− E o desaparecimento animal não vai conduzir à sustentabilidade, mas sim ao desequilíbrio dos ecossistemas, sendo uma prova irrefutável os milénios de coexistência que tornaram aqueles sistemas dos mais únicos, saudáveis e equilibrados a nível mundial.

Sim, todos nós queremos melhorar a nossa saúde e cada vez mais aproveitar o que de bom a terra tem para nos dar, mas não é com extremismos, e muitos menos com falta de estudo científico que se vai chegar lá. A chave para o sucesso é o equilíbrio, sempre foi e sempre será!

João Sousa

Mestre em Ecologia

Os Nemátodes – Os “super agentes” do solo e os benefícios superiores aos prejuízos – João Sousa

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