O milho e a agricultura de precisão

O milho e a agricultura de precisão

Tem sido quentes, secos e luminosos estes dias de março. O calendário diz que estamos na despedida do inverno. A natureza, com folhas, flores e dias fantásticos diz-nos que está a chegar a primavera. Os agricultores preparam as máquinas, encomendam sementes, adubos e olham para o calendário com a mesma ansiedade dos pilotos da fórmula 1 na grelha de partida.

“Como escolhem a data para começar as sementeiras de milho?” – perguntei a um grupo de gente que sabe disto. Primeira resposta: “O meu pai dizia que só se começa a semear quando tiramos o primeiro cobertor da cama. Eu uso uma vinha velha como sinal, quando rebenta podemos começar. No entanto estamos à espera que a terra fique mais seca, pois ainda está muito húmida. A vinha já está rebentada. Alguém usa algum critério mais cientifico?” “Nós começamos sempre a semear uma semana depois de ti”, respondeu outro. Um terceiro contou a experiência positiva de semear em Março e outro ainda, semeou em fevereiro, no Alentejo. Num ano correu muito bem, no ano seguinte correu muito mal.

Ao semear cedo algumas parcelas, não pretendo ser “o primeiro”, até porque a 6 de março já vi alguém a semear milho, portanto, escusamos de correr atrás do “prémio”. Eu procuro aproveitar a chuva da primavera para regar campos sem água de rega, para já ter em Agosto alguma silagem antecipada e ter em setembro milho grão para as galinhas, sem precisar de ir à eira ou ao secador. Para isso nesta altura e nestes campos uso variedades de “ciclo curto”, menos produtivas, mas precoces na colheita.

Há 40 anos atrás, o meu pai colocava um trator a bombear água da ribeira da granja, a partir da Arroteia de Baixo, uns 300 metros de extensão e alguns metros de declive a subir até aqui a casa onde outro motor elétrico bombeava mais algumas centenas de metros até ao “campo do sol”; Lá em baixo os canos rebentavam e metia-se cimento para consertar. Mais perto do campo, a mangueira, à superfície, na extrema do campo, ia sofrendo queimadelas cada vez que uma vizinha emigrante vinha de férias da Alemanha e “limpava” o “valo” com fósforos. Entretanto passámos a regar levando água com trator e cisterna… até que fiz um curso de “agro-gestão” na Leicar e ao fazer contas a esses custos, deixei de regar e passei a semear, mais cedo, milho curto (como via fazer um vizinho, agora meu senhorio), com bons resultados.

Num colóquio sobre milho e agricultura de precisão, que organizámos neste fevereiro, aprendi que para fazer esta agricultura não é obrigatório fazer investimentos pesados em semeadores, sensores, internet e antenas gps. Podemos começar por afinar bem o que temos, como semeadores e pulverizadores, fazer registos e recorrer aos dados e conselhos disponíveis. Quem vende sementes ou adubos pode fazer de forma gratuita análises ao solo e dar aconselhamento técnico. Isto é muito importante porque às vezes estamos a desperdiçar dinheiro, por causa de um nutriente que falta e a colocar outros em excesso. Há previsões gratuitas da meteorologia, até 10 dias com alguma segurança. Há aplicações para telemóvel, como “agrotempo” ou “climate fielview” e serviços associativos que nos dão indicações sobre datas da sementeiras, necessidades de rega e data ideal de colheita. Há estações de avisos sobre épocas de tratamentos para vinhas e frutas.

Entretanto, as temperaturas estavam amenas, mas como estaria a temperatura do solo? Não fazia ideia. Nunca tinha medido, mas tinha aqui um velho termómetro com sonda de 12 cm, de uma máquina que já não uso. Coloquei uma pilha nova e levei para o campo. 11,2ºC, 11,5ºC…Acima de 10 posso semear. só tenho alerta do agrotempo para a drenagem do solo, mas estes são terrenos altos e secos. Estão enxutos. Decidi arriscar, milho para a terra! É um risco calculado, porque estou a semear apenas 10% da área. O resto espera quase todo para o fim de abril.

O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.

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