O meu testemunho e opinião sobre robôs de ordenha

(artigo publicado na Revista Ruminantes)

Pediram-me, por mensagem privada, uma opinião sobre o robô de ordenha. Já recebi muitas visitas e já respondi muitas vezes, mas nunca o tinha feito por escrito. Após 7 anos de experiência como proprietário de um robô de ordenha e tendo recebido uma mensagem com essa pergunta, acho que a partilha pública da minha resposta pode ser útil para outros que tenham interesse na matéria.
Não me lembro de quando ouvi falar de robô de ordenha pela primeira vez, mas recordo-me que a perspetiva de acabar com a “prisão” da ordenha logo me entusiasmou. É uma tecnologia com mais de 20 anos. Em 2004 organizámos na AJADP uma inesquecível viagem ao País Basco para ver 2 robôs Lely (contacto por um chat da internet com produtores espanhóis, ainda não havia Lely Center em Portugal) e 2 robôs Delaval (colaboração total do Eng. Santoalha e da equipa Harker). A viagem, a primeira que organizámos, foi memorável. Vimos os robôs, quase ficámos bloqueados na neve da autoestrada de montanha a caminho de Pamplona e no fim de tudo, com estradas cortadas e um motorista nervoso regressámos ao Porto via Madrid e descemos o então IP5 às 4 da manhã com o autocarro a derrapar nas curvas como nunca vi nem quero voltar a ver.
Sobrevivemos para contar e em 2006 o José António e a Manuela instalaram o primeiro robô de ordenha em Portugal, DeLaval (aviso já que este artigo não pretende defender nenhuma côr). Poucos anos mais tarde a Lely instalou os seus primeiros robôs e depois vieram Sac, Gea, Boumatic…
Em 2012 tivemos projeto aprovado para a Quinta do Sinal e o robô começou a funcionar em 2013. A sala de ordenha foi encerrada e imediatamente vendida. Recuperei uma antiga bomba de vácuo para ter uma ordenha portátil alternativa para algum animal que não se consegue deslocar ao robô e permanece na enfermaria.
Antes dessa data passou-se uma coisa muito importante, a decisão de comprar robô e a escolha da marca. Optei pelo robô, partindo do que li, dos vendedores que ouvi e sobretudo do testemunho de vários colegas que já tinham robô e me disseram que podia confiar porque funcionava!
É muito importante visitar vacarias com robô, com os vendedores e sem vendedores. Tirar tempo para ver como as vacas interagem, como se fizeram as obras de adaptação ou construção, saber como avaliam as escolhas que fizeram. Uma vacaria deve durar dezenas de anos. Um robô pode durar 20 anos, porque vão surgindo atualizações e portanto convém escolher bem antes de comprar.
Instalei o robô no lado da vacaria oposto à ordenha e, a 19 de fevereiro de 2013, ao fim da ordenha da manhã fechamos a porta da ordenha e abrimos a porta do robô na outra ponta da vacaria. Acompanhamos em permanência as primeiras 24 horas das vacas com o robô, jantámos no local, depois às 24h00 fui descansar e voltei para render o Hugo, nosso funcionário, às 5h da madrugada. Depois fomos reduzindo a vigilância até entrar em velocidade de cruzeiro. É importante seguir os conselhos técnicos ou a experiência dos colegas que nos antecederam, falando com vários para avaliar se a sua experiência é um caso isolado, se corresponde a um padrão ou houve algum stress pessoal entre o cliente e a empresa que afeta a avaliação. Aconselho fazer toda a formação disponibilizada pela empresa e procurar ter um colega a quem ligar em caso de dúvida também é muito útil. Os primeiros dias e o primeiro mês são fundamentais para a adaptação das vacas e dos donos ao robô, pelo que deve ser planeada para quando há menos trabalho nos campos, para podermos estar 100% focados nas vacas e na máquina.
O robô é muito bom para quem não gosta da ordenha, tem problemas de coluna, articulações ou tendinites nos braços, mas é importante que a pessoa goste de vacas, porque vai deixar de as “empurrar” tocar todas juntas para a ordenha e vai ter de passar pelo meio delas para ir buscar alguma atrasada. Há sempre alguma atrasada (Haverá mais ou menos vacas a tocar conforme a vacaria, a localização do robô, o maneio, a saúde dos cascos, o número total de vacas, etc.)
É fundamental ter boa assistência, sempre disponível, porque estamos completamente dependentes dela. Há coisas simples que devemos aprender a resolver mas há coisas complexas e peças específicas que dependem da assistência. Também aqui o meu conselho é “não inventem, o barato sai caro”.
Maiores vantagens dos robôs de ordenha :
Exigem menos espaço que uma sala de ordenha e funcionam mesmo! Reduzem o trabalho e dão mais flexibilidade! Há milhares de robôs a funcionar em todo o mundo; ordenham as vacas mais vezes, ao seu ritmo; É mais leve o trabalho de tocar vacas do que meter tetinas na ordenha; Há sensores adicionais muito úteis e podemos dar ração na quantidade adaptada a cada vaca e suplementar no pós-parto;
Pontos menos positivos:
Custo de investimento elevado face ao baixo preço do leite; Devemos fazer bem as contas, com previsão cautelosa das receitas porque o que vier acima é lucro; Ter poucas vacas ou pouco leite por vaca não paga o investimento! Aconselho apresentar projeto de investimento para receber apoio ou procurar robô de ocasião, mas atualizado e com garantia da marca); Custo de manutenção superior a uma ordenha convencional; Consumos de água e energia superior a uma sala de ordenha que funcione 3 ou 4 horas por dia; Não permite aumentar o número de vacas a cada ano que passa, a evolução terá de ser em múltiplos de 50/60 vacas por cada robô; Um amigo com experiência avisou-me que o robô é “um filho que nunca cresce”, quer dizer, continua a chamar de noite se tiver uma avaria, mas às vezes passam-se meses sem uma chamada e no meu caso melhorou muito após o primeiro ano com as atualizações que foram introduzindo.

Notas finais
• Não é necessário ser engenheiro informático para ter robô, mas é preciso tirar uns minutos de manhã e à noite para ver os gráficos e listagem de vacas atrasadas, doentes, mamites, etc. Às vezes corre tudo bem durante uns tempos, depois facilitamos e esquecemos de vigiar…
• Não é verdade que ficamos presos em casa por causa do robô, apenas alguém tem de ficar “de piquete” a meia hora de distância, até pode ser um vizinho que também tenha robô igual;
• Há que pensar como vamos aproveitar o tempo livre que passamos a ter
• É preciso rigor e protocolos de atuação, para não esquecer as rotinas obrigatórias e não facilitar quando tudo corre bem
• A escolha de uma ração apetente e um nutricionista competente é um fator importante do sucesso, porque a ração do robô e da manjedoura vai influenciar a deslocação voluntária das vacas ao robô.
• Há quem aponte um refugo de 10% de vacas que não se adaptam ao robô (no meu caso foi muito menos), sendo uma parte antecipação da reforma de animais que já iriam deixar a vacaria pouco depois. É importante selecionar a genética para robô, com boa separação dos tetos, velocidade de ordenha e outras características importantes.
• Os robôs parecem ter vindo para ficar, mas vão ser uma entre outras opções à disposição da liberdade de escolha de cada um, depois de avaliar as suas condições e situação pessoal.

O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.

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