O meu contacto com a Vespa-asiática e as (possíveis) consequências da sua presença para a Agricultura e Apicultura Nacional – João Sousa

O meu contacto com a Vespa-asiática e as (possíveis) consequências da sua presença para a Agricultura e Apicultura Nacional – João Sousa

A presença de espécies invasoras no território nacional é um fenómeno cada vez mais comum, sendo um forte motivo de preocupação pelos danos ambientais, económicos e sociais que provocam.

Recentemente, um dos casos mais mediáticos em Portugal ocorreu após a deteção da Vespa-asiática (Vespa velutina nigrithorax), em 2011. A Vespa velutina caracteriza-se por ostentar uma grande envergadura, apresentar um comportamento mais agressivo que as vespas europeias e por ser um preparador insectívoro feroz, colocando em risco (principalmente) as comunidades de abelhas autóctones.

Vespa asiática e vespa portuguesa
Figura 1 – Comparação morfológica entre um exemplar de Vespa velutina (cima) e de vespa autóctone (baixo) – © João Sousa

Eu resido no concelho de Vila Verde, um dos mais afetados pela presença desta espécie invasora. A interação direta com a espécie proporcionou um aumento do meu interesse, o que me levou a investigar e realizar trabalhos sobre esta durante a Licenciatura.

O meu primeiro contacto com a Vespa velutina ocorreu, na minha casa, no verão de 2014. Após avistar alguns exemplares da espécie nos primeiros dias de junho, apenas duas semanas depois o número de indivíduos tinha aumentado substancialmente ao ponto de começarem a dominar a competição pelo néctar e nutrientes às abelhas e vespas autóctones. O crescimento do número de indivíduos de Vespa velutina no jardim e campo de minha casa atingiu proporções preocupantes, o que me fez procurar soluções para tentar controlar a sua súbita expansão. Após uma pesquisa bibliográfica decidi construir algumas armadilhas; dias depois da montagem e colocação das armadilhas os resultados eram extremamente satisfatórios, pois em cada armadilha contabilizei entre 45 a 120 exemplares da vespa invasora (a contagem era feita quando a armadilha estivesse cheia, geralmente a cada 3/4 dias). No final do verão, nas armadilhas no perímetro de minha casa, registei mais de 2000 exemplares de Vespa velutina.

A abundância de espécimes capturados fez-me acreditar que o número de ninhos contabilizados não coincidia com a realidade apresentada; decidi então procurar ninhos nas localidades perto da minha residência e apenas em alguns dias encontrei 3 que ainda não tinham sido detetados e cuja localização foi devidamente reportada às autoridades competentes.

Figuras 2 e 3. Contabilização de indivíduos de Vespa velutina após a limpeza das armadilhas. – © João Sousa

A partir de 2015, a recolha e tratamento de dados começaram a ficar mais completos e as conclusões foram assustadoras, principalmente pelo impacto significante sobre as populações de abelhas locais.

Quais são as consequências para a Agricultura e Apicultura nacional?

As abelhas são os agentes fundamentais no processo de polinização em meios agrícolas. A plantação de culturas agrícolas dependentes de polinizadores está a aumentar, com foco particular em frutas e legumes. Uma polinização bem-sucedida é vital para as plantas, pois intervém de forma crucial no aumento da sua variabilidade genética como também numa maior produção de sementes de boa qualidade. Uma polinização deficitária pode originar uma produção agrícola insuficiente.

O papel de destaque dos polinizadores nos sistemas agrícolas ainda não atingiu o devido reconhecimento. Assim, é necessário sublinhar a importância em desenvolver planos para garantir a conservação sustentável das florestas assim como administrar de forma eficaz as áreas rurais, assegurando o futuro das populações de abelhas e da consequente polinização nas zonas agrícolas.

Apesar da existência de alguma cobertura nos meios de comunicação social esta não é de todo suficiente e é urgente uma maior divulgação sobre este tema, é preciso ir ao seio das populações fazer uma distribuição mais alargada e eficaz da informação; isto tem de partir das Escolas ao educarem os seus alunos para estas temáticas desde os primeiros anos de aprendizagem, tem de partir das Câmaras Municipais ao organizarem mais ações de formação e esclarecimento para elucidarem agricultores e apicultores, tem de partir das Organizações Ambientais e do Governo que tem de alargar as suas campanhas de alerta ao maior número de pessoas promovendo uma maior consciencialização das populações.

A invasão da Vespa velutina já provocou diversos danos para a saúde pública, agricultura, apicultura e ecossistemas envolventes; a implementação de mais e melhores medidas no combate a esta espécie é de cariz obrigatório, como uma contagem mais eficiente dos ninhos e medidas mais eficazes de controlo biológico da espécie.

O risco de extinção das abelhas é real!

A expansão desta espécie invasora pelo território nacional está a acontecer a um ritmo alucinante, destruindo as colmeias por onde passam. Sem abelhas não há polinização, sem polinização não há produção de legumes e frutos. Os impactos ambientais e económicos já são bastante acentuados e poderão ser bem mais graves ainda!

Temos de fazer mais e melhor!

Uma crise ecológica e alimentar poderá estar iminente!

João Sousa, finalista do Mestrado em Ecologia

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