O Livro Silent Spring e a Demonização do DDT: Análise Crítica

Este artigo não servirá para demonstrar que Rachel Carson era uma ambientalista fanática, que apontou o dedo ao DDT sem que houvessem causas para isso. Carson foi, de facto, uma grande personalidade do século XX que merece reconhecimento. Mas este artigo também não servirá para os ambientalistas baterem palmas, porque não vamos demonizar o DDT…pelo contrário, o DDT foi uma maiores invenções da Humanidade.

Este artigo é para perceberem que a ciência não é preto e branco, mas composta por muitas nuances de cinzento. Que o DDT, que causa reações viscerais nos movimentos verdes e é usado como bandeira na luta contra os “agrotóxicos”, teve e continua a ter o seu papel nos dias de hoje. Que o argumento “também disseram isso sobre o DDT” quando falamos sobre a segurança de outros pesticidas é um argumento vazio e desatualizado, já que o conhecimento e desenvolvimento científico, a regulação e controlo ambiental são muito diferentes de há 60-70 anos atrás.

O que é o DDT?

O Dicloro-Difenil-Tricloroetano, comumente conhecido como DDT, é um insecticida organoclorado. Foi sintetizado pela primeira vez em 1874 pelo químico austríaco Othmar Zeidler e a sua ação inseticida foi descoberta pelo químico suíço Paul Hermann Müller em 1939. Müller recebeu o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicinapela descoberta da alta eficiência do DDT como veneno de contacto contra vários artrópodes“, em 1948. Müller descobriu o potencial do DDT quando procurava um inseticida para controlar as traças da roupas. Pulverizou uma pequena quantidade de DDT num recipiente e reparou como as moscas morriam, de forma lenta mas eficiente. Depois de limpar o recipiente das moscas mortas, quando adicionou novas moscas, reparou que estas também morreram sem qualquer aplicação adicional de DDT. Mueller percebeu que tinha encontrado um excelente inseticida residual.

O DDT foi usado na segunda metade da Segunda Guerra Mundial para controlar a Malária e as Riquetsioses (conhecidas como Tifo) entre os civis e as tropas, com um sucesso brutal. Uma das principais razões para atribuição do prémio Nobel a Müller prende-se com um acontecimento em Outubro de 1943, quando as forças aliadas libertaram Nápoles. Uma epidemia de Tifo surgiu logo após a libertação da cidade, representando uma ameaça significativa tanto para as tropas quanto para os civis. Os militares dos EUA misturaram DDT com um pó inerte e pulverizaram-no nas roupas dos militares e dos refugiados, obtendo grande eficácia no controlo da doença. Estações de controlo da epidemia foram instaladas em torno da cidade e, em Janeiro de 1944, duas estações de controlo “desinfectaram” 1.300.000 civis. Após três semanas de pulverização (juntamente com outros programas de tratamento e vacinação menos importantes) a epidemia estava sob controlo. O número de casos civis caiu para metade na primeira semana. Os aliados administraram mais de três milhões de aplicações de pó de DDT em Nápoles e “pela primeira vez na história, um surto de Tifo foi controlado durante o inverno. O DDT havia passado a sua provação pelo fogo de forma exímia”. Só nessa época, o DDT salvou a vida a centenas de milhares de pessoas.

Mas a grande vitória do DDT, juntamente com outras ações de controlo,foi a eliminação da malária em vários países, principalmente na Europa e América do Norte. É que a Malária, ao contrário do que a maioria da população acha, não era uma “doença tropical”. Era uma doença que atingia grande parte do mundo, como podemos ver no gráfico abaixo:

E também, como podemos ver no gráfico, existe uma evolução dramática da prevalência da malária no mundo, diminuindo drasticamente desde 1900. Neste momento, a doença está confinada a determinadas regiões, muito graças ao DDT. Mas não há garantias que assim permaneça devido às alterações climáticas.

Antes do DDT, eram usados insecticidas para controlo do mosquito Anopheles, vector da Malária, como o Piretro. Estes inseticidas eram pulverizados nas paredes internas das casas onde o mosquito Anopheles repousa após a alimentação. O mosquito entra em contacto com o inseticida quando descansa na parede, sendo morta pela toxicidade do produto. Um dos fatores limitantes significativos dessa forma de controlo de vectores – conhecida como pulverização residual interna (IRS) – era o trabalho intensivo e, portanto, caro, especialmente porque os inseticidas usados ​​antes do DDT tinham que ser pulverizados a cada duas semanas. O DDT, no entanto, durava vários meses. Essa ação residual de longa duração fez com que uma equipa de controlo da malária pudesse cobrir muito mais casas e proteger muito mais pessoas.

Os resultados espectaculares não foram obtidos apenas nos países “ricos”. A África do Sul começou a usar o inseticida em 1946 e, em poucos anos, as áreas de malária diminuíram para apenas 20% das observadas em 1946. O programa de controlo da malária na Índia também teve resultados espetaculares. Entre 1953 e 1957, a morbilidade foi reduzida de 10,8% para 5,3% da população total, e as mortes por malária foram reduzidas quase a zero. Depois do DDT ser introduzido no Sri Lanka, o número de casos de malária caiu de 2,8 milhões em 1946 para apenas 110 em 1961. Taiwan adotou o DDT para o controlo da malária logo após a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, havia mais de 1 milhão de casos de malária na ilha; em 1969, no entanto, havia apenas nove casos e, pouco depois, a doença foi erradicada permanentemente da ilha. E, no continente americano, não foram apenas os Estados Unidos que beneficiaram. Em baixo, a tabela com o nível de erradicação obtido numa série de países americanos depois da implementação de programas de erradicação da malária recorrendo ao DDT:

O sucesso da diminuição de casos de malária foi transversal a todos os países que adotaram o DDT para controlo da doença.  No entanto, o sucesso não foi completo e houve reincidência em muitos países por vários fatores (artigo e artigo): questões financeiras, administrativas e operacionais; comportamento e aparecimento de resistência dos vetores ao DDT; incapacidade de desenvolvimento de cuidados de saúde básicos; a não implementação de um sistema de saneamento efetivo; falência da drenagem de terrenos alagados . Devido a essas dificuldades, o programa de erradicação não foi aplicado à maioria da África Subsariana. As taxas de mortalidade nessa área nunca diminuíram na mesma extensão dramática, e agora constituem a maior parte das mortes por malária em todo o mundo, especialmente após o ressurgimento da doença como resultado da resistência ao tratamento farmacológico e à propagação da mortal variante da malária causada pelo Plasmodium falciparum.

O impacto de Rachel Carson e o seu Livro Silent Spring

Rachel Carson, bióloga marinha, cientista e escritora, é considerada o espírito orientador do movimento ambiental moderno. Carson escreveu o livro Silent Spring em 1962, questionando a delapidação dos recursos naturais, o impacto dos pesticidas no meio ambiente com grande ênfase no DDT e o declínio das aves associado à sua utilização. Carson refere que o DDT e os seus metabolitos tornavam as cascas dos ovos das aves mais finas, levando à quebra dos ovos e à morte dos embriões; que o DDT prejudicaria gravemente a reprodução das aves, levando à sua “morte silenciosa”. Também insinuou que o DDT era um carcinogénio humano, baseando-se em relatos individuais de pessoas que morreram de cancro depois de usarem o DDT. O problema é que o livro de Carson não era ciência. Era um conjunto de relatos de caso, análises individuais, não controladas, que necessitavam de confirmação. Alguma das suposições de Carson foram sendo confirmadas ao longo dos anos, outras não.

O livro de Carson teve várias repercussões positivas. Graças a Carson e aos movimentos ambientalistas, em 1970 foi formada a The Environmental Protection Agency (EPA) e várias medidas de proteção ambiental foram implementadas. As pessoas começaram a ter uma maior preocupação com o ambiente. O surgimento do campo de estudo de Química Ambiental pode, no limite, ser atribuído a Carson. Foi graças a estes movimentos que evoluiu a maior preocupação e cuidado em estudar o impacto ambiental da “mão humana”.

Também foi graças a Rachel Carson e aos grupos ambientalistas que a recém-formada Agência de Proteção Ambiental (EPA) realizou audiências científicas investigando o DDT. Novamente aqui percebemos que o livro de Carson poderia não ter uma base científica sólida à época. As audiências duraram mais de oito meses, envolvendo 125 testemunhas com 365 exposições. O juiz de direito administrativo responsável pelas audiências, Edmund Sweeney, decidiu que o DDT deveria permanecer disponível para uso. Com referência aos supostos danos ambientais associados ao DDT, observou que:

“(…) o uso de DDT sob o registo envolvido aqui não tem um efeito deletério em peixes de água doce, organismos estuarinos, pássaros selvagens ou outros animais selvagens”. (…) “O DDT não é um carcinogénico para o homem. (…) O DDT não é um perigo mutagénico ou teratogénico para o homem. ”

Esta conclusão foi controversa na altura. Assim como a deliberação, em 1972,  pelo administrador da EPA, William Ruckelshaus, que não compareceu a uma hora das audiências, em limitar a utilização do DDT indo contra a decisão inicial de Sweeney. De acordo com uma reportagem à época, Ruckelshaus nem leu o relatório completo da audiência.  A decisão de cancelar certos usos do DDT poderá ter sido essencialmente política, por parte de uma entidade reguladora ansiosa por mostrar serviço.

No entanto, ao contrário do que os ambientalistas referem, o DDT não foi banido em 1972. A utilização de DTT continuou a ser autorizada para emergências no controlo de pragas, para as quais foram concedidas isenções pelo governo federal, tendo sido usado várias vezes desde essa imposição regulatória. Além disso, o fabrico de DDT para exportação também continuou a ser permitida.

Também a diminuição da utilização do DDT em muitos países foi devido ao aumento da resistência do vector ao insecticida e não propriamente por questões regulatórias, tendo continuado a ser um instrumento fundamental em muitos situações. Tão fundamental que, aquando da decisão da EPA em banir o DDT, a Organização Mundial de Saúde assim como a USPHS mostraram a sua preocupação relativamente à decisão da EPA. Para além de referirem que não havia substitutos para o controlo da malária, tifo e outras doenças que ainda eram flagelos em grandes áreas do mundo, a OMS salientou o “incrível histórico do DDT em erradicar a malária para 550 milhões de pessoas, ter salvo cerca de 5 milhões de vidas e evitado 100 milhões de doenças, ter servido pelo menos 2 bilhões de pessoas sem causar a perda de uma única vida por envenenamento por DDT”. Concluiu que “a interrupção imediata do uso do DDT seria um desastre para a saúde mundial”.

Alguns países foram vítimas da tentativa de acabar com a aplicação do DDT.  Por exemplo, o DDT deixa manchas nas paredes de barro, o que levou o programa de controlo da malária da África do Sul a substituir o uso do DDT em 1996 por outra classe química, os piretróides sintéticos. O que se seguiu foi uma das piores epidemias de malária do país. Ao longo de quatro anos, os casos de malária aumentaram cerca de 800 por cento e as mortes por malária aumentaram dez vezes:

Em 2000, o Departamento de Saúde da África do Sul reintroduziu o DDT. Em apenas um ano, os casos de malária caíram quase 80% na província de KwaZulu-Natal, que foi afetada pela epidemia. Em 2006, os casos de malária na província estavam aproximadamente 97% abaixo dos valores de 2000.

A pressão ambientalista contra o DDT também terá contribuído para algumas destas más decisões. Grupos ambientalistas que anteriormente não mostravam interesse na malária, como o World Wildlife Fund, tornaram-se especialistas na erradicação da doença, aconselhando alternativas ao uso do DDT: qualquer alternativa, desde que não fosse DDT. Entre 1997 e 2000, os Estados membros do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente negociaram o Tratado de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes, com o DDT como uma das substâncias químicas “sujas” apontadas. Os grupos verdes queriam que a substância química fosse banida e definiram o ano de 2007 como o ano da sua morte. Ironicamente, o produto foi considerado necessário em 2007 e a sua utilidade novamente validada em 2011, simplesmente porque não há alternativas melhores.  Em vez disso, ficou decidido que o DDT seria eliminado gradualmente quando houvesse “alternativas custo-efetivas”. O DDT continua a ser um dos 12 inseticidas – e o único composto organoclorado – atualmente recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e, sob a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes. 

O DDT continua a ser uma parte essencial do programa de controlo da malária na África do Sul, e o sucesso encorajou outros países da região a seguir o exemplo. E com o aparecimento de resistências aos piretróides e pouco investimento para surgimento de novos produtos contra a malária, é possível que o DDT mantenha a sua relevância, apesar de também existirem vários focos de resistência a este insecticida. 

A Toxicidade do DDT para as Aves

O principal problema do DDT é persistência no meio ambiente e a sua infiltração na cadeia alimentar, onde se pode acumular durante anos e levar a problemas ambientais importantes. Uma das consequências desta acumulação, apontada por Rachel Carson, seria a diminuição da espessura das cascas de ovo das aves, que levaria à morte dos fetos e, consequentemente, à diminuição da população destes animais. 

O primeiro estudo sobre este problema foi realizado na Grã-Bretanha e publicado na Nature em 8 de julho de 1967. O autor, Ratcliffe, alegou que a incidência de ovos quebrados em ninhos de falcões peregrinos, gaviões e águias douradas aumentou consideravelmente desde 1950. Ele comparou cascas de ovos recolhidas antes de 1946 com cascas de ovos recolhidas posteriormente e concluiu que as cascas de falcões peregrinos pós-1946 pesavam 19% menos; dos gaviões pesavam 24% menos; e águias douradas 8% menos. Ratcliffe rejeitou a falta de comida e contaminação radioativa como explicações para a diminuição da espessura nas cascas do ovo, colocando a hipótese do DDT ter um papel nesta ocorrência.  Os resultados de Ratcliffe foram reforçados por outro estudo publicado em 1968, na revista Science. Os autores referem que “quedas catastróficas de três espécies de aves de rapina nos Estados Unidos foram acompanhadas por decréscimos na espessura da casca do ovo que começaram em 1947 e atingiram 19% ou mais [de perda de espessura], fenómenos idênticos aos encontrados na Grã-Bretanha”. As três espécies eram falcões peregrinos, águias e águias pescadoras. Os autores alegaram que o afinamento da casca do ovo coincidiu com a introdução de pesticidas organoclorados, como o DDT, e concluíram que esses compostos estavam a prejudicar certas espécies de aves no topo de ecossistemas contaminados.

Os investigadores, que agora tinham uma correlação entre o DDT e a diminuição da espessura de casca de ovo, tentaram estabelecer uma relação causal com estudos experimentais. Joel Bitman, do Departamento de Agricultura dos EUA, alimentou Codornas Japonesas com DDT. No estudo, publicado na Nature em  1969, descobriu que as Codornas alimentadas com DDT tinham cascas de ovos que eram 10% mais finas que as Codornas controlo. No entanto, as descobertas de Bitman acabaram por ser refutadas porque as aves também tinham uma dieta com pouco cálcio, o que invalidava os resultados. Em estudos posteriores, este efeito do DDT não foi visível na diminuição da espessura da casca de ovo das Codornas quando as aves tinham uma dieta com níveis normais de cálcio, mas poderia existir uma diminuição da quantidade absoluta de cálcio no ovo.

Mais tarde, concluiu-se que possivelmente não será o DDT o problema, mas sim o DDE, um metabolito do DDT.  Um estudo publicado em 1975 parece ser um dos grandes marcos no estabelecimento da relação causal. O autor, Lincer, refere que uma “correlação inversa entre o DDE nos ovos dos gaviões norte-americanos e a espessura da casca do ovo é clara, mas não prova uma relação causal, já que outros produtos químicos ou fatores podem estar envolvidos“. Então, para descobrir que efeito DDE poderia ter, Lincer alimentou os gaviões cativos com uma dieta rica em DDE e comparou os seus ovos com aqueles extraídos dos ninhos de gaviões selvagens. Lincer descobriu que os níveis dietéticos de três, seis e 10 partes por milhão de DDE resultaram em cascas de ovos que eram 14%, 17,4% e 21,7% mais finas, respectivamente. “Apesar da recente controvérsia, parece haver poucas dúvidas quanto à relação causal entre o DDE e o afinamento da casca do ovo observado e o consequente declínio populacional em várias aves de rapina“, concluiu Lincer. 

Tal correlação já tinha sido levantada previamente por Newton e Hass, onde após uma análise multivariada, apenas o DDE apareceu como responsável pela diminuição da espessura da casca de ovo e aumento da quebra de ovos:

O possível mecanismo fisiológico para a diminuição da espessura da casca de ovo, será o facto do DDE ser um disruptor endócrino. No entanto, algumas dúvidas subsistem. Por exemplo, em 1998, foi publicado um estudo no Proceedings of the Royal Society que descobriu que a diminuição da espessura de casca de ovo de algumas espécies de aves havia começado 50 anos antes da introdução do DDT.

Conclusão: No global, parece que a maioria das aves “não são tão sensíveis ao DDE quanto as aves de rapina“. Este grupo parece ser particularmente afetado pelo DDT e, nestes casos específicos, Rachel Carson parece ter razão. O DDT seria o causador da morte de algumas espécies de aves, associado à diminuição da espessura da casca do ovo. E isso ficou mais claro quando se registou um aumento da população das aves de rapina com a proibição da utilização do DDT na agricultura.

Toxicidade do DDT para a Saúde Humana

Aqui as coisas são mais complicadas e a evidência mais cinzenta. Desde a sua descoberta, centenas de ​​milhões de pessoas foram expostas ao DDT de uma forma ou de outra. Um artigo de 2000 publicado no The Lancet concluiu que:

“(…) na década de 1940, muitas pessoas foram deliberadamente expostas a altas concentrações de DDT por meio de programas de limpeza ou impregnação de roupas, sem nenhum efeito aparente. Existem provavelmente poucos outros químicos que foram estudados com a mesma profundidade que o DDT, experimentalmente ou em seres humanos. ”

“A ingestão de DDT, mesmo quando repetida, por voluntários ou pessoas que tentam suicídio, indicou baixa letalidade e grandes exposições agudas podem levar a vómitos, com ejeção do produto químico. (…) Se as enormes quantidades de DDT usadas forem levadas em conta, o registo de segurança para os seres humanos é extremamente bom.” 

Chris Curtis, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, estudou a saúde de pulverizadores de inseticidas brasileiros e indianos que foram expostos ao DDT. Concluiu que a saúde dos pulverizadores “era semelhante a outros homens da sua idade”. A pulverização de DDT não afetava visivelmente a sua saúde.

A Agência para Substâncias Tóxicas e Registo de Doenças, do CDC, , reviu em 2002 o risco de diversos tipos de cancro e a exposição ao DDT.  Concluiu que “considerando todos os fatores, a informação existente não suporta a hipótese de que a exposição ao DDT/DDE/DDD aumenta o risco de cancro em humanos” e que Nenhum efeito foi relatado em adultos que receberam pequenas doses diárias de DDT por cápsula durante 18 meses (até 35 miligramas [mg] todos os dias).”

Os toxicologistas norte-americanos Bruce Ames e Lois Gold colocam o risco de cancro associado ao DDT numa perspectiva mais ampla. Mostraram que, mesmo no auge do uso do DDT na agricultura, o risco de cancro associado ao produto químico era muito menor do que os riscos de cancro de outros fatores considerados “naturais”. Que há uma extrapolação do risco da utilização de produtos sintéticos, com base nos estudos em ratos com doses muito superiores às que os organismos estão habitualmente expostos. Nas palavras deles:

Cerca de metade dos produtos químicos testados, sintéticos ou naturais, são carcinogénicos para roedores em altas doses. Quase todos os produtos químicos na dieta humana são naturais. Por exemplo, 99,99% dos pesticidas que comemos estão naturalmente presentes nas plantas para afastar os insetos e outros predadores. Metade dos pesticidas naturais que foram testados são carcinogénicos em roedores. Cozinhar alimentos produz um grande número de produtos químicos naturais na dieta. O café torrado, por exemplo, contém mais de 1000 produtos químicos: dos 27 testados, 19 são carcinogénicos em roedores. Evidências crescentes apoiam a ideia de que a alta frequência de resultados positivos em bioensaios de roedores é devido a testes na dose máxima tolerada, que frequentemente podem causar morte celular e consequente substituição celular – um fator de risco para cancro que poderá ocorrer apenas com altas doses. Como as avaliações de risco usam extrapolações lineares, que ignoram os efeitos da alta dose em si, os riscos de doses baixas são frequentemente exagerados.

Isto foi em 1997. Mais de 20 anos e pouco aprendemos com esta problemática de extrapolação de resultados. Se nos guiássemos por factos, daríamos mais atenção ao café que bebemos que aos resíduos alimentares dos pesticidas.

Em 2012 foi publicada uma extensa revisão da história do DDT, na comemoração dos 50 anos após a publicação do livro Silent Spring. No capítulo sobre os perigos para a saúde humana, a maioria dos resultados são inconclusivos ou negativos. Outros merecem, sem dúvida, a nossa atenção. Deixo um resumo:

Duas avaliações recentes do DDT e da saúde humana indicaram questões que precisam de atenção. Eskenazi et al. (2009) encontraram após rever 494 estudos recentes: “A literatura recente mostra um crescente corpo de evidências de que a exposição ao DDT e seu produto de degradação DDE pode estar associada a resultados adversos para a saúde como cancro de mama (principalmente exposição antes dos 14 anos), diabetes, diminuição da qualidade do sémen, aborto espontâneo (exposição no 1º trimestre de gravidez), e neurodesenvolvimento prejudicado em crianças “.

(…) Bouwman et al. (2011) descobriram que: “A evidência de efeitos adversos à saúde humana devido ao DDT está a aumentar. No entanto, sob certas circunstâncias, o controlo da malária usando o DDT ainda não pode ser interrompido. Portanto, o uso contínuo do DDT aponta o paradoxo reconhecido por uma posição centrista-DDT. No mínimo, agora é hora de invocar a precaução. As ações de precaução podem incluir o uso e a redução da exposição. (…) Há situações em que o DDT proporcionará o melhor benefício para a saúde possível, mas a manutenção de que o DDT é seguro ignora as indicações cumulativas de muitos estudos. Em tais situações, abordar o paradoxo a partir de uma posição centrista-DDT e invocar a precaução ajudará a projetar escolhas para vidas mais saudáveis ​​”.

Conclusão: Portanto, nesta fase, apesar de existirem algumas evidências importantes do risco de utilização de DDT (habitualmente vistas nos percentis de exposição superior), as dúvidas mantêm-se. É possível que em algumas circunstâncias o DDT tenha consequências importantes para a saúde. Como sempre, devemos pesar os prós e contras da utilização do produto.

Conclusão

Sim, o DDT possivelmente foi responsável pela morte de aves de rapina. Sim, o DDT tem muito possivelmente impactos importantes para a saúde humana. Sim, o DDT tem um problema importante de persistência no meio ambiente durante vários anos. Por outro lado, o DDT salvou e continua a ter o potencial de salvar milhões de vidas. A verdade, neste caso, está no meio. O DDT não é uma panaceia nem um grande vilão.

Longe do ruído e das heurísticas humanas típicas, com tendência a ver as coisas a preto e branco, a limitação da aplicação do DDT, acima de tudo na agricultura, foi positiva. No entanto, a limitação à sua utilização no modelo de Pulverização Residual Interna terá, em casos específicos, mais vantagens para as pessoas susceptíveis à malária, dengue, zika, entre outros, do que efeitos negativos. E deve continuar a ser usado e suportado pelas instituições de saúde com programas de erradicação da malária. É nestas nuances que a ciência e medicina trabalham, habitualmente. É isto que o ambientalista, o promotor do medo ou o leigo recusam em entender e muito menos aceitar.

Termino com um apontamento. Rachel Carson foi descontextualizada tanto pelos proponentes pró-indústria que descaracterizou a ciência e os argumentos do livro para atacar a autora como pelos ambientalistas, já que Carson nunca defendeu a proibição do DDT ou de outros pesticidas, mas sim a sua utilização racional. Algo que os ambientalistas de vão-de-escada poderiam aprender com ela…a serem racionais e não ignorantes levados pela emoção.

Imagem da autoria de Leonel Sousa

Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar

O artigo foi publicado originalmente em Scimed.

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