O Tejo estende-se até onde a vista alcança, mas por vezes, os agricultores da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira enfrentam dificuldades para regar milhares de hectares de culturas, não por falta de água, mas pelo sal que transporta.
Foi para acompanhar de perto este fenómeno que a Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira e a Fundação Calouste Gulbenkian receberam a Lusa numa visita fluvial ao estuário do Tejo, no âmbito do projeto “Tagus for Future – Water + Soil”, que pretende antecipar episódios de intrusão salina e melhorar a gestão da água disponível para a agricultura.
A associação gere um dos maiores perímetros de rega do país, uma área de cerca de 13.400 hectares numa zona particularmente exposta à influência das marés.
A localização, junto ao estuário e relativamente próxima do mar, torna o território vulnerável à chamada intrusão salina, fenómeno que ocorre quando a água salgada avança rio acima e entra em zonas normalmente dominadas por água doce.
Segundo a Diretora Geral da associação, Catarina Madaleno, os registos recolhidos pela associação mostram que os episódios têm vindo a tornar-se mais frequentes.
“Temos equipamentos montados desde 2000 a medir minuto a minuto a salinidade e conseguimos ver que a frequência destes episódios é cada vez maior”, afirmou.
Houve episódios severos registados em 2005 e 2012, mas a responsável refere que, desde então, os períodos críticos passaram a surgir com intervalos mais curtos.
“De dois em dois anos, de três em três anos, temos pontualmente salinidade elevada. É o novo normal”, resumiu.
O fenómeno preocupa porque culturas estratégicas da lezíria, como o tomate para indústria, o arroz ou o milho, são particularmente dependentes de um fornecimento regular de água com qualidade adequada.
“Se nós regarmos com água salgada, inicialmente até podemos estar a oferecer água à planta, mas não a estamos a saciar”, explicou a responsável, recorrendo a uma comparação simples: “Se nós tivermos sede e bebermos água do mar, ficamos com mais sede ainda”.
Nos casos mais graves, episódios prolongados podem provocar fortes quebras produtivas ou até a perda total das culturas.
É para reduzir esse risco que surge o projeto “Tagus for Future – Water + Soil”, liderado pela associação, com apoio da Fundação Gulbenkian e parceria técnico-científica do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
A iniciativa pretende desenvolver modelos capazes de prever, com pelo menos 24 a 48 horas de antecedência, a evolução dos episódios de intrusão salina, permitindo ajustar a gestão da água antes de a situação se tornar crítica.
O trabalho inclui um levantamento batimétrico do leito do rio, considerado essencial para melhorar a precisão das simulações desenvolvidas pelos investigadores e para compreender de que forma fatores como a subida do nível do mar, as secas ou eventuais dragagens podem influenciar a intrusão salina no estuário.
A informação produzida deverá permitir à associação organizar melhor a distribuição da água, criar escalonamentos entre agricultores, emitir alertas antecipados através de mensagens SMS e preparar as explorações antes de uma eventual interrupção da captação de água.
“Se conseguirmos prever com antecedência um período crítico de salinidade, os agricultores podem fazer uma rega preventiva para que a cultura consiga aguentar melhor esse período de ausência de água”, explicou Catarina Madaleno.
A responsável considera que esta capacidade de antecipação constitui um dos principais benefícios do projeto, permitindo reduzir o risco de perdas de produtividade decorrentes de episódios de elevada salinidade.
“O nosso grande objetivo é tentar evitar ao máximo perder produção e conseguir dar água sempre em pleno aos agricultores”, afirmou.
A associação acredita que o conhecimento desenvolvido na Lezíria Grande poderá vir a ser aplicado noutras zonas agrícolas portuguesas, como o Mondego, o Sado ou o Guadiana, bem como no vale do Guadalquivir, em Espanha.
“É um modelo completamente replicável”, afirmou a responsável.
Enquanto o barco avançava pelo estuário, o técnico da associação e diretor do departamento de projetos, exploração e obras, Pedro Vaz, recordou a seca de 2012, quando a elevada salinidade condicionou durante vários dias a captação de água.
“Tivemos uma semana sem conseguir captar água em condições normais, apenas com janelas muito curtas”, afirmou.
Desde então, a associação reforçou a monitorização do estuário e criou uma captação alternativa para aumentar a resiliência do sistema.
Ainda assim, os responsáveis alertam que a eficácia destas soluções depende também da evolução do próprio rio. Alterações no leito, fenómenos de assoreamento ou eventuais dragagens podem modificar o comportamento das correntes e da maré, alterando a forma como a água salgada avança pelo estuário.
É precisamente por essa razão que uma das componentes do “Tagus for Future – Water + Soil” consiste na atualização do conhecimento sobre a morfologia do estuário e na avaliação dos impactos que futuras intervenções poderão ter na disponibilidade de água para a agricultura.
O projeto, com duração prevista de cerca de um ano e meio e um investimento próximo dos 100 mil euros, conta com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.
Segundo a gestora do projeto Gulbenkian Água, Rosário Palha, a iniciativa destacou-se pela componente científica, potencial de inovação e possibilidade de replicação noutras regiões, numa altura em que a fundação tem vindo a apostar em iniciativas relacionadas com a resiliência hídrica no setor agrícola, responsável por cerca de 70% a 75% do consumo de água em Portugal.
Na viagem de regresso pelo estuário a discussão voltava inevitavelmente ao mesmo tema: um problema invisível que ameaça uma das principais zonas agrícolas do país.
À superfície, o sal não se vê. Mas os dados recolhidos diariamente pela associação mostram que a sua presença no estuário é cada vez mais frequente. Combinando monitorização, modelação científica e gestão da água, o projeto pretende transformar esse conhecimento em capacidade de antecipação.
A aposta passa por garantir que os agricultores conseguem continuar a regar antes que os períodos críticos cheguem. Num estuário onde o avanço da água salgada é já considerado o “novo normal”, ganhar algumas horas ou alguns dias de antecedência poderá fazer toda a diferença.















































