No Dia Internacional da Mulher, destacamos o projeto liderado por Inês Dragão, em Arronches, que transformou uma herança familiar numa exploração de ovinos de referência, provando que a gestão e o trabalho de campo no feminino são sinónimos de sucesso e sustentabilidade.
Em pleno coração do Alentejo, no Monte da Sancha (concelho de Arronches), a agricultura escreve-se no feminino. Este projeto nasceu da necessidade de adaptar uma exploração herdada a uma realidade onde as mulheres pudessem ser totalmente autónomas. O que começou como uma sucessão familiar em 2001 transformou-se hoje numa empresa agrícola moderna focada na sustentabilidade, na inovação, na valorização da carne de qualidade e no aproveitamento integral de recursos, como a lã.
Da Conversão à Especialização Genética
Ao assumir a exploração que pertencia aos pais, Inês Dragão rapidamente percebeu que o modelo anterior, focado em gado bovino e cereais, exigia uma intervenção que não se enquadrava na sua equipa — composta por si, pelas filhas e por uma colaboradora. A decisão estratégica foi a conversão para a ovinicultura.
“Precisávamos de uma exploração onde nós conseguíssemos fazer tudo sem a intervenção da parte masculina. E então decidi trocar as vacas por ovelhas”, explica Inês Dragão.
Após anos de aprendizagem e pesquisa por explorações de referência, o Monte da Sancha especializou-se na produção de ovinos. Atualmente, trabalham com o Merino Alemão (pela capacidade cárnica) e as raças autóctones Merino Português e Merino Espanhol (pela rusticidade e adaptação ao terreno). Este cruzamento permite à empresa atuar em duas vertentes: a venda de reprodutores de raça pura e a comercialização de carne com marca própria, Monte da Sancha, já presente em vários restaurantes da região.
Economia Circular: O Desafio da Lã
Um dos marcos recentes do projeto foi encontrar uma solução para o escoamento da lã, um subproduto que muitas vezes é desperdiçado em Portugal. Através de uma parceria com um estúdio de tecelagem em Reguengos de Monsaraz (Paula Neves), a lã do Monte da Sancha é agora transformada em mantas de marca própria.
Inês destaca que a qualidade da lã é planeada durante todo o ano, desde a alimentação dos animais até à tosquia, garantindo que o produto final tenha a micragem necessária para artigos de altíssima qualidade.
Superar o Preconceito no Campo
A trajetória de Inês Dragão não foi isenta de obstáculos sociais. A produtora recorda que, no início, a sua credibilidade foi frequentemente posta em causa em ambientes de negociação maioritariamente masculinos.
“Lembro-me de me perguntarem onde é que estava o meu marido ou o meu pai, porque não era comigo que queriam falar. Sentia que achavam que a mulher não tinha capacidade ou credibilidade”, desabafa.
Hoje, após quase uma década de afirmação, Inês nota uma mudança de paradigma, embora ressalve que o maior desafio continua a ser a integração da mulher nas tarefas de campo — como o maneio dos animais e a condução de tratores — e não apenas em cargos administrativos ou académicos.
O Futuro é Feminino e Sensível
Para a responsável do Monte da Sancha, a sensibilidade inata da mulher e a sua capacidade de organização multifacetada são vantagens competitivas na pecuária. A paciência no trato com os animais e a necessidade de criar estratégias inteligentes para compensar a força física são, no seu entender, os pilares da nova agricultura.
Inês Dragão acredita que, nos próximos 10 a 15 anos, o lugar da mulher na agricultura será ainda mais destacado: “O futuro da agricultura passa muito pela forma como a mulher está na vida e como se tem posicionado. No campo, a mulher rural vai ter um lugar muito marcado”.
O artigo foi publicado originalmente em Rede Rural Nacional.











































