Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra, e fundadora do Centro de Ecologia Funcional, analisa a importância do JER – Jovem Empresário Rural e dos Jovens Agricultores na revitalização dos territórios rurais. Por pontos, elenca as prioridades que considera vitais nesta transformação, entre elas, a transição agroecológica, a transição digital e as políticas públicas. Este artigo integra o Dossier ‘Coesão e Territórios Rurais’, da edição n.º 144 da revista Jovens Agricultores, da AJAP.
O papel dos Jovens Agricultores e dos Jovens Empresários Rurais
Os Jovens Agricultores e os Jovens Empresários Rurais têm hoje um papel absolutamente central na revitalização dos territórios rurais. Os atuais Jovens Agricultores representam uma nova geração que compreende que a agricultura vai muito além da produção alimentar: é soberania, cultura, ambiente e inovação. São protagonistas de uma nova “agrocultura” – uma agricultura que integra tecnologia, ciência e conhecimento, mas que mantém uma profunda ligação com os ecossistemas e com a sustentabilidade dos territórios. Dentro deste movimento, os Jovens Empresários Rurais destacam-se pela sua visão empreendedora e pela capacidade de reinventar atividades tradicionais, criar novos modelos de negócio e dinamizar economias locais. Combinam criatividade, inovação social e tecnológica e uma leitura fina das oportunidades emergentes, impulsionando projetos que vão das bioindústrias circulares ao turismo de natureza. Esta energia criativa devolve ambição ao Interior e contribui para reimaginar o território rural como um espaço de futuro, não de resistência, mas de liderança.
O papel da transição ecológica
Na transição ecológica e agroecológica, os Jovens Agricultores estão particularmente preparados para experimentar e adotar soluções baseadas na natureza, construindo uma agricultura em harmonia com os ecossistemas e reconhecendo o valor dos serviços que estes prestam. Paralelamente, os Jovens Empresários Rurais assumem uma leitura territorial colaborativa, impulsionando modelos económicos ancorados no conhecimento, na circularidade e na cooperação. Juntos, são agentes de transformação e de regeneração: capazes de unir economia, ecologia e coesão social.
Conciliar Agroecologia e transição digital
A Agroecologia é uma ciência que coloca a natureza no centro das soluções e, por isso mesmo, é plenamente compatível com a transição digital. A inteligência artificial, a agricultura de precisão e as tecnologias emergentes devem ser aliadas desta agenda, facilitando uma agricultura mais eficiente, informada e resiliente. Não há contradição entre tecnologia e Agroecologia: ambas convergem num mesmo objetivo: produzir com inteligência ecológica, respeitando os limites da natureza e maximizando o seu potencial regenerativo.
Incêndios e (re)ocupação do território
Os incêndios são uma das expressões mais dramáticas do colapso ecológico e do abandono dos territórios rurais. Enfraquecem economias locais, destroem património natural e desincentivam a permanência. A resposta passa por uma nova ocupação do território, assente na agrofloresta, nos sistemas agrossilvopastoris e na diversificação produtiva. Neste processo, os Jovens Agricultores e, de forma muito particular, os Jovens Empresários Rurais, podem assumir um papel determinante: são eles que introduzem modelos de negócio inovadores, valorizam cadeias curtas, criam emprego qualificado e credibilizam soluções economicamente viáveis que reforçam a resiliência face ao risco de incêndio. Através da sua capacidade de organizar mercados, mobilizar investimento, transformar recursos locais e integrar tecnologia em práticas adaptativas, tornam possível uma gestão ativa e contínua do território. A recuperação do território é, acima de tudo, uma reconstrução da relação entre as pessoas e a terra, e estes novos protagonistas mostram que essa relação pode voltar a ser fonte de vitalidade e proteção.
Políticas públicas e prioridades
Os Jovens Agricultores e Jovens Empresários Rurais têm, de facto, ficado à margem das prioridades políticas. As políticas de juventude tendem a desvalorizar os setores produtivos e a negligenciar o papel estruturante da agricultura e da economia rural para a coesão territorial. É urgente reconhecer que apoiar os jovens que investem no território é investir na soberania alimentar, na resiliência climática e na diversidade económica destes territórios. O futuro do País depende da capacidade de colocar estes jovens no centro das políticas de desenvolvimento territorial.
Papel do JER na revitalização económica dos territórios rurais
Os Jovens Empresários Rurais desempenham um papel decisivo na revitalização económica dos territórios rurais, precisamente porque atuam em setores não agrícolas que completam e fortalecem o tecido económico local. Estando associados a CAE não agrícola, os JER introduzem dinamismo em áreas como o turismo de natureza, os serviços culturais e criativos, a bioeconomia, a transformação alimentar, as tecnologias de base territorial ou as atividades de bem-estar e proximidade. Este impulso transversal amplia o leque de oportunidades económicas, diversifica fontes de rendimento e contribui para reter e atrair população jovem qualificada. Contudo, apesar do seu impacto estratégico, os JER têm sido secundarizados nas políticas públicas dirigidas à coesão territorial e ao desenvolvimento rural. A falta de reconhecimento formal da sua especificidade, a ausência de instrumentos de apoio dedicados e a dificuldade em aceder a financiamento adaptado ao risco e à escala das economias rurais limitam a sua capacidade de afirmação. Ao serem deixados fora das prioridades dos sucessivos Governos, perde-se não apenas talento, mas também a oportunidade de estruturar economias locais mais resilientes, diversificadas e inovadoras. É fundamental inverter esta tendência. Priorizar os Jovens Empresários Rurais significa apostar numa visão contemporânea do rural como espaço de inovação económica e social, onde a agricultura convive com serviços, indústrias criativas, tecnologia e novos modelos de negócio baseados no território. Significa, também, alinhar os instrumentos de política pública – apoios financeiros, incentivos à criação de emprego, capacitação empreendedora, acesso a infraestruturas e redes de inovação – com a realidade e o potencial destes jovens agentes. Ao reconhecer e apoiar os JER, o País reforça a coesão territorial, acelera a diversificação económica e desbloqueia novas cadeias de valor capazes de gerar emprego, atrair investimento e aumentar a vitalidade dos territórios rurais. A sua valorização deve ser encarada como um pilar estratégico das políticas públicas do futuro: não apenas para manter o Interior vivo, mas para o transformar num espaço de oportunidade, criatividade e prosperidade sustentável.
Nota: Artigo publicado na edição n.º 144 da Revista Jovens Agricultores da AJAP, no âmbito do Dossier ‘Coesão e Territórios Rurais’. A sua reprodução, na íntegra ou parcial, requer autorização prévia da AJAP.
O artigo foi publicado originalmente em AJAP.














































