InnovPlantProtect – Um laboratório Colaborativo para a Inovação na Proteção das Culturas Agrícolas – Pedro Fevereiro

InnovPlantProtect – Um laboratório Colaborativo para a Inovação na Proteção das Culturas Agrícolas – Pedro Fevereiro

No passado dia 27 de Julho foi aprovado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia com a nota máxima, após avaliação por uma equipa internacional, o Laboratório Colaborativo InnovPlantProtect.

O InnovPlantProtect é uma iniciativa da Universidade Nova de Lisboa, liderada pela unidade de investigação GREEN-IT do Instituto de Tecnologia Química e Biológica da NOVA, em cooperação com outras unidades de investigação da NOVA (CTS FCT NOVA, NOVA LINCS, FCT NOVA e MagiC NOVA IMS) tendo como parceiros o Instituto de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), a Câmara Municipal de Elvas, a Bayer Crop Science, a Syngenta Crop Science, a Fertiprado, o Centro de Biotecnologia Agrícola e Alimentar do Alentejo (Cebal) a Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), a Associação Nacional de Produtores de Milho e Sorgo (ANPROMIS), a Casa do Arroz e a Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Legumes (FNOP). Estas instituições vão criar uma associação privada sem fins lucrativos que terá como responsabilidade gerir o InnovPlantProtect.

O InnovPlantProtect pretende desenvolver soluções inovadoras de base biológica para promover culturas agrícolas mais seguras, mais produtivas, e mais amigas do ambiente. Para atingir este objectivo o InnovPlantProtect abordará problemas específicos das culturas mediterrânicas, em particular aqueles que resultam da emergência de novas pragas e doenças associadas às alterações climáticas em curso.

A agricultura é uma atividade crucial para a nossa economia, fornecendo alimentos e matérias-primas bem como rendimento e emprego. Segundo a FAO, a agricultura representa quase 40% do PIB mundial, constituindo os bens agrícolas 43% das exportações mundiais. Dado que cerca de ¼ da superfície terrestre é cultivada, todos os impactos associados à agricultura têm efeitos globais. Num mundo em que a população atingirá os 8,3 mil milhões de habitantes em 2030 será necessário produzir entre 35 a 50% mais de alimento, ao mesmo tempo que são exigidas adaptações atempadas às alterações climáticas em curso. Um dos grandes desafios da produção agrícola é o controlo de pragas, doenças e ervas daninhas, as quais limitam fortemente a produção. Apesar de se gastarem mais de 60 mil milhões de euros anuais com pesticidas, cerca de 40% da produção agrícola global é perdida para pragas e doenças. A região mediterrânica está especialmente afetada pelas alterações climáticas e pela movimentação de novas pragas e doenças daí resultantes, para algumas das quais não existe qualquer solução conhecida.

O InnovPlantProtect desenvolverá produtos até à fase de prova de conceito, licenciando posteriormente as suas soluções para serem comercializadas. Os conceitos a desenvolver constituirão novos bio-pesticidas contra pestes e doenças, incluindo novas formulações e matrizes para aplicações agrícolas, novas variedades vegetais com características que permitam fazer face aos desafios da produção, novos métodos de diagnóstico e monitorização de pragas e doenças, e novos modelos de risco e de aplicação de biopesticidas. A seleção dos problemas a resolver e dos produtos a desenvolver caberá por inteiro aos associados, que em conjunto terão de priorizar os problemas e definir o investimento a realizar na sua resolução.

Alguns das pragas e doenças emergentes que poderão vir a ser objecto da atividade do InnovPlantProtect são a drosófila suzuki, que afeta vários frutos, a diabrótica, uma lagarta que ataca as raízes do milho, a xilela, uma bactéria que ataca o lenho das árvores de fruto, e a traça da Guatemala, cujas larvas constroem galerias nos tubérculos de batatas. Para nenhuma destas pragas e doenças existe atualmente uma solução no mercado.

O InnovPlantProtect ficará sedeado em Elvas, nas instalações da Estação de Melhoramento de Plantas do INIAV. Esta localização é ideal, permitindo a criação de sinergias para melhorar a produtividade da agricultura portuguesa, quer com a própria estação de melhoramento, quer com outras unidades de investigação, desenvolvimento e formação da região, quer com as associações de produtores e o tecido agrícola envolvente.

O InnovPlantProtect está estruturado em cinco departamentos: 1 – Novos biopesticidas; 2 – Proteção de culturas específicas; 3 – Novas formulações e matrizes para a aplicação de biopesticidas; 4 – Gestão de dados e análise de risco; e 5 – Monitorização e diagnose. O InnovPlantProtect contratará um diretor para cada um destes departamentos, os quais responderão perante um diretor executivo. Estes elementos assegurarão a governança, a gestão, e a disseminação e criação de valor do InnovPlantProtect.

Durante a fase de instalação, que durará cerca de 5 anos, o InnovPlantProtect será financiado por verbas provenientes do programa CoLab. Está previsto para esta fase um investimento público (via Fundação para a Ciência e a Tecnologia) de 4,9 M€. A Câmara Municipal de Elvas responsabiliza-se pela adequação das infraestruturas e aquisição de parte do equipamento, no valor de 2,5 M€. Neste período prevê-se a contratação faseada de cerca de 50 técnicos e investigadores. No final da fase de instalação esta instituição terá que ter reunidas as condições que garantam o seu auto financiamento. Assim o InnovPlantProtect terá que gerar fundos próprios que resultarão da sua capacidade de produzir propriedade intelectual licenciável e serviços inovadores par a comunidade agrícola.

Combinando técnicas moleculares, de monitorização e de modelação de pragas e doenças emergentes, com o crescente conhecimento da genómica, a atividade do InnovPlantProtect produzirá soluções inovadoras para fornecer proteção direcionada para culturas específicas, as quais permitirão a redução de perdas e contribuir para o aumento de produtividade num quadro de responsabilidade ambiental. O impacto do InnovPlantProtect será observável ao nível de produtos e serviços (novos bio-pesticidas e plantas resistentes, novos modelos e métodos de diagnóstico e de monitorização), bem como ao nível social e regional, contribuindo para a sustentabilidade ambiental, para a densificação do território, a criação de emprego qualificado e a atração de investimento para a região. A instalação do InnovPlantProtect reforçará o desenvolvimento em Elvas de um polo de inovação direcionado para o desenvolvimento da agricultura portuguesa.

Pedro Fevereiro

Biólogo, Professor Auxiliar, Agregado

 

Comente este artigo
Anterior A importância da informação no desenvolvimento agropecuário sustentável - Miguel Damas de Matos
Próximo CDS quer esclarecimentos sobre o último anúncio do PDR para instalação de jovens agricultores

About author

Artigos relacionados

Opinião

O leite já é nacional, falta o preço justo – Carlos Neves

“Pelo futuro de Portugal beba leite nacional!” Gritámos pela primeira vez esta frase em Junho de 2009, numa manifestação entre o “Feira Nova” (agora “Pingo Doce”) da Póvoa de Varzim e o “Modelo” (agora “Continente”) de Vila do Conde. Juntámos associações, cooperativas, 1000 agricultores e levámos as nossas famílias e os nossos filhos com uma faixa “O nosso futuro depende do consumo do leite nacional”. […]

Opinião

Patentes de Plantas – Luís Caixinhas

INTRODUÇÃO
Apesar de não ser possível patentear em Portugal uma túlipa ou quaisquer outras espécies de planta já existentes na natureza, de acordo com Instituto Nacional da Propriedade Nacional (INPI) e conforme expressamente estabelecido no Código da Propriedade Industrial (CPI), no seu art.º 52.º (“Limitações quanto ao objecto (…) b) Os materiais ou as substâncias já existentes na natureza e as matérias nucleares (…) ” […]

Opinião

Em 2017 os resultados económicos da Agricultura portuguesa melhoraram significativamente em relação a 2016 – Francisco Avillez 

No passado dia 13 de Dezembro foi publicado pelo INE (consultar aqui) a primeira estimativa das Contas Económicas da Agricultura (CEA) de 2017, da qual constam também alterações nos dados referentes aos anos de 2016 (substituição das estimativas por resultados provisórios) e de 2015 (substituição dos resultados provisórios por definitivos). […]