Imperfeições de mercado – Filipe Núncio

Introdução

Num mundo com a economia cada vez mais global, todos os sectores se adaptam aos avanços acelerados das novas tecnologias digitais, e assim surgem cada vez mais iniciativas de digitalização de modo tornar os processos mais fáceis, transparentes e económicos.

Sabemos que um dos fundamentos na concepção de uma startup tecnológica, é a resolução de problemas que muitas vezes são criados por factores que prejudicam o funcionamento normal do modelo de mercado livre e transparente e desta forma capturam valor para os operadores.

Efectivamente, muitas vezes o mercado não funciona tão bem como seria desejável devido a diversos factores, entre os quais destacaria os seguintes:

  • Assimetria de informação de mercado
    • Sabemos que quanto maior a informação de mercado, melhor são os recursos que ajudam à negociação de cada uma das partes, e assim, quando num mercado só uma das partes tem acesso à informação relevante, esta terá uma posição dominante sobre a outra, que sem referências acaba por ser condicionada aos termos e condições da parte dominante
  • Acesso limitado a um número muito reduzido de operadores quer compradores ou vendedores, no mercado do serviço ou produto que se pretende negociar
    • Quanto maior o número de operadores compradores e vendedores de um produto ou serviço tem, mais equilibrado e competitivo é o mercado; desta forma, num caso em que o número dos vendedores é significativamente maior que os compradores, isso tem como consequência um mercado desequilibrado em que a parte dominante apresenta-se com muito poucos e por vezes um único operador, como são os casos dos oligopólios ou monopólios

 

Estrutura do mercado agro-alimentar – concorrência imperfeita

Um oligopsónio (do grego antigo ὀλίγοι (oligoi) “poucos” + ὀψωνία (opsònia) “compra”) é uma forma de mercado em que o número de compradores é pequeno, enquanto o número de vendedores é substancialmente maior.

Isso normalmente acontece num mercado onde vários os fornecedores competem para vender o seu produto a um pequeno número de compradores (geralmente grandes e poderosos). Contrasta com um oligopólio, onde há muitos compradores, mas poucos vendedores. Um oligopsónio é um tipo de competição imperfeita.

Os termos monopólio (um vendedor), monopsónio (um comprador) e monopólio bilateral têm uma relação semelhante mas inversa tal como se apresenta na tabela seguinte:

Tabela 1

 

Exemplos de Oligopsónio

Nestes casos, os compradores têm uma grande vantagem sobre os vendedores. Eles podem aproveitar o excesso de concorrência entre fornecedores e escassez de canais de escoamento, para assim reduzir os seus custos de aquisição. Estes também podem estabelecer todas as exigências de especificações exactas para fornecedores, tais como cronogramas de entrega, qualidade e (no caso de produtos agrícolas) variedades de culturas, entre outras.

Estes também têm tendência para transferir grande parte dos riscos de superprodução, perdas naturais e variações na procura cíclica, entre outros, para os fornecedores.

Mercados Oligopsónios na Agricultura

Cacau

Um exemplo de uma oligopsónia na economia mundial é o mercado do cacau, onde três empresas (Cargill, Archer Daniels Midland e Barry Callebaut) compram a grande maioria da produção mundial de grãos de cacau, principalmente de pequenos agricultores de países do terceiro mundo.

Tabaco

Da mesma forma, os produtores de tabaco americanos enfrentam uma oligopsónia de fabricantes de cigarros, onde três empresas (Altria, Brown & Williamson e Lorillard Tobacco Company) compram quase 90% de todo o tabaco produzido nos EUA e noutros países.

Cereais

No mercado dos principais cereais e oleaginosas (trigo, milho, arroz, cevada, girassol e soja), 85% das transacções são realizadas localmente, onde muito poucos compradores compram a muitas centenas de vendedores. Este desequilíbrio cria um mercado onde os compradores ditam as regras e estabelecem o valor, as exigências do produto e os termos e condições de pagamento.

As causas deste desequilíbrio são essencialmente as seguintes:

  1. Difícil acesso a valores precisos e actualizados de referências de mercado, para os produtos à venda pelos agricultores
  2. Difícil acesso a mercados alternativos por parte dos agricultores
  3. Muitos vendedores concorrem para vender localmente o seu produto muito poucos compradores
  4. Informação muito assimétrica entre compradores e vendedores

Em relação ao ponto 1, é importante salientar que os valores dos mercados de referência não servem os propósitos de fornecer ao mercado valores de mercado dos produtos que os agricultores se propõem vender. Isto porque essas cotações são totalmente desprovidas das informações de qualidades, quantidades, modos de produção (entre outras características importantes) de cada lote, que serviriam de referência para a atribuição do valor aos produtos e lotes para vender. Acresce ainda o facto, que estas cotações são muito construídas por base em operações de especulação financeira, em contraste com as operações de produto físico entre 2 operadores reais da cadeia de valor dos produtos (agricultor e industria), pelo que são valores distorcidos do mercado real.

Desta forma, as regras os valores de mercado são distorcidas, criando-se um mercado imperfeito onde os agricultores não são capazes de vender os seus produtos pelo preço justo de acordo com a qualidade e valor que tem, mas pelo valor que o comprador define.

Nestes casos, resta aos agricultores apostarem na estratégia de procurarem diferentes canais de escoamento para aumentar significativamente a diversidade de compradores do seu produto. Ao conseguirem escoar o seu produto por canais alternativos, irão criar escassez de produto aos compradores locais, gerando uma tendência inflacionista por escassez de oferta, ou porque as origens remotas de fornecimentos alternativos obrigam a custos logísticos acrescidos para o comprador.

Por exemplo, na cadeia de abastecimento do pão que comemos todos os dias, ilustrado na figura abaixo, existe um mercado oligopsónio onde os agricultores ou respectivos agrupamentos enfrentam um mercado de compra concentrado em muito poucos compradores.

Figura 1

Esta imperfeição de mercado gera como consequência a quebra de sustentabilidade na produção (agricultores), que por se manter um sector tradicionalmente pouco sofisticado e com baixos níveis de formação, é um sector com muito pouca capacidade e flexibilidade em alterar culturas e modos de produção, para fazer face a estes constrangimentos e acaba por sofrer com as regras impostas pelos compradores.

Conclusão

Podemos assim concluir, que existem produtos que todos nós consumimos diariamente (tal como o pão), que até chegar às padarias e pastelarias, passam por etapas na sua cadeia de valor, que carecem de regras de mercado justo, equilibrado e transparente. Isto significa que muitas vezes o pão que consumimos todos os dias, implicaram sacrifícios suportados por sectores aos quais as regras de mercado eficiente não é aplicado, e que não encontram outra solução senão reinventarem-se.

Neste cenário, os avanços extraordinários da tecnologia digital ao serviço da agro-indústria é uma oportunidade única para se implementar a reestruturação que o sector precisa para resolver os problemas mais graves que enfrenta, com o impacto das imperfeições de mercado que o prejudica.

Filipe Núncio

COO – sales, marketing and operations

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