Hoje é o dia internacional do milho e há muito por contar

Hoje é o dia internacional do milho e há muito por contar

Hoje, 24 de abril, é o dia internacional do milho mas as minhas sementeiras estão paradas porque o S. Pedro ligou a rega. Isso é bom ou mau? Esta chuva é ótima para o milho que já semeei nos campos mais secos e menos boa para algumas zonas húmidas que arrisquei semear porque a primavera foi demasiado seca até agora. Mas é bom ou mau? Globalmente esta chuva é boa, vale ouro, mas também tem aspetos negativos: Para vós, não agricultores, impede os vossos passeios de desconfinamento, estraga o negócio das esplanadas. Para nós, agricultores, atrasa a colheita das ervas que ainda estão no campo, as lavouras e sementeiras. Mas, pesando prós e contras, esta chuva é boa. Se eu mandasse alguma coisa, diria: ”Venha, mas temperadinha e só por uns dias!.. 🙂 ” Fiz esta introdução para dizer que na vida real as coisas não são boas ou más de forma simples como nas discussões da internet sobre as formas de fazer agricultura.
O milho é o cereal mais cultivado do mundo, acima do trigo e arroz. A palavra milho vem do latim “millium”, termo oriundo do número “mil” devido à quantidade de grão de cada espiga. Este nome era usado na Europa para o “milhete” ou “painço” até aos navegadores nos trazerem da América Central o milho que hoje conhecemos.
Gostava de poder viajar no tempo para assistir à cena da “domesticação” do milho (Zea Mays) há cerca de 9000 anos no México a partir da planta “Teosinto” pelos nativos da altura. Parece que foi alimento fundamental para Olmecas, Aztecas, Maias e Incas. Como terá sido recebido o primeiro “inventor” do milho? Terá sido olhado com desconfiança? Atacado nas redes sociais? Terá o feiticeiro da aldeia organizado a destruição daquele campo como fizeram outros ativistas 9.000 anos depois em Silves? Como terá sido recebido na Europa? Não sei exatamente, mas sabemos que aqueles que escolheram o novo “milho” foram os que sobreviveram e deixaram descendência.
Há diferenças significativas entre as variedades o milho pipocas, milho doce, milho branco e milho amarelo, de grão redondo ou dentado, mas depois há um número enorme de variedades dentro de cada um destes grupos, em especial do milho amarelo usado para alimentação animal (grão ou silagem), produção de energia (biogás ou etanol) e outros usos industriais. Podemos utilizar as sementes de uma planta de milho para produzir novas plantas no ano seguinte, mas os milhos híbridos, resultantes do cruzamento de duas linhas puras (ver imagem), são mais produtivos. Não consegui descobrir quando começou a produção de semente de milho híbrido, mas desde pequeno que para mim foi normal ver o meu pai usar milhos híbridos comprados às várias empresas que depois colocam os cartazes a assinalar as diferentes variedades nos “campos de ensaio” ou simplesmente a fazer publicidade nos restantes campos.
Mesmo que todo o milho tenha folhas verdes e grãos amarelos, entre as “variedades” é diferente a cor da flor masculina (pendão) e feminina (a “barba” da espiga) e variam muitas outras coisas: a altura da planta, a quantidade de produção de forragem ou de grão, a resistência à acama (cair), a digestibilidade, o teor de amido / energia acumulado na espiga e a duração até à colheita. São todos esses fatores que nos levam a escolher as sementes que compramos em cada ano, baseado na nossa experiência, na experiência dos colegas, no conselho técnico e nas diferentes propostas comerciais. A semente de milho híbrido é muito cara, cerca de 200 euros por hectare, mas isso é apenas 10-20% do custo final, por isso compensa investir em boa semente para ter produção e na qualidade. Também compro a “batata de semente” e as sementes das ervas. São selecionadas, certificadas, limpas de infestantes e com germinação assegurada.
Desconheço que neste momento haja produção de milho semente em Portugal. O milho híbrido que semeio, devidamente certificado depois de tratado / desinfetado para não ser atacado pelos insetos do solo) foi produzido na França, Hungria, Roménia ou noutros países. Há mais de 30 anos, o meu tio Carlos “Penas” produzia aqui em Árvore milho semente para uma empresa e era uma trabalheira para a família fazer o corte dos pendões nas linhas assinaladas para o efeito. Além desse trabalho, há um enorme trabalho de laboratório, de investigação, de recolha de dados e experimentação por parte de cada empresa que concorre no mercado, procurando apresentar os milhos mais vantajosos para os agricultores e para cada situação: mais produtivos, mais digestivos, mais resistentes à seca e menos exigentes em nutrientes.
Fica aqui a minha palavra de respeito, admiração e agradecimento a toda a gente que em todo o mundo trabalha na fileira do milho de semente. Pessoas normais, iguais aos agricultores, aos consumidores e a todas as outras pessoas que querem viver a vida, ser felizes, criar os filhos e deixar-lhes o mundo um bocadinho melhor do que encontraram. Pessoas que trabalham em empresas nacionais ou multinacionais iguais a muitas outras empresas que produzem telemóveis, computadores, carros, televisões, jornais ou serviços de internet e redes sociais que depois são usados para criticar os agricultores e as empresas de sementes. Empresas que que procuram o lucro como como todas a empresas, e essa procura é moral se não for ilegal, a fugir aos impostos ou a esconder dados de investigação. Empresas cuja atividade tem de ser fiscalizada pelo Estado. Pessoas e empresas são muitas vezes acusadas e tratadas como criminosas por causa do medo do milho transgénico (que nunca semeei), mas sobre o qual hei-de escrever no futuro, depois de parar a chuva e terminar as sementeiras. Bom fim de semana!
#carlosnevesagricultor

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legenda: Campo de produção de milho semente; fonte da imagem: Agrolink – produção de sementes de milho

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legenda: Esquema de produção de milho híbrido; fonte da imagem: Agrolink – produção de sementes de milho

O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.

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