Há um combate sem fim à vista no Sorraia

Há um combate sem fim à vista no Sorraia

No passado Verão, os holofotes viraram-se para o rio Sorraia e para a luta contra o jacinto-de-água. Desligadas as atenções, continua o combate naquelas águas mas a guerra está longe de ser vencida.

Quando o nome Sorraia surge na conversa, Sandra Alcobia esboça um sorriso, segura de que a frase seguinte envolve a praga que tomou conta do rio. A bióloga, que acompanha a situação há já vários anos, sente que toda a gente se esqueceu de um dos mais importantes afluentes do Tejo. Mas ali decorre uma batalha vital contra uma planta que tudo ameaça. 

As águas mornas do rio são o ambiente perfeito para a existência e propagação dos jacintos-de-água e, para além disto “os campos agrícolas em redor são extremamente férteis, adubados e fertilizados principalmente com azoto, fósforo e potássio. Portanto, nós estamos a dar ao jacinto todos os nutrientes que ele precisa para crescer”, explica Sandra Alcobia.

A partir de 2012, a situação começou a piorar, mas só em Setembro de 2019 se deu início às limpezas. “Nos municípios de Coruche e Benavente, há já alguns anos que andávamos junto do Ministério do Ambiente, da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e da Administração da Região Hidrográfica do Tejo a alertar para a situação do Sorraia, mas nunca tínhamos conseguido nada”, esclarece Francisco Oliveira, presidente da Câmara Municipal de Coruche.

“Até aqui, ainda ninguém tinha percebido muito bem a problemática do jacinto-de-água”, diz Sandra Alcobia. “Ele estava lá, causava alguns prejuízos, era chato para os pescadores e era chato para as autarquias que tinham de limpar as zonas ribeirinhas, mas era só isso”.

Depois de muita insistência, não só das autarquias como da população e de alguns voluntários que fundaram o projecto Juntos Pelo Sorraia, o assunto teve uma resposta da APA, que entrou no processo e conseguiu reunir as entidades responsáveis pelo rio. Desencadearam-se assim várias acções com o objectivo de proceder à limpeza dos jacintos-de-água das zonas onde se manifestava com mais intensidade.

Após diversas reuniões com os municípios, a limpeza começou com três máquinas giratórias. “O plano traçado era remover os jacintos das zonas onde poderiam constituir algum risco, especialmente na proximidade das pontes agrícolas que fazem a travessia do vale do Sorraia”, explica Francisco Oliveira.

No final do mês de Outubro, as máquinas deslocaram-se para outros terrenos agrícolas e a limpeza esteve interrompida. Em Dezembro, as máquinas giratórias regressaram e estão a incidir com maior afluência nas zonas a montante das travessias do rio, para prevenir que a aglomeração da praga ameace as estruturas das pontes.

Mas o que está a ser feito chega para salvar o Sorraia? A bióloga Sandra Alcobia diz que é urgente uma intervenção no rio, que vai muito além destas máquinas. “Tem de haver uma monitorização diária, ou seja, já foi feita a parte principal, a parte mecânica, e o grosso foi retirado. Mas neste momento os barcos deveriam estar dentro de água a subir e a descer o rio e a retirar todos os propágulos [estruturas que originam uma nova planta] que encontrassem”.

Nos sítios onde ainda existem jacintos, é fácil vê-los florir novamente. Os instrumentos mecânicos são essenciais para retirar o grosso das plantas, mas também podem ser um problema. Alberto Santos, que faz parte do movimento Juntos Pelo Sorraia explica que “as máquinas que estiveram a fazer as limpezas foram partindo pedaços da planta que por sua vez vão dar origem a novos rebentos, o que mostra a dificuldade de controlar esta praga”.

O combate aos jacintos-de-água terá de ser um trabalho continuo e demorado. Sandra Alcobia alerta que “cada semente da planta tem um tempo de vida mínimo de 20 anos, logo, com novos rebentos a surgir diariamente é impossível calcular durante quantas décadas esta praga vai existir”.

Para dar continuidade a esta luta, as autarquias de Coruche e Benavente, reuniram com técnicos da APA e de outros locais do país ameaçados por pragas, para chegarem a consenso sobre as medidas a tomar. “Uma das primeiras medidas será actuar mais cedo em 2020, em Março ou Abril, visto que, com as temperaturas baixas, o jacinto-de-água fica mais frágil e a sua propagação tem menos intensidade”, refere o presidente da Câmara Municipal de Coruche.

Este plano de acção, passará também pela colocação de barreiras ao longo do rio, que irão estabilizar a propagação da planta e facilitar a sua remoção. Francisco Oliveira realça também que “é extremamente importante que esta seja uma acção continuada, para além das barreiras e de uma intervenção feita mais cedo, irão ser disponibilizados barcos para funcionarem como guarda-rios”.

Com plena noção de que não se irá eliminar a praga num curto espaço de tempo, o objectivo da autarquia de Coruche, juntamente com as outras entidades responsáveis, é controlar a situação para que não volte a existir uma população de jacintos-de-água tão preocupante.

Salvar o Sorraia será um caminho longo e sem certezas, as acções desenvolvidas terão de existir até se conseguir controlar esta praga. “Se por alguma razão política, social, económica ou outra, se vierem a abandonar estas intervenções, claramente o rio voltará a deixar de ser rio”, garante Francisco Oliveira.

Texto editado por Ana Fernandes

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O artigo foi publicado originalmente em Público .

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