“Essa coisa de nos chamarem ‘Interior’ é uma estupidez”

Pouco passava das 15h e o calor não dava sinais aparentes de tréguas quando um homem que já aparentava ter alguma idade passava de chaves na mão por um dos longos corredores do Parque de Ciência e Tecnologia da Covilhã, nos arredores da cidade beirã. Uma imagem deslocada num edifício já de si deslocado pelo contraste entre o aspeto moderno e envidraçado e as serras em redor. “O meu nome? Manuel Águia”, atira para logo depois acrescentar que estamos na presença de “uma águia do Sporting”.
Com 61 anos, Manuel Águia encontra-se desde 2010 entre os empreendedores e as empresas novas que povoam este investimento da Universidade da Beira Interior (UBI). “Sinto que faço a minha parte na mudança da cidade”, confessa, o que não seria de todo provável afirmar quando há dez anos se viu obrigado a sair da empresa de papel fundada pelo pai e onde trabalhou desde os 19 anos. Foi uma “transição difícil”.

Na Covilhã, seja em antigas fábricas renovadas ou nos gigantes murais de arte urbana visíveis em alguns prédios de traça histórica, esta mescla entre tradição e modernidade é bem visível e ajuda a definir uma cidade e uma região que após o período periclitante da pós-industrialização, apontam de forma cada vez mais confiante para o futuro. Como a empresa responsável pelo primeiro filme em animação 3D feito em Portugal (“Karma”, com argumento de Rui Zink, se quiser pesquisar), em 2001, e que se encontra sediada precisamente nos corredores onde encontramos Manuel Águia. “Achamos que temos uma visão diferente”, atira Telmo Martins. O CEO da Lobby Productions veio estudar eletromecânica para a UBI e acabou dedicado ao cinema e o audiovisual. Tudo porque teve que fazer uma animação de um carro para um projeto estudantil. “Percebi a minha ligação com contar uma história. É um choque brutal quando descobres qual é o amor da tua vida.” Na hora de escolher a sede, não teve dúvidas do local.

A cereja não escolhe
“Em lado nenhum encontrávamos as condições que aqui encontramos”, explica Telmo, com a certeza que “esta coisa de nos chamarem Interior é uma estupidez.” Com estúdio em Lisboa e representação no Dubai, acredita que o facto de ter escolhido a Covilhã não o devia prejudicar, só que ainda “há muito a mentalidade de pequeno. Não tem sido nada, nada fácil”. E quando o próprio país é pequeno e os avanços tecnológicos permitem uma conectividade sem paralelo, a questão da distância devia importar ainda menos. “Estando fora dos grandes centros, temos a desvantagem de não fazer parte de certos grupos”, garante.

A fábrica das Frutas João Veríssimo Mendes & Filho em Castelo Novo (à esquerda) é onde se faz o tratamento e se embala a cereja da empresa. São 200 a 300 toneladas por ano que saem dali e que obrigam João Filipe Mendes a ser, ao mesmo tempo, “agricultor, mecânico, eletricista, engenheiro e gestor. São 15 ou 16 horas por dia nesta fase, é difícil”, relata

A fábrica das Frutas João Veríssimo Mendes & Filho em Castelo Novo (à esquerda) é onde se faz o tratamento e se embala a cereja da empresa. São 200 a 300 toneladas por ano que saem dali e que obrigam João Filipe Mendes a ser, ao mesmo tempo, “agricultor, mecânico, eletricista, engenheiro e gestor. São 15 ou 16 horas por dia nesta fase, é difícil”, relata

Rui Farinha / NFactos

Avancemos agora uns quilómetros até Alcongosta, “a terra da cereja” como lhe chama João Filipe Mendes. Estamos em plena época de colheita e os dias do responsável pela empresa que leva o nome do pai, Frutas João Veríssimo Mendes & Filho, são atualmente passados entre a fábrica de preparação e embalamento e os terrenos em socalcos onde há décadas que a sua família trabalha. “A cereja tem que ser sempre colhida, não olha a sábados, domingos ou feriados”, conta.

Mais difícil seria se os pais não o continuassem a ajudar, tal como fizeram com os pais deles e como João também fez quando era miúdo. Estão os dois junto dos trabalhadores e continuam com a mesma força que a vida os obrigou a ter. “Os meus pais ainda me meteram a estudar, mas eu não quis”, revela o fundador da empresa, que se recorda de desde cedo “andar com os avós” na apanha e “de burro com o pai” para o ajudar no negócio. “As árvores eram maiores na altura”, lembra, enquanto fala rodeado de cestos de verga carregados de cerejas. Sentimento partilhado pela mulher Maria Mendes, para quem “é muito bom” que o trabalho ainda seja feito em família. “Assim fomos fazendo a vida. E tenho dois netos em Lisboa que me estão sempre a dizer que gostam de estar aqui. Mas acho que vão seguir outra vida”, comenta. É uma vida completamente diferente da que teve, em que, sempre que saía da escola, tinha que andar “uma grande distância” para “encher um dado número de caixas estipulado pelo pai”. E à qual Rosa Belo, que “trabalha há quase 30 anos na colheita”, não teve alternativa porque na sua “aldeia não existia outro trabalho”.

Arquitetos do tecido
Se a cereja era a rainha na zona rural, então o trono na urbana Covilhã era ocupado pelos lanifícios. “Ou íamos para o têxtil, ou então não sei”, garante Jorge Trindade em conversa no Museu dos Lanifícios, que se encontra bem no centro da cidade. “Lembro-me como se fosse hoje do barulho nas máquinas que se ouvia nas ruas”, diz o debuxador de profissão que começou a trabalhar numa fábrica aos 11 anos. Um debuxador é “o arquiteto do tecido”, ou seja, era a pessoa responsável por conceber minuciosamente os padrões para os tecidos que depois eram executados de acordo com o plano desenvolvido. Quase (ou mesmo) como um designer dos tempos modernos, apesar de Jorge confessar que não gosta da “palavra design”. Começou como “ajudante do ajudante do ajudante” e tirou o curso à noite para o que define como uma “profissão muito exigente”, numa altura em que “a vida era muito difícil, com ordenados baixos. Era o tempo da outra senhora”, aponta.

Junto a uma das muitas máquinas que podemos visitar no Museu dos Lanifícios, no centro da cidade, está Jorge Trindade, que teve uma carreira de 50 anos a conceber os desenhos têxteis para produção. “Hoje, faço em Excel e exponho”, revela

Junto a uma das muitas máquinas que podemos visitar no Museu dos Lanifícios, no centro da cidade, está Jorge Trindade, que teve uma carreira de 50 anos a conceber os desenhos têxteis para produção. “Hoje, faço em Excel e exponho”, revela

Rui Farinha / NFactos

Não era por acaso que a dada altura a cidade era conhecida como a Manchester de Portugal e a diretora do museu, Rita Salvado, tem a memória de chegar à Covilhã com sete anos e da infância passada a “sentir sempre o cheiro muito característico das lãs”. A posição próxima da serra da Estrela e a passagem de muitos canais de água facilitavam o acesso à lã e explicam a tradição da indústria que “já era referida pelo próprio Gil Vicente”, conta a técnica superior do arquivo, Helena Correia.

Apesar de ter perdido a posição hegemónica de outrora, os lanifícios ainda são muito importantes para a região e Rita Salvado faz questão de deixar um provérbio típico da região: Se os filhos de Adão pecaram, os da Covilhã sempre cardaram — processo que facilita o tratamento da fibra a ser utilizada no fabrico de fios. “Hoje fabrica-se mais num dia do que nessa altura num mês”, garante Jorge Trindade, com a certeza de que estamos perante um espírito que está na “raiz da cidade. Vai sempre ter ao mesmo sítio”.

Retrato da região

A Beira Interior tem o pior PIB per capita entre todos os seus congéneres, o que em termos de valores percentuais situa-a 20% abaixo da média nacional e 50% abaixo de Lisboa. Entre 2015 e 2017, o crescimento médio anual da atividade económica foi de 1,5%, contra os 3,3% de Portugal. Se não será surpreendente que a densidade populacional seja inferior à do litoral, também é certo que se regista uma perda muito significativa ao nível dos habitantes. Este último é um problema demográfico que se estende ao resto do país mas que a região tem tido mais dificuldades em contrariar. Mesmo com o polo de atração da Universidade da Beira Interior, não há capacidade de rejuvenescimento instalada, com a população em idade estudantil a fixar-se nos 9,2% e a que tem mais de 65 anos quase nos 30%.

Dez campeões da Beira Interior

Estão entre as figuras mais influentes e representativas da região. Saiba quem são

ADOLFO MESQUITA NUNES Galp
Antigo secretário de Estado do Turismo, é um dos dirigentes do CDS e faz parte do conselho de administração da Galp

ANTÓNIO PLÁCIDO Casa da Prisca
Responsável por uma das principais marcas de produtos alimentares típicos da região

FERNANDO CARVALHO RODRIGUES Professor
Considerado o pai do primeiro satélite português, o PoSAT-1, lançado em 1993

JOÃO CARVALHO Fitecom
Sediada na Covilhã, a unidade têxtil da Covilhã tem revelado taxas de crescimento acima dos dois dígitos

JOÃO FILIPE MENDES Frutas João Veríssimo Mendes & Filho
Responsável por uma empresa de produção de frutas que se tem revelado uma referência

Telmo Martins, o CEO da Lobby Productions, pode agradecer a um duplo acaso por estar instalado no Parque de Ciência e Tecnologia da Covilhã. “Comecei por estudar engenharia eletromecânica e escolhi a Universidade da Beira Interior porque gostava muito de neve”, conta entre risos

Telmo Martins, o CEO da Lobby Productions, pode agradecer a um duplo acaso por estar instalado no Parque de Ciência e Tecnologia da Covilhã. “Comecei por estudar engenharia eletromecânica e escolhi a Universidade da Beira Interior porque gostava muito de neve”, conta entre risos

Rui Farinha / NFactos

JOÃO GIL Músico
Membro fundador dos Trovante, é um dos grandes inovadores da música portuguesa

JORGE AMARAL Mecalbi
É o fundador da empresa especializada em equipamentos de retração que opera a nível mundial

LUÍS VEIGA Grupo IMB Hotels
Administrador executivo de um grupo de hotéis centrado na região

NUNO SANTOS The Navigator Company
A fábrica da empresa em Vila Velha de Ródão é considerada a mais eficiente da Península Ibérica e a segunda na Europa

TELMO MARTINS Lobby Productions
É o CEO de uma produtora audiovisual sediada na Covilhã que chega a todo o mundo

Cimeira para todos verem

O grande auditório da Faculdade de Medicina da Universidade da Beira Interior serviu de palco à Summit na Beira Interior, a quarta do projeto “Os Nossos Campeões”, que junta SIC Notícias, Expresso e Novo Banco para dar a conhecer dez figuras de uma dada região do país. Pelo palco passaram oito dos escolhidos, que deixaram a sua perspetiva sobre uma zona onde escolheram fazer a sua vida. A distância foi um dos primeiros temas abordados, com Fernando Carvalho Rodrigues a falar do custo elevado das deslocações entre a Covilhã e os principais centros urbanos, que estima em “seis dias de ordenado”. Jorge Amaral destacou a “dificuldade” em contratar, ao passo que Luís Veiga deixou uma certeza: “Há muito a fazer para que haja aqui um cluster de turismo.” João Gil falou de uma época de “grandes mudanças”.

Textos originalmente publicados no Expresso de 6 de julho de 2019

O artigo foi publicado originalmente em Expresso.

Comente este artigo
Anterior Crédito Agrícola reforça apoio a jovens empresários e empreendedores
Próximo Kiwis de Portugal viajam com a TAP

Artigos relacionados

Últimas

Milhares de colmeias queimadas e mel DOP Serra da Lousã em risco


Os incêndios que atingiram a região Centro destruíram milhares de colmeias e pasto das abelhas em vários concelhos, o que fará […]

Últimas

“A agricultura extensiva é a resposta para o desenvolvimento do Alentejo e do país diz Catarina Martins na visita

[Fonte: Rádio Campanário] Em Castro Verde, Catarina Martins alertou que “a monocultura intensiva não tem trazido emprego” e “está a estragar os solos e a água” e defendeu que o Alentejo e o país precisam para o seu desenvolvimento de uma “agricultura extensiva, […]

Últimas

The Role of Biodiversity in Vines in a changing climate

Esta Climate Talk abordará a forma como os produtores de vinho estão a gerir a biodiversidade nas suas vinhas, o seu papel e principais benefícios. Como sempre teremos à conversa produtores de […]