“Espero que não se esqueçam de nós em outubro”

“Espero que não se esqueçam de nós em outubro”

Projetos Expresso. Agroalimentar. A quebra de preços preocupa o sector, mas os empresários procuram alternativas que lhes permitam sobreviver à pandemia e estar a postos para a próxima fase

A terra continua a dar frutos e a vinho continua a marcar presença nas mesas de refeição portuguesas. Mas desengane-se quem pensa que o sector agroalimentar não está a ser afetado (e muito) pela covid-19, sobretudo pelo lado económico e pelo impacto na produção. Após alguns anos de forte crescimento — que culminaram com a indústria agrícola portuguesa a gerar mais valias recorde de €7,7 mil milhões em 2019, segundo dados da União Europeia (UE) — e de diversificação, o sector vê-se agora a braços com uma pandemia que lhe retira força de trabalho, diminui preços de venda e de compra ao produtor, e fecha mercados internacionais essenciais.

O escoamento de stocks e a aquisição de matérias-primas estão entre as principais preocupações, com a Organização Mundial de Comércio a anunciar uma quebra global que se deve situar entre os 15% e os 30%, enquanto a Rússia, por exemplo, acabou com a exportação de cereais até 1 de julho… pelo menos. O encerramento do canal Horeca (termo que em Portugal abrange os estabelecimentos de hotelaria, restauração e cafetaria) foi também um rude golpe para os empresários do sector que viram o turismo e os cerca de 27 milhões que visitaram o país em 2019 (outro recorde) esfumarem-se como que de um dia para o outro.

“É muito difícil gerir tudo isto”, confessa Bernardo Alves. O administrador da Riberalves foi um dos convidados da Summit Agroalimentar do projeto “Os Nossos Campeões”, que junta Expresso, SIC Notícias e Novo Banco para dar a conhecer figuras de destaque pelo trabalho desenvolvido nos respetivos sectores. A conferência digital teve lugar no Facebook do Expresso e reuniu personalidades de diferentes áreas do agroalimentar para oferecer uma visão mais alargada dos grandes desafios que estão a enfrentar.

Portugal consome cerca de 20% do bacalhau salgado capturado a nível mundial, mas os efeitos da pandemia na indústria estão a ser tais que, recentemente, a Associação dos Industriais do Bacalhau lançou um apelo aos supermercados e restaurantes portugueses para ajudarem a promover o consumo do seu produto. O objetivo é garantir milhares de postos de trabalho, diretos e indiretos e Bernardo Alves fala, sem rodeios, de uma fase que só pode ser descrita como “um grande contratempo”. As circunstâncias obrigaram a empresa a assegurar “toda a cadeia de abastecimento” e a redobrar esforços para que a produção e as vendas continuem. “É um processo de aprendizagem” que obriga a procurar alternativas, como o caso da venda porta a porta que permitiu chegar diretamente aos clientes e minimizar os estragos. “Uma aposta para continuar”, atira.

Comércio digital
Os canais de compra que não impliquem deslocações físicas são uns dos poucos vencedores da pandemia. Antes do primeiro caso de covid-19 reportado em Portugal, as vendas não passavam dos 30%. Percentagem que praticamente dobrou em quatro semanas de quarentena. O confinamento fez disparar o comércio digital, e um estudo divulgado pela Mastercard mostra que 54% dos portugueses estão a utilizar este instrumento mais do que alguma vez fizeram, enquanto 30% garantem gastar mais dinheiro em plataformas digitais do que no início do ano.

“Tenho reuniões digitais com clientes espalhados pelo mundo”, conta Olga Martins. “Combino com um cliente no Canadá, abre-se um vinho nosso e vamos falando”, exemplifica a CEO da Lavradores de Feitoria para ilustrar as mudanças que o negócio tem sofrido. E se o consumo doméstico aumentou, não chega para compensar a saída de cena dos restaurantes e bares durante dois meses. “Antes pelo contrário, temos menos canais para escoar”, garante a produtora que vê “na vontade de desconfinar” uma nota de esperança para a recuperação que se prevê lenta.

O escoamento também é visto por João Portugal Ramos, fundador da João Portugal Ramos Vinhos, como um dos grandes desafios deste período. Se as exportações de vinho cresceram 2,1% antes do pico da pandemia, num total de €185,5 milhões, de acordo com o Instituto da Vinha e do Vinho, é certo que a estagnação da atividade económica já surtiu efeitos enquanto a atividade continua. O produtor considera que o apoio de €10 milhões anunciado pelo Governo para lidar com o aumento de stocks — como resultado da menor procura —“é insuficiente” e espera que haja uma “retoma o mais rápido possível do sector da restauração”. Fica pelo menos a certeza quanto à resiliência do vinho enquanto produto. “É um bem essencial. Acompanha as horas mais felizes e as mais tristes.”

A produção tem continuado ininterruptamente nas diferentes áreas, com o surto de covid-19 numa fábrica de aves na Azambuja a ser até agora o caso mais mediático no agroalimentar. E as novas regras de distanciamento têm sido aplicadas com maior ou menor dificuldade. “Não tivemos problema de maior ao nível das contaminações”, defende o administrador da Casa da Prisca, António Plácido. “Tentamos produzir sem complicações, a tentar responder às necessidades do mercado. Fomos conseguindo”, acredita. As grandes incertezas colocam-se agora com a manutenção dos apoios estatais para o período de retoma e António Plácido deixa um pedido: “Espero que não se esqueçam de nós em outubro. Os maiores problemas podem surgir aí”, considera, com os possíveis efeitos de uma quebra prolongada e da tão discutida segunda vaga.

Medidas como o lay-off simplificado, linhas de crédito ou moratórias nos pagamentos são vistas pelo sector como essenciais para aguentar o impacto da crise, e da sua continuidade pode depender a sobrevivência de muitos negócios. Para Pedro Madeira, sócio-gerente da Frusoal, o “problema não está tanto no que está a acontecer este ano, apesar dos problemas”, mas sim na próxima colheita depois do verão. “Temos receio que possa ser mais limitada, que fique aquém”, conta. O preço da fruta caiu 5% em março relativamente ao mesmo mês de 2019 e a preocupação é evidente, com o empresário a realçar que “não se pode facilitar” porque “se não houver colheita, não há trabalho”. Se a doença entra “na produção, é muito perigoso”, lembra o administrador do Vale da Rosa, António Silvestre Ferreira, que pede também mais apoio à “pequena produção” para estimular trocas comerciais.

A ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque, já anunciou o pedido à UE de antecipação de €85 milhões, dos fundos previstos para 2021-2027, para a campanha deste ano e, apesar das críticas das associações do sector, António Ramalho, diz que é “importante perceber que as medidas não podem ser para sempre”. O CEO do Novo Banco é da opinião que a “proximidade de cadeia de valor e financiamento vai ter que se adaptar” e que as empresas devem desenvolver novos “modelos de consumo”, uma vez que “a mudança de hábitos vai ser longa”. Perante apelos para um maior envolvimento do sector bancário, que também se ouviram na Summit Agroalimentar, o gestor admite que “cabe à banca reinventar-se” e que a fase que vivemos agora é apenas a primeira. “A fase verdadeira só vem depois”.

Um inquérito da Mckinsey estima que os gastos dos portugueses com álcool caíram 27% nas últimas semanas e António Cuco, proprietário da Sharish Gin, optou por lançar uma bebida com “75% de teor alcoólico” que serve para beber em doses reduzidas ou usar como desinfetante. “Em caso de necessidade”, diz entre risos. A opção obrigou a “redestilar álcool que estava em stock” e funcionou como “um balão de oxigénio que permitiu continuar a trabalhar”. O gerente da MVP Gin, Gonçalo Pereira, optou por “uma estratégia mais conservadora”, com um plano a cinco anos que não olha tanto para o impacto imediato. “O que nos preocupa é a questão de longevidade”, aponta o empresário. Nesta luta diária pela sustentabilidade futura do sector, Gonçalo Pereira não tem dúvidas que a “pandemia não é o fim do mundo. As estratégias é que são diferentes”.

O PANORAMA DO SECTOR

VAB

4,9%
é o peso do sector agroalimentar no VAB (valor acrescentado bruto) da economia portuguesa. Se a área do comércio alimentar for incluída nestes cálculos, o valor sobe para 9,6% do VAB e 12,7% do emprego, por exemplo

Despesa

70%
foi quanto os portugueses gastaram na compra de bens alimentares e farmácia na semana de 6 a 12 de abril deste ano. Representa o pico do aumento da despesa das famílias nesta área, mas que desde então se tem vindo a normalizar

Exportações

3,8%
foi o crescimento homólogo nas exportações de bens alimentares em comparação com março de 2019. Este aumento contrasta com o recuo de 3% nas exportações totais de bens que se registou no mesmo período

OS NOSSOS CAMPEÕES

Da vinha ao gin, das frutas ao bacalhau, passando pelos enchidos e compotas, conheça os oito campeões do agroalimentar

António Cuco, proprietário da Sharish Gin
A ideia partiu de um desafio de amigos e a necessidade veio da situação de desemprego em que se encontrava. Com formação em turismo pela Universidade de Évora, foi um passo até dar azo à paixão pela destilaria e pelos produtos portugueses para criar um dos mais conhecidos gins nacionais.

António Plácido, administrador da Casa da Prisca
Os pais de António Plácido iniciaram, em 1972, a atividade de comercialização de carne de porco, que deu início à Casa da Prisca. A atividade está no sangue do filho, que consolidou uma empresa que hoje, além dos enchidos, é famosa pelas compotas e que está presente em mais de 40 países.

António Silvestre Ferreira, administrador da Vale da Rosa
A vida levou-o de Ferreira do Alentejo para o Brasil e de volta para a herdade, para criar o império das uvas sem grainha que faz parte da maior produtora de uvas de mesa do país. A experiência do outro lado do Atlântico deu-lhe as bases para a inovação que mudou o mercado nacional.

Bernardo Alves, administrador da Riberalves
Parte da segunda geração familiar, Bernardo Alves é uma das caras da marca que faturou €150 milhões em 2019 e que inclui a maior fábrica de processamento de bacalhau do mundo. O administrador é o responsável pela parte internacional do negócio, que abrange mais de 20 países.

Gonçalo Pereira, gerente da MVP Gin
Responsável por aquele que é considerado como o primeiro gin do Ribatejo, o gerente esteve na origem de um produto que já recolheu diversas distinções nacionais. Tal como o próprio Gonçalo Pereira, filho de lavradores, que recebeu o galardão Jovem Empresário do Ano e que aposta no posicionamento internacional da empresa.

João Portugal Ramos, fundador da João Portugal Ramos Vinhos
O campo é uma paixão antiga e levou-o ao Alentejo e às principais adegas da região, onde ganhou fama, prestígio e a alcunha de “arquiteto dos vinhos”. Capital e experiência que utilizou para se lançar em nome próprio e criar uma marca que galga fronteiras a partir de Estremoz.

Olga Martins, CEO da Lavradores de Feitoria
Começou em engenharia química, mas seria como enóloga que foi convidada para a Lavradores de Feitoria. Desde que está à frente do grupo de 15 produtores vinícolas da região do Douro que já foi considerada Executiva do Ano e recebeu a Ordem do Mérito Empresarial, Classe do Mérito Agrícola.

ENCONTRAR NOVAS FORMAS COLETIVAS

A Summit Agroalimentar marcou uma nova fase do projeto “Os Nossos Campeões”: se nas outras conferências os encontros foram sempre físicos, desta feita a conversa fez-se como tantas outras agora se fazem: numa plataforma digital. O Facebook do Expresso recebeu o encontro moderado pelo diretor de informação da Impresa, Ricardo Costa. A conversa contou com (de cima para baixo, da esquerda para a direita) com João Gil, Gonçalo Pereira, António Silvestre Ferreira, Pedro Madeira, António Cuco, Bernardo Alves, Carlos Andrade, João Portugal Ramos, Olga Martins, António Plácido e António Ramalho. O formato dividiu os campeões em quatro blocos de acordo com a sua atividade e as conversas deixaram a nu os grandes desafios coletivos do sector. Acompanhado pelo filho, o campeão da Beira, João Gil foi o convidado musical da sessão e deixou bem clara a necessidade de implementar “mecanismos coletivos de corresponsabilização” em todos os sectores. Sem esquecer que os agentes culturais “não precisam de esmolas”

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