Do trevo-de-quatro-folhas à Linaria ricardoi: 60% das plantas portuguesas mais importantes estão em risco de extinção

Dezanove espécies de flora já desapareceram e 381 seguem o mesmo caminho, de acordo com a “Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental”, esta terça-feira apresentada numa conferência na Fundação Calouste Gulbenkian. O trabalho terminado no início do ano é agora transformado em livro e integra a coleção “Botânica em Português”, publicada pela Câmara de Lisboa, no contexto da Capital Verde Europeia 2020

Mais de metade das 630 plantas catalogadas na primeira “Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental” estão em risco de desaparecer, revela a Sociedade Portuguesa de Botânica. Desta lista de plantas – que se chamam vasculares, porque possuem vasos que transportam seiva para alimentar as suas células – constam 122 espécies de flores, árvores, fetos ou arbustos protegidos por legislação nacional e europeia, mas que as autoridades portuguesas não têm conseguido proteger devidamente.

“Faltam medidas de conservação deste património natural”, aponta ao Expresso André Carapeto, coordenador técnico desta lista vermelha, que contou com a coordenação da Sociedade Portuguesa de Botânica e da Associação Portuguesa de Ciência da Vegetação (PHYTOS) e a parceria do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). O biólogo lembra que das mais de seis centenas de plantas avaliadas “apenas 8% foram até agora alvo de ações de conservação no terreno, muitas delas ligadas a projetos Life, que, quando terminados, ficam sem continuidade, porque não se faz uma conservação ativa da flora em Portugal”.

Exemplos dessas falhas não faltam entre as espécies endémicas mais ameaçadas da lista, como a Linaria Ricardoi, que “desapareceu do sítio Alvito-Cuba da Rede Natura 2000 devido à expansão do olival e amendoal intensivos no perímetro de rega do Alqueva”, alerta o investigador. E lembra que “90% da população desta espécie protegida por lei encontram-se nas zonas do Alentejo tradicionalmente ocupadas por olival de sequeiro e que agora estão a ser ocupadas pelo olival intensivo e por outras culturas de regadio em cujos solos não sobrevive”.

A intensificação agrícola tem sido uma das ameaças mais graves que recaem sobre a flora portuguesa, afetando quase um terço das plantas avaliadas neste projeto. Mas não é a única. As alterações no uso do solo associadas à expansão urbanística ou a outros projetos juntam-se num cocktail explosivo, que contribuiu para pôr em perigo 381 espécies da flora vascular e extinguir 19 outras. Duas delas — Armeria arcuata e Armeria neglecta — extinguiram-se da face da Terra, pois não existiam em mais lugar nenhum do mundo. A primeira existia na faixa litoral alentejana e a segunda nos arredores de Beja. Os últimos registos de ambas datam de finais do século XIX e não se sabe porque desapareceram.

Mas as ameaças perduram, caso do Onosma tricerosperma (na foto principal deste artigo), que em 2018 possuía um único núcleo populacional na zona de Beja, no Alentejo, com apenas 20 “indivíduos”, depois de um outro ter sido destruído com a instalação de um pomar. Porém, neste momento não se sabe se ainda existirão aqueles exemplares, uma vez que a equipa do projeto da lista vermelha não voltou ao local desde que ali se expandiu uma central solar de produção de energia.

20 anos de atraso

A avaliação da flora nacional estava há 20 anos por fazer. Agora espera–se que o diagnóstico que está a ser apresentado “sirva de ferramenta para ajudar a elaborar políticas de conservação e a definir o que vale a pena proteger ou reintroduzir”, diz André Carapeto.

O ICNF aguarda por este aprofundamento do conhecimento para avançar com medidas no terreno. “O caso da Linaria ricardoi é dos mais flagrantes”, admite fonte do ICNF, explicando que “terá de ser redefinido o sítio da Rede Natura que protege esta espécie chapéu, já que conservá-la permitirá também favorecer outras espécies da flora que existem nos olivais e nas searas tradicionais do Alentejo e que, devido à agricultura intensiva, estão a desaparecer a um ritmo acelerado”.

Entre as plantas avaliadas, 84 estão classificadas como “criticamente em perigo” e 14 como “potencialmente regionalmente extintas”, mas, explica André Carapeto, “ainda não decorreu tempo suficiente, ou o esforço de prospeção foi insuficiente para se poderem considerar de modo inequívoco extintas”. Entre estas encontram-se endemismos da Península Ibérica como a Avellara fistulosa.

Entre as que estão em situação crítica está o trevo-de-quatro-folhas, não o dos prados, mas o feto aquático Marsilea quadrifolia, cujo último indício perto da foz do rio Corgo, em Trás-os-Montes, data de 2006

Entre as que estão em situação crítica está o trevo-de-quatro-folhas, não o dos prados, mas o feto aquático Marsilea quadrifolia, cujo último indício perto da foz do rio Corgo, em Trás-os-Montes, data de 2006

Entre as que estão em situação crítica está o trevo-de-quatro-folhas, não o dos prados, mas o feto aquático Marsilea quadrifolia, cujo último indício perto da foz do rio Corgo, em Trás-os-Montes, data de 2006. Este trevo sofreu uma forte regressão ao longo do século XX e os esforços para o encontrar em 2008, 2013 e 2017 foram infrutíferos. Mas só poderá ser declarado extinto se não mais for visto até 2026.

Descobertas e redescobertas

Porém, não há só más notícias, já que também se redescobriram plantas que já se julgavam extintas, como a Viola hirta, um tipo de violeta que não se via desde a década de 90 do século XX e que foi reencontrada em Trás-os-Montes. E outras novas foram descobertas, entre as quais a Trigonella ovalis, encontrada num olival abandonado na zona de Ficalho, e a Prolongoa hispanica (pequeno malmequer de cor amarela), descoberta junto a uma mina de cobre no Alentejo.

O ponto de partida para esta lista vermelha foi a base de dados Flora-On.pt, a que se seguiu a recolha de informação histórica em herbários. O trabalho de campo sobre o estado das 630 espécies escolhidas para análise, entre as 3300 existentes no país, começou em 2016 e terminou em 2019. O projeto contou com um orçamento de cerca de €400 mil — comparticipado pelo Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR) e pelo Fundo Ambiental – e com um grupo de trabalho que incluiu dois técnicos a tempo inteiro e 13 a tempo parcial, que se valeram da colaboração voluntária de uma centena de botânicos amadores.

O diagnóstico era para ser apresentado publicamente em maio, seguido da publicação em livro, mas a pandemia de coronavírus adiou a sua apresentação para 13 de outubro. Na Europa, apenas Portugal, Macedónia e Montenegro não dispunham de listas vermelhas da flora, quando os outros já vão na sua segunda ou terceira revisão.

As 630 plantas avaliadas em Portugal são as consideradas mais importantes pelos especialistas, mas correspondem apenas a um quinto das 3300 espécies de plantas existentes no país.

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