Crise/Energia: Aumentos “brutais” podem acelerar abandono de vinhas no Douro

Crise/Energia: Aumentos “brutais” podem acelerar abandono de vinhas no Douro

A Associação dos Viticultores e da Agricultura Familiar Douriense (Avadouriense) disse hoje que o “aumento brutal” dos custos de produção, como os combustíveis, se traduz em “mais perda de rendimentos” e pode “acelerar o abandono” de vinhas.

“Estamos a assistir a um aumento brutal desde os combustíveis aos fertilizantes, a todos os produtos ligados ao setor. Os vitivinicultores estão com graves problemas porque tudo isto vai resultar numa diminuição do seu rendimento”, afirmou Vítor Herdeiro, da Avadouriense.

A associação tem sede em Vila Real e atua em defesa da agricultura familiar, de pequena e média dimensão da Região Demarcada do Douro.

O dirigente associativo afirmou à agência Lusa que plantar e tratar um hectare no Douro “custa quatro vezes mais do que em qualquer outra região do país”.

Vítor Herdeiro disse que a acrescentar a esta dificuldade natural está, agora, “a escalada do preço dos combustíveis, mas não só, também da eletricidade e dos produtos, como fertilizantes e fitofármacos”.

Os trabalhos na vinha, explicou, são feitos com recurso a tratores, quer para aplicação dos produtos, para lavrar os terrenos ou no transporte e, por isso, “gastam muito gasóleo”.

“A exploração já não dava rendimentos e com estes aumentos brutais menos rendimentos ainda dão”, frisou.

Vítor Herdeiro afirmou que tudo isto é “incomportável” e que os “viticultores já vendem os vinhos muito baratos”.

Os agricultores usufruem do gasóleo agrícola, mas, segundo o responsável, também este produto sofreu um aumentou do preço em “cerca de 50 a 60%” nos últimos anos.

“Estão a sentir grandes dificuldades e a continuar assim muitos vão desistir, nomeadamente os agricultores familiares ou de pequena e média dimensão. Se isto não dá uma volta grande vão desistir, vão ter que abandonar as explorações e isto vai trazer mais problemas, mais emigração, mais desertificação na Região Demarcada do Douro”, sublinhou.

Nas suas contas, em “cada 100 euros de rendimento bruto, 50% são para a cadeia distributiva, 30% são para a transformação dos produtos vitivinícolas, os restantes 20% ficam para os vitivinicultores”.

“Mas, desses 20 euros que ficam para os viticultores, 75% são para despesas e ficam apenas 25%. Neste momento já pagam para produzir”, acrescentou.

No entanto, segundo Vítor Herdeiro, para além do aumento dos custos, está também a verificar-se dificuldades no acesso a produtos disponíveis no mercado e exemplificou com as alfaias agrícolas e tratores.

“Na região de Trás-os-Montes e Alto Douro foram aprovados 1.100 projetos para renovação da frota de tratores agrícola, no âmbito de um programa de apoio que atribui 70% a fundo perdido, e, neste momento, os vitivinicultores estão à procura dos tratores para adquirir e não encontram”, frisou.

O responsável alertou para “o risco” de os agricultores “não conseguirem preencher os projetos” precisamente pela dificuldade em encontrar novos tratores e, por isso, pediu ao Governo um prolongamento do prazo dado de seis meses para a renovação da frota e entrega dos veículos antigos para abate.

A Avadouriense reclama “uma ajuda concreta” por parte do Governo, como uma redução dos impostos que se reflita no custo dos fatores de produção.

A organização filiada da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) reivindica também uma medida especifica, no âmbito do próximo quadro comunitário de apoio, que “ajude a manter as explorações e as pessoas ligadas à terra”.

“É um desalento. Estou muito preocupado enquanto vitivinicultor, dirigente associativo e técnico agrícola. Todo o setor está a ser muito afetado”, frisou Vítor Herdeiro.

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