Cortiça: Exportações acima dos mil milhões de euros

Cortiça: Exportações acima dos mil milhões de euros

O valor das exportações portuguesas de cortiça tem registado um crescimento exponencial nos últimos anos. Segundo dados do Ministério da Economia, em 2018 foi ultrapassada a “barreira” dos mil milhões de euros. E os primeiros oito meses de 2019 mantêm-se em linha com o ano anterior. O Alentejo concentra 84 por cento do montado de sobro mas a matéria-prima retirada da região é transformada no norte do País.

Texto Luís Godinho

Diretor-geral da Associação Portuguesa da Cortiça (Apcor), Joaquim Leal não hesita em explicar o crescimento exponencial das exportações de cortiça com o investimento de mais de 700 milhões de euros feito nas últimas décadas pelas empresas do setor. Investimento em inovação e tecnologia, em novas fábricas e em novas competências. “O processo de modernização setorial tem sido um facto bem visível no parque tecnológico e nos processos de trabalho e o mérito é das empresas que há muito se têm concentrado nos princípios da indústria 4.0 e da economia circular. A sustentabilidade ambiental, económica e social é uma realidade e por isso olhamos para o futuro com ambição e confiança”.

Autor de uma análise sobre importações e exportações no setor da cortiça, Walter Marques, do Gabinete de Estratégia e Estudos (GEE) do Ministério da Economia, explica com números a “confiança” sublinhada por Joaquim Leal: entre 2014 e 2018, a balança comercial dos produtos de cortiça foi marcada por um saldos anuais sucessivamente crescentes, passando de 706,8 milhões de euros positivos em 2014 para 834,9 milhões positivos em 2018. Dito de outra forma, em 2018 Portugal efetuou importações de cortiça no valor de 219,9 milhões de euros e exportou 1063,8 milhões de euros, um feito histórico pois, pela primeira vez, o volume de exportações ficou acima dos mil milhões de euros.

“Este dado, além de ser um sinal do trabalho levado a cabo pelas empresas, é, também, o reconhecimento dos mercados e dos consumidores, que cada vez mais estão atentos e exigentes, veem na cortiça este paradigma de futuro e escolhem um produto que traduz o que desejam para si e para o planeta”, refere Joaquim Leal, acrescentando que o objetivo é atingir os 1,3 mil milhões dentro de cinco anos, o que obrigará a um crescimento anual na ordem dos 4,5 por cento.

Apesar das contas de 2019 ainda não estarem encerradas, manteve-se a tendência de “consolidação e afirmação do setor”, ainda que o crescimento tenha abrandado. Entre janeiro e agosto as exportações chegaram a cerca de 724 milhões de euros, um decréscimo de 0,1 por cento comparativamente com o ano anterior. “Enquanto líderes, temos apostado na inovação, investigação e desenvolvimento, para conseguir acompanhar o interesse e curiosidade de toda a comunidade científico-tecnológica a nível mundial. O potencial da cortiça ultrapassa todas as fronteiras, tornando a nossa missão crucial para as suas infindáveis aplicações”, sublinha o mesmo responsável.


Estrutura representativa da fileira da cortiça, a Filcork integra, entre outras, a Associação de Produtores Florestais do Vale do Sado, e prevê que a campanha de extração de cortiça em 2019 tenha fechado nos 6,2 milhões de arrobas (quatro milhões dos quais em Portugal, sobretudo, no Alentejo), o que representa cerca de 93 mil toneladas e significa um aumento de 13 por cento em relação a 2018. “A campanha concretizou as expectativas do setor em termos de quantidades de cortiça produzida, permitindo assegurar as necessidades da indústria, face à procura do mercado e aos stocks existentes”, diz fonte da Filcork, assinalando que ao nível dos preços se registou uma redução na ordem dos 12 por cento face ao ano anterior. A perspetiva é que em 2020 a produção possa crescer cerca de 30 por cento.

Portugal é não só o maior exportador mundial de cortiça, como 34 por cento da área mundial de montado de sobro se localiza no País, sendo que 84 por cento dos sobreiros se encontram no Alentejo. A região produz grande parte da matéria-prima que depois é transformada na região de Entre Douro e Vouga, onde se localizam 80 por cento das empresas.
Os mais de mil milhões de euros exportados anualmente fazem com que Portugal represente aproximadamente dois terços do comércio mundial de cortiça, sendo que as rolhas são o principal produto exportado (representam 70 por cento do total). “Estamos perante uma matéria-prima com propriedades únicas, que agrega cultura, sustentabilidade e performance técnica”, lembra o diretor-geral da Apcor, assinalando que além de presente em garrafas de vinho e bebidas espirituosas, a cortiça está presente nos setores da construção sustentável, indústria aeronáutica e aeroespacial, transportes, moda e desporto, entre outros. “As suas aplicações não param de nos surpreender”.

A França continua a ser o principal comprador (18 por cento), seguida dos Estados Unidos, Espanha e Itália. O mercado chinês registou um crescimento de 17 por cento entre 2017 e 2018, tendência invertida nos primeiros oito meses de 2019.

“PRECISAMOS DE AUMENTAR A ÁREA DO SOBREIRO”

Já nos anos 50 do século XX, Joaquim Vieira da Natividade, o primeiro estudioso do sobreiro, identificava nas “pragas, doenças e má técnica, a trilogia fatal dos montados”. E acrescentava um fator que naquele tempo teria uma importância relativa: “Omitimos o clima, porquanto este atua em geral apenas como uma causa remota”. Na atualidade, o clima é já uma causa real. Os resultados provisórios do sexto Inventário Florestal Nacional, a que o “Diário do Alentejo” teve acesso, apontam para uma redução de 10 mil hectares de montado de sobro em apenas 14 anos. As alterações climáticas, e as doenças e pragas potenciadas por elas, aliadas a más práticas agrícolas são causas que explicam o declínio do sobreiro. A que se pode somar ainda a inexistência de uma política “muscular” de apoio ao rejuvenescimento e ampliação do montado.

“Temos trabalhado arduamente com todos os agentes da fileira para que, em conjunto, se encontrem as melhores soluções para a manutenção e incremento desta espécie”, diz o diretor-geral da Apcor, Joaquim Lima, defendendo a importância de novas plantações: “Precisamos de aumentar a área do sobreiro e expandi-lo pelo território português. Existe potencial de crescimento por duas vias, apostando em nova plantações e em novas geografias e, por outro lado, nas atuais áreas de montado apostar no adensamento de árvores por hectare”.

O artigo foi publicado originalmente em Diário do Alentejo.

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