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Como a indústria continua a exportar para a Europa carne ligada à desflorestação da Amazónia

por Expresso
02-06-2023 | 13:02
em Últimas, Internacional, Notícias mercados
Tempo De Leitura: 6 mins
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A procura mundial de carne tem contribuído para a destruição da Amazónia. Nos últimos seis anos, o equivalente a 800 milhões de árvores foram cortadas perto de matadouros daquela região, de acordo com novos números revelados pelo consórcio de jornalismo de investigação liderado pelo Forbidden Stories. Um ano após a morte do jornalista Dom Phillips, as multinacionais brasileiras investigadas por ele continuam a vender para a Europa carne de vaca produzida em áreas ameaçadas da floresta

“É a última gota”, escreveu o jornalista Dom Phillips no Twitter, no final de 2021, quando foi publicada uma nova investigação sobre as três maiores multinacionais da pecuária brasileira, JBS, Marfrig e Menerva, e as suas ligações com o desmatamento. Nomes desconhecidos pela grande parte dos consumidores europeus, mas cuja importância é comprovada pelo alcance dos seus produtos no mercado da alimentação. As três empresas são responsáveis por cerca de 70% das exportações de carne de vaca brasileira.

Juntamente com empresas como Danone e Heineken, a JBS é um dos 15 gigantes mundiais da indústria alimentar, segundo o ranking anual da Forbes. Em 2022, a empresa afirmou ter abatido aproximadamente 75 mil bovinos por dia, destinados a clientes espalhados por mais de 190 países. Apesar de só possuírem metade da capacidade da JBS, a Marfrig e a Minerva têm também um grande peso no setor. Ambas produzem essencialmente carne de vaca.

A criação de carne de vaca é, de longe, a principal responsável pelo desmatamento da Amazónia.

A floresta tropical, de dimensões tão extensas quanto as da Europa, abriga mais de um décimo da biodiversidade mundial, e atua como um “sequestro de carbono”. Por outras palavras, absorve mais CO2 do que emite, o que lhe confere um papel crucial na limitação dos gases com efeito estufa e no combate às alterações climáticas, que assombram o futuro do planeta.

O assunto tornou-se recorrente nos artigos de Dom Phillips. O correspondente do jornal The Guardian, que fez do Brasil a sua casa em 2007, dedicou os seus últimos trabalhos à indústria da carne no Brasil, antes de ser brutalmente assassinado em junho de 2022 junto com o indigenista Bruno Pereira, enquanto trabalhava num livro sobre como salvar a Amazónia.

Embora a multinacional JBS se tenha comprometido a reduzir a zero as suas emissões de gases com efeito de estufa até 2040, Dom realçou, na sua última colaboração com o The Guardian, que a meta poderia ser alcançada se “a JBS parasse as suas parcerias com fornecedores que contribuem para o desmatamento na Amazónia”. Numa reportagem anterior, o jornalista também exprimiu a sua preocupação face ao aumento da procura de carne de vaca por parte da China “às custas da floresta amazónica”.

Para esta parte do Projeto Bruno e Dom, que dá continuidade ao trabalho do jornalista, revelamos como, para satisfazer a procura internacional, proveniente principalmente da China, mas também da Europa, as três multinacionais brasileiras da carne investigadas por Dom Phillips continuam a comercializar com fazendas responsáveis pelo desmatamento da Amazónia.

“BRANQUEAMENTO” DE GADO

Como qualquer indústria, as empresas pecuárias necessitam de matérias-primas, neste caso: o gado, procurado em fazendas próximas de matadouros. Hoje, as empresas JBS, Marfrig e Minerva têm a obrigação de garantir que os seus fornecedores diretos não estão envolvidos no desmatamento ilegal. No entanto, antes de chegar ao matadouro, um animal passa normalmente por pelo menos duas ou três propriedades. “As fazendas que alimentam, criam, engordam e enviam animais para abate estão se tornando cada vez mais raras”, afirma Tiago Reis, investigador do Trase, um projeto da organização não-governamental Global Canopy e do Stockholm Environment Institute, que procura trazer mais transparência para as cadeias de abastecimento ligadas ao aquecimento global.

Por ganância, alguns fazendeiros aproveitam-se da estrutura do mercado e da falta de fiscalização para esconder a verdadeira origem do seu gado. Resumindo, estes fazendeiros “branqueiam” o seu gado, deslocando os animais de uma fazenda “suja” – ou seja, ligada à destruição florestal – para uma fazenda “limpa” – sem desmatamento – antes do animal ser abatido. Em 2020, Dom Phillips, num trabalho para o jornal The Guardian, em parceria com a Repórter Brasil e o Bureau of Investigative Journalism (TBIJ), expôs um exemplo concreto dessa prática e revelou uma cumplicidade entre a multinacional JBS e um pecuarista sancionado por desmatamento ilegal.

Em parceria com os jornais que publicaram a investigação, assim como o diário holandês NRC e a agência de investigação alemã Paper Trail Media (PTM), o Forbidden Stories revela que o pecuarista implicado na investigação de Dom Phillips, Ronaldo Rodrigues da Cunha, não parou com essas atividades ilegais. Pelo contrário, para revender a sua carne, Rodrigues da Cunha encontrou um novo cliente: a Marfrig, uma das três multinacionais que Dom Phillips investigava.

UM NEGÓCIO DE FAMÍLIA

“Na nossa família, a gente já nasce com um pé na terra e o olho no gado”, explica Ronaldo, enquanto fala para um programa do Canal Rural dedicado à promoção da pecuária brasileira. No ecrã, um gado extenso e a Amazónia, até onde os olhos podem ver.

A história dos Rodrigues da Cunha, pecuaristas há quatro gerações, é também, de certa forma, a história da relação entre os brasileiros e a floresta amazónica. Ronaldo tinha vinte e poucos anos quando viajou para se juntar ao pai, que na época tinha comprado uma fazenda em Mato Grosso. Era a década de 1970, durante a ditadura militar, uma época em que a Amazónia ainda era vista como um território a ser conquistado.

O terreno foi comprado muito barato. A floresta estava destinada a ser o futuro “celeiro do mundo, se conseguirmos disciplinar o meio ambiente”, como explica, num dos seus livros, o geógrafo François-Michel Le Tourneau, especialista da Amazónia brasileira no CNRS – Centro Nacional de Investigação Científica francês. Ronaldo Rodrigues da Cunha chegou a ser agraciado em 2016 como cidadão honorário do Mato Grosso, pelo facto de ele e a sua família terem “acreditado na região”.

Esta é a saga dos Rodrigues da Cunha, segundo constava no site da família, agora indisponível. Desde então, Ronaldo Rodrigues da Cunha fez um longo percurso e queimou algumas terras pelo caminho.

É hoje considerado um dos maiores pecuaristas do país, embora não seja conhecido apenas por isso. Em 2012, foi investigado pelo Ibama, a agência de regulamentação ambiental do país, e multado em quase 2,2 milhões de reais (cerca de 900 mil euros) por desmatamento ilegal na sua fazenda Estrela do Aripuanã, no noroeste de Mato Grosso. No processo, o Ibama colocou parte da fazenda — o equivalente a dois mil campos de futebol — sob embargo, ou seja, desativação forçada. A criação de gado estaria, portanto, proibida.

“OS PRODUTORES ENCONTRAM SEMPRE UMA SOLUÇÃO”

Onze anos depois, a vegetação pouco ou nada voltou a crescer e as atividades no terreno não pararam. Imagens de satélite mostram a presença de animais na área […]

Continue a ler este artigo no Expresso.

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