Ponto de encontro local, o cedro de Runa é uma árvore com uma forma pouco comum. A parte central deste cedro-do-Buçaco eleva-se a cerca de 10 metros, mas a maioria dos seus ramos estende-se na horizontal, criando um enorme caramanchão suspenso a poucos metros do chão.
Visto de cima, lembra um enorme chapéu e a sombra que projeta atrai quem passa, especialmente nos dias quentes de verão. Sob a sua copa, que se encontra suportada por uma estrutura metálica, vários bancos e mesas convidam a uma paragem.
Este cedro terá sido plantado no início da década de 1950 por um habitante local e as estacas que lhe deram origem podem ter sido trazidas de um outro cedro-do-Buçaco igualmente monumental: o do Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, que foi o primeiro em Portugal classificado como “Árvore de Interesse Público”, em 1940.
Curioso é que estes dois cedros formam amplos caramanchões, em vez de se erguerem em direção ao céu. Com uma copa de forma piramidal, as árvores da espécie cedro-do-Buçaco (Cupressus lusitanica) crescem habitualmente em altura, podendo elevar-se acima dos 20 e até dos 30 metros.
Embora com a idade algumas copas tendam a aplanar-se, não é isto que explica as configurações dos cedros de Runa e do Príncipe Real. O que lhes deu forma foi o modo como foram podados: para formarem este teto raso e espesso era relativamente habitual “cortar a flecha da árvore ainda jovem”, o que estimula um maior desenvolvimento dos ramos laterais.
As fotos do Cedro de Runa foram tiradas pela Junta de Freguesia de Runa, que candidatou este exemplar ao Concurso Árvore do Ano 2026, uma iniciativa que a UNAC – União da Floresta Mediterrânea promove em Portugal desde 2018.
Contudo, a maioria das árvores desta espécie é esguia e alta.
Praticamente ao lado do cedro eleito como Árvore do Ano em 2026, existe outro que se eleva aos 20 metros. Em Sintra, no Parque da Pena, está um dos mais altos em Portugal, com cerca de 40 metros de altura. Outros gigantes desta espécie podem ser vistos na Quinta Magnólia, no Funchal, onde existe um com 29,5 metros, e na Mata Nacional do Bussaco, onde vários exemplares se erguem a diferentes alturas – os mais altos têm entre 26 e 36 metros.
Que espécie é esta: cedro-do-Buçaco, cipreste-mexicano ou cedro-de-Goa?
A espécie Cupressus lusitanica é hoje comum em Portugal, principalmente no litoral centro, onde encontrou condições favoráveis para se desenvolver, mas ela não é, na realidade, um cedro e não é nativa do Buçaco, nem sequer da Europa. Trata-se de um cipreste – uma espécie exótica – que se naturalizou no nosso país e que, por aqui estar presente há muitos séculos, acabámos por considerar como nossa.
O Cupressus lusitanica é nativo das regiões montanhosas da América Central e desenvolve-se melhor em zonas de clima subtropical, onde as temperaturas são suaves no inverno e há bastante humidade no resto do ano.
Natural de países como México (há quem lhe chame cipreste-mexicano), Guatemala, El Salvador e Honduras, é comum em zonas altas, entre os 1200 e os 3000 metros, com precipitação média de 2000 a 3000 milímetros anuais. Estes valores são bastante mais elevados do que em Portugal continental, em que o valor normal nas últimas décadas ronda os 850 milímetros anuais de chuva.
Ainda assim, a espécie tolera menos humidade e as regiões onde melhor cresce no nosso país – principalmente zonas de clima temperado de influência atlântica – caracterizam-se por serem mais chuvosas do que a média. No Buçaco, onde existem muitos exemplares, a precipitação média anual ultrapassa os 1500 milímetros.
A culpa dos equívocos que envolvem a designação do Cupressus lusitanica deve-se à caracterização inicial da espécie, que foi feita pelo botânico francês Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708) durante uma viagem a Espanha e Portugal, iniciada em 1689.
No Buçaco, Tournefort viu os primeiros exemplares destas árvores, que desconhecia. Pensando que eram nativas, nomeou a espécie “Cupressus lusitanica patula, fructu minore” (lusitanica em referência ao nosso território, então conhecido como Lusitânia). Mais tarde, em 1768, o botânico inglês Philip Miller (1691 – 1771) renomeou-a segundo o sistema binomial de Carl Lineu, como Cupressus lusitanica.
A designação Cupressus lusitanica acabou por ser usada na Europa e no Brasil, embora a certa altura se tenha pensado que a espécie teria sido trazida da antiga Índia portuguesa. Por esta razão, também ganhou o nome comum de cedro-de-Goa. Só mais tarde se compreendeu que a sua verdadeira origem era a América Central.
Cedro-do-Buçaco, cipreste-mexicano ou cedro-de-Goa são três dos nomes comuns dados à espécie Cupressus lusitanica, um cipreste nativo da América Central que foi erradamente identificado como um cedro português.
O pioneiro e resistente “cedro de São José”
As árvores que Joseph Pitton de Tournefort observou teriam sido trazidas das Américas e introduzidas várias décadas antes.
Em 1625, a Ordem dos Carmelitas Descalços veio para a Serra do Buçaco para construir o seu convento e transformou também a zona envolvente numa mata verdejante. Durante décadas, os monges plantaram muitas dezenas de espécies de arbustos e árvores, quer nativas, quer exóticas.
Uma das primeiras exóticas que esta Ordem plantou, por volta de 1644, foi o “cedro de São José”. Terá sido dos primeiros exemplares da espécie Cupressus lusitanica em Portugal.
Apesar de terem passado quase quatro séculos, este cedro-do-Buçaco continua de pé. Com 32,9 metros de altura e quase 5,5 metros de perímetro de tronco, este gigante tem conseguido resistir, apesar de várias adversidades da meteorologia, incluindo um ciclone que lhe danificou a estrutura em 2013.
Recorde-se que o cedro-do-Buçaco é um dos ex-libris do arboreto da Mata Nacional do Bussaco, onde existe uma dezena de exemplares de grande dimensão e longevidade para descobrir, juntamente com outras enormes e notáveis sequoias, araucárias e eucaliptos.
O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.


















































