Alho – Cânfora dos pobres – Bruno Estêvão

Alho – Cânfora dos pobres – Bruno Estêvão

As origens do alho remontam a cerca de 6.000 anos. Há imprecisão e controvérsia na definição da sua origem, que pode ter sido a Europa mediterrânea ou o continente asiático. A maioria dos estudos indica a Ásia como local de origem do alho. Julga-se que tenha surgido no deserto da Sibéria, e que tenha sido levado para o Egipto por tribos asiáticas nómadas. Do Egipto supõe-se que tenha seguido para o extremo oriente através das rotas de comércio com a Índia, e depois tenha chegado à Europa.

Para todas as culturas, seja a indiana, a egípcia, a grega, a hebraica, a russa ou a chinesa, o alho era um elemento quase tão importante quanto o sal. O que ditou a diferença de importância foi a rejeição pelas classes mais altas, em razão do odor da planta. Nos cultos de alguns deuses gregos era proibida a entrada de pessoas cheirando a alho. Mais tarde, continuaria rejeitado pela aristocracia e, em alguns casos, pelo clero, o que fazia deste vegetal um indicador de classe social. Era entusiasticamente apreciado como alimento e medicamento pelas massas, o que fez com que o escritor francês Raspail o apelidasse de “cânfora dos pobres”.

O odor característico do alho deve-se à presença da alicina (óleo volátil sulfuroso). Quando as células do alho são quebradas, liberta-se uma enzima chamada aliniase que modifica quimicamente a substância alinia em alicina, que resulta no cheiro do alho.

O alho, Allium sativum, da família Liliaceae (a mesma da cebola e do cebolinho), é uma planta assexuada que se propaga através da plantação dos dentes.

Na caracterização de cultivares a coloração das túnicas e da película não é um critério seguro, se usado isoladamente, é que tais características variam principalmente conforme o solo.  Assim sendo, a designação popular de “alho roxo” e “alho branco” não tem muito significado, apesar de ser a mais utilizada.

A época de plantação difere consoante o tipo/variedade de alho e estende-se de Setembro a Janeiro.

A semente é geralmente adquirida em cabeças, e por isso antes da plantação tem de se proceder ao desgrane. O principal motivo da comercialização da semente ser em cabeça é a falta de conservação dos dentes. A semente adquirida em dentes tem muito pouca conservação (geralmente é semeada no dia a seguir a ser desgranada). Na plantação os dentes do bolbo devem ficar a uma profundidade ente os 4 e 5 cm, com a extremidade do bico voltada para cima. São plantados em linhas, distantes entre si 30 a 50 cm.

Utiliza-se geralmente entre 1100 e 1500 kg dentes/ha, consoante a variedade e calibre que se pretenda.

Quanto ao tipo de solo, a planta do alho prefere solos leves, finos, ricos em matéria orgânica (entre 2 a 4%) e bem drenados, com pH entre 6 e 7.

No que respeita às condições climáticas, o alho é uma cultura de clima frio, suportando bem baixas temperaturas, sendo, inclusive, algo resistente a geadas.

Considera-se para a cultura do alho extracção em ordem decrescente dos seguintes nutrientes: N, K, S, Ca, P e Mg. Apesar de o fósforo ser pouco extraído, a sua aplicação aumenta a produtividade e tamanho do bolbo.

É muito sensível ao stress hídrico, principalmente na etapa de crescimento vegetativo, sendo a rega por aspersão a mais comum, necessitando entre 3000 e 4000 m3 de água, dependendo das condições edafoclimáticas.

As doenças mais comuns são a ferrugem (Puccinia porri) e o míldio (Peronospora destructor).

A época de colheita vai desde Maio a Julho, quando os caules e as folhas começarem a secar (senescência). As cabeças podem ser arrancadas de forma manual, mecânica ou parcialmente mecânica.

A colheita deve ser efectuada na época própria de cada variedade, devido à influência que pode exercer na qualidade e poder de conservação dos produtos de colheita.

Trata-se de, mais uma cultura, em que a dependência do exterior é enorme. A importação de alho é de quase 90% o que significa que, tendo Portugal condições edafoclimáticas para a sua produção, existe uma grande margem de crescimento. Tem de se superar a questão da mão-de-obra, sempre necessária, para podermos ter, sem sombras de dúvidas, alho de origem portuguesa disponível para o consumidor, realmente produzido em Portugal.

Bruno Estêvão

Coordenador Técnico Hortoindustriais

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