A associação +Pinhal quer “um trabalho mais profundo e soluções mais alargadas” para defender a costa do município de Ovar, questionando a destruição de uma “defesa já pronta”, o pinhal dunar, em prol de soluções menos naturais.
Em entrevista à Lusa após a publicação do relatório da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) quanto aos efeitos das tempestades do início do ano no litoral de Portugal continental, bem como das medidas para mitigar esses impactos, Filipe Cayolla, da associação criada há um ano, critica a falta de visão do documento.
“Se o relatório é única e exclusivamente para responder às questões que aconteceram durante este inverno, aquilo é o que é. (…) Devia haver, mesmo em relação ao que aconteceu, um trabalho mais profundo e soluções mais alargadas. Não é remediando e pondo um bocadinho de fita-cola aqui e outro bocadinho acolá que se vai resolver o problema”, critica.
A médica e bióloga Margarida Coelho aponta a razão pela qual foi fundada a associação, o pinhal dunar, e critica a forma como “as práticas de gestão florestal que estão a ser aplicadas são em tudo contrárias ao que seriam boas práticas nestes sistemas de proteção”, em posições “um bocadinho incongruentes”.
“Por um lado, se calhar preveem-se milhões para proteger a costa, com meios, se calhar, discutíveis, e por outro temos ali uma defesa já pronta, e estamos a destrui-la ao mesmo tempo, e parece que está tudo bem”, lamenta.
Salientando que a +Pinhal fica “satisfeita” por ver que também a Câmara de Ovar se tem mostrado preocupada com o aterro sanitário a 500 metros do mar, na praia de Maceda, Cayolla afirma ainda assim que este “nem sequer tem vedação à volta”, com um poço a céu aberto e outros problemas, sem monitorização.
“Parece-me que alguém começa a dizer e a assumir que aquilo é um problema grave que pode ser gravíssimo, a nível ambiental e de saúde pública”, aponta.
Em 19 de março, o presidente da Câmara de Ovar, o social-democrata Domingos Silva, alertou para a possibilidade de se deixar um “passivo ambiental” às gerações futuras na eventualidade de o mar chegar ao aterro, selado nos anos 1990.
“Não tem havido nenhuma ação concreta relativamente à proteção do aterro. Eu estou a exigir, no bom sentido, essa proteção, neste momento. A alertar para a situação em que, de facto, podemos estar. Não é amanhã que o mar vai lá entrar, mas pode ser daqui por 50 ou 60 anos. E temos a obrigação, hoje, de evitar que isso venha a acontecer no futuro, porque, se não, é uma herança e um passivo ambiental muito, muito forte que deixamos às gerações futuras”, disse então.
A praia de Maceda está inserida numa lista de medidas a levar a cabo até ao início da época balnear, elencadas no relatório, mas também a situação do Furadouro inspira cuidados, tendo o presidente da APA, José Pimenta Machado, considerado Ovar o município “mais afetado” pelas intempéries recentes.
As intervenções mais urgentes custarão valores a rondar os 350 mil euros, entre passadiços, a reposição de areias em cinco praias, acessos ao parque de estacionamento na Maceda, apoios de praia, reconstrução de acessos, e outros equipamentos, entre eles o muro de proteção no Furadouro.
Na leitura da associação, ao fim de um ano de trabalho da +Pinhal, as autoridades locais “começam a perceber e a respeitar” o que têm dito, que “a gestão florestal a ser implementada nesta zona só está a contribuir para a degradação e desaparecimento da floresta”, onde, “além da questão ambiental”, há também património histórico a preservar.
O pinhal foi plantado na zona, lembram, como barreira dos ventos e do clima, mas também porque era improdutiva e que causava “doenças, por causa dos mosquitos”, servindo a plantação para controlar o ecossistema e defender as populações.
Esta floresta motivou já uma carta enviada pela associação ao diretor do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), há dois meses, e sem resposta vão “enviar uma queixa à União Europeia relativamente à destruição dos habitats”, alerta Margarida Coelho.
Em 11 de abril do ano passado, a porta-voz do PAN, e deputada daquele partido, Inês Sousa Real, defendeu que o Governo não estava a cumprir a recomendação da Assembleia da República para evitar cortes rasos no perímetro florestal do concelho.

















































