Associação das vítimas de Pedrógão critica programa do Governo para o interior: “Atrai-se as pessoas e depois elas vivem de quê?”

Associação das vítimas de Pedrógão critica programa do Governo para o interior: “Atrai-se as pessoas e depois elas vivem de quê?”

A presidente da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande (AVIPG) está muito cética em relação à linha de financiamento que o Governo vai criar para apoiar quem quiser ir viver para o interior do País. Em declarações à VISÃO a propósito do programa “Trabalhar no Interior”, apresentado pela ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, na segunda-feira, em Bragança, Dina Duarte questiona: “Atrai-se as pessoas com aquele dinheiro, com quatro mil e tal euros, e depois elas vivem de quê?”

Na base da interrogação da recém-eleita líder da AVIPG está a intenção do Executivo chefiado por António Costa de incluir nesse pacote de incentivos a medida “Emprego Interior Mais”, que poderá disponibilizar um montante inicial até 4827 euros aos trabalhadores que se mudem para o interior.

Sem desconsiderar as restantes ideias que constam do programa e vincando que “as pessoas são bem-vindas”, a sucessora de Nádia Piazza sublinha que ninguém mudará de vida apenas com base “num aceno de uma quimera”. Isto porque, enfatiza, são “necessárias condições”, essencialmente “bens e serviços”, para que o projeto não seja apenas uma intenção.

“Se não houver emprego, ninguém se aguenta muito tempo no interior. Ou se vem por amor ou não se consegue ficar. Não pode ser amor e uma cabana”, observa, recordando que na grande maioria dos concelhos que foram vítimas do êxodo rural a maior fatia das ofertas de trabalho está nos setores agrícola e florestal. “Alguém vem para o interior para ganhar o salário mínimo, que é o que se costuma pagar nessas áreas?”, pergunta.

“Quando a senhora ministra diz que deve haver formação na área digital, eu entendo a posição como válida. Mas se isso não tiver como consequência que as pessoas possam pôr em prática esses conhecimentos de que lhes vale a formação?”, prossegue, lembrando que nos municípios mais afetados pelos fogos de 2017 existe um rol imenso de problemas por solucionar.

“Temos um boom de pessoas no verão, mas não temos médicos suficientes. Continuamos com problemas nas comunicações desde os incêndios. Estou a falar consigo desde a aldeia de Bolo, em Castanheira de Pera, na rua, debaixo de uma nogueira, para conseguir ter rede”, ilustra Dina Duarte, falando em nome das populações dos três municípios (Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos) mais castigados pelos incêndios que deflagraram de 17 de junho de 2017, que vitimaram 66 pessoas e feriram outras 254.

A exceção à falta de atratividade dos territórios de baixa densidade, nota, ainda assim, está na “dignidade” dos transportes escolares que as autarquias disponibilizam. Além, aponta, “das atividades de tempos livres”, “tudo a custo zero”. “Essas são as grandes mais-valias para os pais que queiram uma vida mais saudável num ambiente calmo e seguro”, sustenta.

Para futuro, Dina Duarte deixa duas recomendações. “Sendo positivo que queira atrair pessoas para o interior, tem, antes, de garantir que consegue fixar as que cá estão. Voltámos a ter imensos emigrantes”, alerta em primeiro lugar. E logo remata com outro repto: “O que o Governo terá prever e acautelar é que quando os níveis das águas subirem as pessoas vão ter de voltar para o interior e para as terras altas. Vamos ter de nos preparar.”

O artigo foi publicado originalmente em Visão.

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