As práticas Agrícolas em épocas de elevado risco de Incêndios Florestais – João Sousa

As práticas Agrícolas em épocas de elevado risco de Incêndios Florestais – João Sousa

É do conhecimento geral que em Portugal, ao longo de várias décadas, nos meses de maior calor há uma grande ocorrência de incêndios florestais. Apesar de todos os riscos associados (quer a nível ambiental quer para as populações) várias atividades profissionais continuam, de forma mais ou menos ativa, os seus trabalhos.

Sendo 2020 já considerado um dos anos mais quentes e secos de sempre, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) o mês de Julho em Portugal foi o mais quente desde 1931 (ano em que se iniciaram este tipo de registos). Como consequência das altas temperaturas registadas, Portugal esteve em estado de alerta durante alguns dias do mês transato o que levou à proibição de algumas atividades, entre as quais as agrícolas.

A polémica instalou-se e vários argumentos estão a ser debatidos. Mas afinal devem ou não as atividades agrícolas serem consideradas de risco e evitáveis durante tempos de elevado risco de incêndios florestais?

De um lado há o argumento em que a defesa das populações será sempre superior à prática de qualquer atividade (seja esta agrícola ou não) e que é preciso fazer todos os possíveis para travar ao máximo a proliferação dos incêndios florestais nas épocas de risco mais elevado, permitindo assim salvar património ambiental, bens materiais e sobretudo vidas.

O que podemos retirar daqui? Sem dúvida que o bem mais precioso que há é a vida; como é óbvio deve-se proteger ao máximo a vida de cada de cidadão e oferecer condições para a salvaguardar a saúde e os bens pessoais de cada um assim como preservar a nossa herança ambiental.

Do outro lado temos a argumentação de quem defende que a Agricultura é o sustento de milhares de Portugueses e que as consequências económicas e alimentares (com a danificação ou até perda das culturas) resultantes das proibições destas práticas será mais devastadora para as populações, até porque os incêndios florestais com origem em práticas agrícolas são de percentagem bastante reduzida.

Que análise fazer destes argumentos? É reconhecido que a Agricultura gera uma grande receita económica no nosso País, sustentado milhares de famílias, para além de fornecer produtos de boa qualidade nutricional que fortalecem a saúde das pessoas. Também é verdade que é escasso o número de incêndios florestais que se originam em consequência de atividades agrícolas.

Assim, após a averiguação (ainda que muito superficial) dos argumentos das duas vertentes, quem têm razão? Ou o que se deve fazer?

Nenhuma decisão boa, ponderada e que procure satisfazer ao máximo as várias necessidades das populações foi tomada só com base numa “vertente de pensamento”; as boas decisões são as que englobam as melhores ideias dos dois lados e as combinam ao ponto de chegarem ao melhor resultado possível.

Sendo assim:

  • A grande prioridade deverá ser sempre salvar vidas e proteger os bens dos cidadãos, garantido a sua segurança com medidas ambientais, económicas e sociais que operem durante o ano inteiro e não só no decorrer da época de incêndios.
  • Apesar da pouca probabilidade de o manuseamento de máquinas agrícolas poder originar incêndios é preciso existir um controlo rígido destas situações, havendo medidas para reduzir estas ocorrências como, por exemplo, uma diminuição das atividades às horas de maior calor ou até ações de formação e sessões de esclarecimento mais frequentes para quem utiliza estas máquinas.
  • Apesar da prevenção ser uma das chaves do sucesso, a Agricultura como já foi falado é de importância vital para a economia do nosso País. Serve de sustento económico a milhares de famílias e de sustento alimentar a milhões de pessoas, sendo esta uma atividade de suma importância, não podendo ser de todo descartada. Logo, as medidas de prevenção de incêndios florestais deverão ser sempre adequadas e contextualizadas e ter em conta o prejuízo avultado (tanto económico como alimentar) se as atividades agrícolas tiverem de cessar nestes períodos e consequentemente milhares de colheitas ficarem danificadas.
  • Começar a preparar as grandes questões do futuro a curto prazo com uma visão mais alargada e enérgica. No cenário de alterações climáticas que vivemos e com Portugal a ter tendência, cada vez mais, para o seu território se tornar mais seco e existirem mais ondas de calor, os estados de alerta máximo de incêndios florestais vão cada vez ser mais frequentes assim como mais prolongados. O que fazer nestas situações? As atividades agrícolas não poderão parar dias ou semanas, senão todas as colheitas ficarão totalmente comprometidas e os efeitos serão desastrosos para a sociedade.

 

É assim necessário haver uma simbiose entre as medidas tomadas para que a prevenção ande de “mão dada” com os novos desafios que temos anualmente.

A evolução só ocorre quando todas as perspetivas são estudadas e incluídas.

João Sousa

Mestre em Ecologia

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