“As desgraças aqui nunca vêm sós”. Depois do furacão Lorenzo, agricultores temem efeitos do coronavírus nos Açores

“As desgraças aqui nunca vêm sós”. Depois do furacão Lorenzo, agricultores temem efeitos do coronavírus nos Açores

Seis meses depois da passagem do furacão Lorenzo, os agricultores da ilha das Flores esperavam recuperar com a chegada da primavera, mas temem agora os impactos do novo coronavírus no preço da carne.

“Preveem-se tempos muito difíceis para os agricultores”, considera, em declarações à agência Lusa, o presidente da Associação Agrícola da Ilha das Flores, Valter Câmara.

“Ao fim de seis meses da passagem do furacão, quando poderiam as coisas começar a entrar na sua mínima normalidade – temos um barco que encosta já quinzenalmente nas Flores e transporta as mercadorias necessárias -, agora vem o novo coronavírus, que vai trazer sérios e graves problemas. Com certeza que a carne, que é o nosso principal setor, vai ter sérios problemas no seu preço, que irá baixar”, concretiza o dirigente.

A passagem do furacão Lorenzo na noite de 01 para 02 de outubro de 2019, a 70 quilómetros a oeste da ilha que marca o ponto mais ocidental da Europa, com categoria 2 na escala de Saffir-Simpson, deixou graves impactos no setor agrícola de várias ilhas da região.

Na ilha das Flores, concretamente, a intempérie provocou “um constrangimento muito grande, porque foi na época alta de exportação” de animais.

“A época alta de exportação da ilha das Flores é nos meses de outubro, novembro e a primeira semana de dezembro. O furacão passa em 02 de outubro e nós ficámos com animais retidos muito tempo”, esclarece Valter Câmara.

A agitação marítima provocada pelo Lorenzo destruiu o Porto das Lajes das Flores, principal porta de entrada e saída de mercadorias do grupo Ocidental, provocando constrangimentos no abastecimento às ilhas das Flores e do Corvo e na exportação de gado vivo.

Entre outubro e janeiro, o transporte de bovinos foi assegurado por embarcações de tráfego local e através do fretamento de uma plataforma marítima com reboque.

Só em janeiro, com o fretamento no navio Malena, é que a situação se “regularizou”.

Valter Câmara afirma que, até janeiro, o gado “foi saindo, mas foi saindo muito pouco”. Transitaram “animais de um ano, de 2019, para janeiro e fevereiro de 2020, o que causou perdas para os agricultores, porque têm o seu maneio da exploração preparado de forma a escoar os animais naquela altura”.

Quando habitualmente, no período de inverno, têm de alimentar as mães dos vitelos exportados, com os alimentos recolhidos no verão, desta vez tiveram de dar de comer aos vitelos retidos e às mães.

Para estes casos, foi “instituído um regime de apoio extraordinário a conceder à aquisição de produto de categoria fibrosa, destinado à alimentação do efetivo pecuário das ilhas das Flores e do Corvo, visto que os efeitos do furação Lorenzo também se repercutiram na limitação da produção e diminuição das quantidades de alimento forrageiro destinado à alimentação animal”, informou o diretor regional da Agricultura, José Élio Ventura, em resposta escrita à Lusa.

“O apoio cifrou-se numa comparticipação de 7,5 cêntimos por cada quilograma de alimento adquirido, tendo sido apoiada a aquisição de mais de 800 toneladas, o que representou mais de 60 mil euros”, prosseguiu.

O levantamento dos “prejuízos decorrentes da dificuldade de escoamento dos animais vivos a partir das Flores e do Corvo” está “em fase de conclusão”, sendo que “a portaria enquadradora será esta semana remetida às organizações de produtores, para parecer”.

Entre danos em infraestruturas, colheitas e constrangimentos na exportação de animais, o Governo Regional recebeu 210 candidaturas a apoios, com prejuízos globais “num montante superior a 441 mil euros”, adiantou o diretor regional.

Das 210 candidaturas, foram já aprovadas 168, correspondendo a um apoio superior a 303 mil euros.

Os pedidos vêm não só do grupo Ocidental (Flores e Corvo), onde se estima um prejuízo de 56 mil euros, como também do grupo Central (Faial, Pico, São Jorge, Graciosa e Terceira), de onde chegaram 153 candidaturas, tendo já sido entregues aos agricultores 259 mil euros.

Na sequência da passagem do Lorenzo pelos Açores, foi estabelecido um regime excecional de apoio extraordinário ao setor agrícola, para “o restabelecimento do potencial produtivo, a recuperação das infraestruturas e a compensação por perdas relevantes nas culturas das explorações afetadas”, frisou José Élio Ventura.

“O apoio financeiro aos produtores teve como critério a atribuição de uma comparticipação até um máximo de 75% do montante dos estragos efetivamente verificados e inventariados pelos Serviços de Desenvolvimento Agrário de ilha, em produções agrícolas e em infraestruturas”.

O diretor regional da Agricultura referiu que, “naquilo que é competência exclusiva do Governo Regional, o processo ficará integralmente concluído até ao final do segundo semestre deste ano.

O furacão Lorenzo causou 255 ocorrências, que resultaram na necessidade de realojar 53 pessoas e num prejuízo de 330 milhões de euros.

Flores já têm abastecimento regular mas Corvo continua com constrangimentos

Desde janeiro, com o fretamento do navio Malena, que o abastecimento à ilha das Flores tem sido feito com regularidade, mas o Corvo continua a ter um abastecimento marítimo irregular, segundo comerciantes e autarcas.

Os florentinos passaram “por um período muito difícil, mas, com o fretamento do navio Malena, navio que reúne todas as condições para operar naquilo que resta do que era o cais acostável do Porto das Flores, e que serve perfeitamente a ilha, a situação regularizou”, afirmou o presidente da Câmara de Santa Cruz das Flores, José Carlos Mendes.

“Houve dificuldades… Agora, também tem uma coisa: nós estamos já habituados às dificuldades e encontramos sempre formas de minimizar”, explicou o autarca, acrescentando que, “como é óbvio, aconteceram ruturas no abastecimento, houve faltas, mas o essencial nunca faltou, nunca ninguém passou fome”.

Em Santa Cruz das Flores, “felizmente, os estragos não foram muitos”.

A autarquia recorreu aos seguros para fazer face aos prejuízos de “160 a 170 mil euros” relativos a estragos no museu e no auditório municipal. A autarquia não vai, por isso, pedir o apoio do Governo Regional, que se comprometeu a cobrir 85% dos gastos das autarquias nos esforços de reabilitação.

Foi no concelho vizinho, das Lajes das Flores, que se verificou o maior dano, a destruição da infraestrutura portuária, cuja reparação está orçada em mais de 190 milhões de euros.

Sendo esta uma obra da competência do executivo regional, à autarquia compete um prejuízo de cerca de 100 mil euros, maioritariamente referente à “destruição de um troço da avenida marginal da Fajã Grande – o muro de proteção, a via e iluminação”, adiantou o presidente da Câmara, Luís Maciel.

O autarca vai aproveitar o apoio governamental e aguarda a avaliação feita pelo executivo.

Também o presidente da Câmara das Lajes das Flores referiu que, “desde que o Malena está a operar, não tem havido problemas no abastecimento”.

João Lourenço, dono do supermercado Pão de Açúcar e de vários outros estabelecimentos, contou que “houve um período de vários meses em que foi difícil para os barcos chegarem, mas lá se conseguiu ultrapassar”.

“Não é tanto assim como essa mensagem que passaram na televisão, que fez com que muitos turistas não viessem cá, pensando que isto aqui era pior que em África, que não havia nada para comer. Não é verdade. Não havia todos os produtos que havia antes, mas havia, de vez em quando, barcos, também chegavam produtos em aviões […]. Fomos gravemente prejudicados por não termos turistas, que não vieram, pensando que aqui estava tudo a morrer de fome”, afirmou o empresário, que explora também alguns empreendimentos turísticos.

Já o proprietário de quatro supermercados e do centro comercial Floratlântico, Arlindo Lourenço, considera que durante o período da falta de navio, de outubro a janeiro, “foi um caos”.

“Foi terrível, foi quase insuportável”, admitiu.

Segundo o responsável pelo maior estabelecimento comercial da ilha, faltou “tudo, bens alimentares, bens para a indústria, para a construção, tudo”.

“Estava tudo a encaminhar-se para uma situação estável, que permitia regular o funcionamento da empresa e a recuperação dos nossos stocks. Por incrível que pareça, vem agora esta crise da covid e está a ser outra vez um caos. Agora, temos mercadoria, mas não temos clientes para comprar a nossa mercadoria”, contou.

A sua empresa, Lourenço e Lourenço, candidatou-se aos apoios do Governo Regional, mas aguarda para saber o montante. Pelas suas contas, perdeu “dezenas de milhares, ou até uma centena de milhar”.

Os apoios serão atribuídos depois de terminado o levantamento feito pela Câmara do Comércio e Indústria da Horta. À Lusa, o presidente, David Marcos, avançou que se espera ter o processo finalizado esta semana e que foram recebidas 17 candidaturas – 13 das Flores, quatro do Corvo.

No Corvo, a situação é outra. O presidente da Câmara do Corvo, José Manuel Silva, lembra que a ilha foi abastecida recentemente, “com cinco viagens e cerca de 700 toneladas de bens de toda a tipologia”, mas admite que a solução “ainda não está perfeita”: “O nosso caso também está a ser tratado, mas esta situação de pandemia vem mexer com tudo, por isso, pode não acontecer tão rapidamente”.

A solução passa por um barco “com condições de navegabilidade que os atuais não têm”. Na mais pequena ilha dos Açores, os comerciantes queixam-se da falta de regularidade.

João Pedras, gerente da Pedras e Pedras Mercearia, confessou que os comerciantes chegam a “não fazer encomendas dos produtos” de que precisam, “porque o que acontece é os produtos ficarem muito tempo parados noutra ilha”. Isso aconteceu com a carga que ficou recentemente 50 dias no Faial, com “cerca de 30 mil euros parados”, dos quais ainda aproveitou “alguns produtos, com validade grande”.

Antes do último abastecimento, faltava leite, ovos, farinha, água, açúcar, iogurtes, laticínios: “Estivemos um mês sem abastecimento”, conta.

Luís Carlos Jorge, gerente da Loja do Cabral, afirmou que “houve muitos constrangimentos, mas os negócios foram-se aguentando” e “a maior falta tem sido sempre a regularidade”. Houve alturas com “mais fruta do que o habitual” e outras em que faltavam produtos.

Mencionando também a incerteza que provocam a greve dos estivadores e a pandemia da covid-19, o empresário disse que “as desgraças aqui nunca vêm sós”.

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