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Agroportal

Ana Pais e Carla Pereira: elas dão novos sabores ao mel

por Público
23-08-2019 | 23:00
em Nacional, Últimas
Tempo De Leitura: 7 mins
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Na sede da Beesweet, em Loureiro, Oliveira de Azeméis, há uma máscara de apicultura antiga. Tem “aí uns 50 anos”, calcula Ana Pais, “até cheira a velhinho”. Não é apenas um artefacto do passado feito peça decorativa – é uma lembrança constante de um legado que Ana, 37 anos, e a prima, Carla Pereira, 33, nunca haviam pensado reclamar. Afinal, a apicultura sempre foi algo natural para elas: o avô Augusto “sempre fez”, sempre “teve abelhas”. “Há 40, 50 anos, pessoas com quintal normalmente tinham abelhas, quase como animal doméstico”, nota Ana, “para terem o seu próprio mel”. E o avô tinha o seu próprio mel e também o vendia – fazia a cresta, colocava na centrifugadora, punha a rotulagem e vendia na loja da avó. Mas não fazia apenas o mel-mel, também misturava ervas aromáticas que lhe emprestavam novos sabores. Essas são as memórias das primas – recuperadas e embrulhadas de novo: o avô Augusto poderia não reconhecer nomes como Nº5 Winter, Nº10 Seasalt ou Nº88 Fire, mas com certeza lhes reconheceria os sabores.

O segredo é a alma do negócio, já sabemos; e, por isso, não saberemos que plantas aromáticas são usadas em cada mel. Percebemos um sabor picante no Fire, um sabor de canela no Nº25 Xmas; descrevem-nos sabor de menta no Winter, de limão no Nº1 Citrus – se os sabores são reais, os ingredientes uma ilusão, porque um mágico nunca revela os seus truques. Apenas os que são óbvios: o Seasalt tem flor de sal – “acho que somos a única empresa a produzir mel salgado”, nota Ana; e o Nº66 Beelove inclui cacau.

São os únicos ingredientes usados além das aromáticas, e são as únicas matérias-primas adicionadas num produto onde, asseguram-nos, não há adição de essências, aromas artificiais ou químicos, açúcares ou mesmo água. “Vamos a feiras internacionais ver o que se está a fazer com sabores no mel e percebemos que as essências desvirtuam”, conta Carla, “o nosso será sempre com plantas, é o legado do nosso avô”. Querem dar “sabores diferentes” a pessoas que até podem não gostar do sabor original do mel; querem ter um “produto mais dinâmico, mais atractivo” que “não deixa de ser orgânico”.

“Se estás a colocar plantas vivas e frescas no mel, estás a beneficiar a matéria-prima, a melhorar a base.” E, apesar dos méis aromatizados serem o elemento distintivo da Beesweet, esta não deixa de ter mel-com-sabor-a-mel, o Nº3 Beepure Bio, certificação biológica, com certeza. Para chegar a uns e outro, a produção é totalmente artesanal e sem altas temperaturas – o resultado é um mel cru, puro: no caso do mel aromatizado, a única diferença é que as ervas estão alguns dias no mel e são depois retiradas, com redes alimentares.

É uma empresa totalmente artesanal e 100% familiar, a que as duas primas montaram quando se descobriram “esmorecidas” na vida profissional (Ana, na área da hotelaria, Carla, administrativa). Procuraram uma saída, frequentaram formações. “Visitámos lojas, percebemos que o mel estava perdido no tempo, com frascos grandes e rótulos pouco atractivos”, recordam, “e víamos como outros produtos, a manteiga, o café, inovavam com novos sabores”. “Porque não fazer algo diferente com o mel?”, pensaram. Não hesitaram em olhar para o passado, resgatar as receitas tradicionais (e caseiras) do avô – e desenvolvê-las com chefs. “No início, enviávamos muitos frascos a chefs para que nos dissessem o que achavam. Fomos ajustando as receitas de acordo com a opinião deles e alguns tornaram-se como que ‘padrinhos’, como o Filipe Gomes e o Chakall.”

Paulo Pimenta

E não só se aventuraram com sabores no mel como decidiram embalá-lo de forma diferente. O design da linha Gota simula exactamente um pingo e a embalagem é top down, “temos zero desperdício, escorre até à última gota” – e, não de somenos, com 300 gramas (nas outras linhas, frascos de vidro guardam 40 ou 150 gramas). O design é, aliás, uma preocupação iniludível na Beesweet, que até se deu a conhecer, em 2014, com uma Edição Exclusiva de Autor 3x150g, a que se seguiu um Minipack Sensações 3x40g.

Por esta altura, é redundante que Ana Pais diga que “o mel pode ser muito mais que mel”. “Quem busca este produto não quer só mel, quer criar experiências de sabores inusitados em casa, quer uma degustação”, avalia. Os nomes são todo um tratado de experiências que Ana e Carla quiseram despertar e uma quase declaração de princípios – porque não pode um mel ser um Chanel nº 5? E, assim, entrou também a numerologia, associada ao nome e às sensações que se pretendem despertar – o Nº5 Winter, por exemplo, remete para “bosques” e quer induzir um sentimento “de aventura e liberdade”; o Nº 25 Xmas é mais óbvio, é o Natal e a família que são imediatamente invocados. “Uma das regras das empresas é nunca criar produto de época”, confessa Ana, entre sorrisos que denotam pouco arrependimento com a ousadia.

Se Ana e Carla tinham as receitas e as ideias, faltava-lhes formação na área, uma lacuna que continuam a suprir frequentando workshops e formações (a mais recente em marketing digital e inovação). Se tinham as receitas e as ideias faltavam-lhes as abelhas – continuam a faltar. Querem trabalhar directamente com as colmeias, por enquanto as condições não estão reunidas. Por isso, trabalham com diversos parceiros, todos portugueses, todos com certificação biológica. “Visitamos os agricultores, fazemos questão de ver onde estão as colmeias, como se desenrola todo o processo, fazemos análises”, conta Carla.

Ana até costuma ir ajudar na altura da cresta, gosta de se “embrenhar naquele mundo, nos cheiros”. “Escolhemos e mantemos ligação.” O último lote de mel veio da serra da Estrela; o próximo virá do Alentejo. “Tentamos escolher pela qualidade e pelo que rodeia as colmeias.” A flora em volta influencia o mel, daí escolherem-se produtores que mantêm as suas abelhas entre “floração variada e interessante”: o mel pode ser mais claro ou mais escuro, mais amargo ou mais doce – por exemplo, o de laranjeiras é “clarinho, suave, aromático, cítrico”, o de medronheiro “é muito amargo” (e muito caro: pode chegar aos 50 euros por quilo – “os holandeses valorizam imenso). A Beesweet usa normalmente floração de eucalipto e também aposta noutras mais raras, como a de mirtilo, “que não é contínua”. Neste momento, o mel de mirtilo, o Beeblue, está esgotado – tem “tonalidade rubi, ligeiramente agreste e de sabor silvestre” e, de acordo com um especialista da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação do Porto, tem maior poder antioxidante e maior poder antibacteriano do que outros méis.

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