Alfarrobeira: uma espécie bem adaptada a clima seco e solos pobres

Alfarrobeira: uma espécie bem adaptada a clima seco e solos pobres

Característica dos ecossistemas mediterrânicos e plantada nesta vasta região desde tempos remotos, a alfarrobeira (Ceratonia síliqua L.) está atualmente presente num conjunto mais alargado de países de verões quentes e invernos pouco rigorosos, como os EUA (Califórnia), a Austrália e a África do Sul.

Nestes destinos de clima ameno, com pouca chuva, sem geada e onde as temperaturas raramente baixam aos 10 graus centígrados, a alfarrobeira encontra boas condições para florescer e o trabalho de polinização é favorecido. Esta é, aliás, uma espécie bem-adaptada a ambientes secos e que desenvolveu mecanismos fisiológicos de adaptação à secura.

O clima do sul de Portugal é, por isso, acolhedor para a alfarrobeira, capaz de crescer em solos calcários, arenosos ou argilosos, inclusive com elevada salinidade. Por isso, as alfarrobas crescem nos terrenos calcários e pedregosos do Barrocal algarvio, em condições que são adversas para boa parte das espécies silvícolas e florestais.

Dadas estas características, é vista como uma espécie com futuro, ideia sublinhada por Pedro José Correia, professor e investigador da Universidade do Algarve, que se tem dedicado ao conhecimento da alfarrobeira:

– Por um lado, a capacidade de subsistir em solos pobres sob escassez de água, assim como a sua resistência ao fogo, permitem olhar para a alfarrobeira como uma espécie com elevada capacidade de adaptação a vários efeitos decorrentes das alterações climáticas.

– Por outro, mesmo considerando que a capacidade da alfarrobeira como reservatório de carbono não é muito elevada face a outras espécies, em particular devido ao seu crescimento lento e baixa densidade, o seu contributo ambiental pode ser relevante, em especial em regiões com condições de solo, água e clima pouco propícias à formação de florestas, como acontece no Algarve e em boa parte do mediterrâneo.

Além de modesta no consumo de nutrientes, a resistência da alfarrobeira ao fogo reforça esta perspetiva: no Relatório da Comissão Técnica Independente que analisou os fogos de 2017, a alfarrobeira é referida como uma espécie de “baixa inflamabilidade/combustibilidade” que deve ser tida em conta nas redes de defesa da floresta contra incêndios.

No livro “Historias que figuram das árvores”, a autora Susana Neves chama-lhe “A Adamantina Algarvia”, pela resistência deste tesouro da natureza (…)”.

Uma espécie exclusiva do sul de Portugal

As estatísticas da distribuição geográfica da espécie confirmam a sua adaptabilidade aos ambientes secos. Dos 16,4 mil hectares de alfarrobeiras existentes, 98% localizam-se no Algarve, indica o 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6) do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, relativo a 2015. Fora da região algarvia, os poucos exemplares registados (0,4 mil hectares) estão no Alentejo.

A plantação desta espécie tem-se mantido relativamente estável ao longo do tempo, com uma subida recente derivada de ações de florestação. Os registos dos Inventários Florestais Nacionais demonstram que a área total de alfarrobeira rondou sempre os 12 mil hectares no período 1995-2010, aumentando em cerca de quatro mil hectares nos cinco anos seguintes (2010-2015).

Apesar da tendência positiva de evolução, o estado dos povoamentos levanta algumas preocupações. O IFN6 indica que 37% dos povoamentos de alfarrobeira estão em mau estado de vitalidade, naquela que é a percentagem mais elevada entre as principais espécies florestais portuguesas.

Por outro lado, estes povoamentos são importantes focos de biodiversidade, registando-se uma ocorrência de habitats naturais e seminaturais em torno dos 40% (a maioria deles em estado médio de conservação).

Características da Alfarrobeira

Crescimento lento e vida longa

A alfarrobeira é uma árvore de crescimento lento e longevidade elevada, que pode atingir os 10 a 15 metros de altura.

As primeiras alfarrobas colhem-se no final da primeira década de vida, mas é já na segunda que a colheita se torna relevante, com 20 a 50 Kg por árvore.

As suas raízes são amplas e profundas – preparadas para suportar uma copa de grandes dimensões e densa folhagem – e vão buscar a água de que necessitam, preferencialmente, às reservas hídricas do subsolo.

Em Portugal, as variedades de alfarrobeira mais importantes são a Mulata, a Galhosa, a Canela, a Spargale (inicialmente designada por Mulata do Espargal), a Aida e a Gasparinha.

Sabia que…

– O peso médio da semente da alfarroba serviu de referência para pesar pedras e metais preciosos, na antiguidade. O solidus, uma moeda de ouro dessa altura, pesava 24 kerátion (sementes de alfarroba). Isto levou a que 24 quilates fosse considerado como sendo a forma mais pura. É esta a origem do quilate (Carat) como unidade de medida, equivalente a 200 miligramas. Sabe-se hoje, no entanto, que o peso das sementes de alfarroba tem variações, como o de todas as outras sementes.

– Foram encontrados vestígios de vagens de alfarroba em túmulos do Antigo Egipto. Por esta razão, acredita-se que as suas sementes terão sido usadas em processos de mumificação, refere a Confraria dos Gastrónomos do Algarve.

– A alfarrobeira é referenciada na “Epopeia de Gilgamesh”, umas das primeiras obras conhecidas da literatura mundial compilada pelo rei Assurbanípal, no século VII a.C.

– O Talmude judeu tem uma parábola conhecida como “Honi e a árvore de Alfarroba” que apela ao altruísmo. Nela é referido que uma alfarrobeira pode levar 70 anos para dar frutos, pelo que quem plantar esta árvore está a favorecer gerações futuras.

Estrangeira ou nativa?

Os especialistas ainda não chegaram a acordo.

Há quem a considere um exemplo de espécie exótica naturalizada em Portugal, ou seja, de uma estrangeira que se estabeleceu para além do local onde foi inicialmente introduzida e que permanece em equilíbrio em habitats naturais e seminaturais. E há quem a classifique como espécie nativa e a integre na lista das autóctones ou indígenas portuguesas.

Por um lado, pensa-se que é originária do mediterrâneo oriental, da região que corresponderá hoje ao norte do Iémen ou corno de África e sul da península arábica, e que terá chegado ao Egito, Médio Oriente, Grécia e, mais tarde, à Península Ibérica, pela mão de mercadores. Por outro lado, foi encontrada evidência de que a Ceratonia já existiria na Europa na era pré-glaciar.

Independentemente da resposta, a alfarroba começou a ser plantada em Portugal há vários séculos e constitui uma espécie marcante, em especial na paisagem, história e cultura algarvias.

O nome comum “alfarrobeira” deriva do árabe al-Kharrub- a vagem, usado para designar quer o fruto quer a árvore. Já o nome científico Ceratonia síliqua L. deriva do grego Keras – chifre, e do latim, síliqua– vagem, numa referência à solidez e forma da vagem.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

O valor da alfarroba: produção nacional é referência mundial

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