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Alentejo “Fora da Caixa”. Com um pé em Portugal e o outro em Espanha

por Rádio Renascença
16-10-2019 | 17:49
em Nacional, Últimas
Tempo De Leitura: 11 mins
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Em 1984, Campo Maior recebeu a primeira grande exposição ibérica de Arte Moderna. À época, artistas portugueses e espanhóis juntaram-se num evento arrojado que acabou por criar num jovem alentejano, viajado e apreciador de arte, o desejo de formar a sua própria coleção.

Como querer é poder, aos 62 anos António Cachola, natural de Elvas mas a residir em Campo Maior, tem hoje uma das mais significativas coleções privadas de arte em Portugal. São cerca de 850 obras, de dezenas de artistas nacionais.

Na década de 90 do século XX, o comendador foi convidado pelo Museo Estremeño e Iberoamericano de Arte Contemporaneo, em Badajoz, a expor as suas obras e, uma década depois, concretiza um sonho através da criação do MACE – Museu de Arte Contemporânea de Elvas, onde permanece, agora, a sua coleção.

“Ao fim destes anos a coleção está presente no museu de Elvas, mas já esteve nos Açores em 2015 e, recentemente, esteve patente no Palácio de São Bento, por iniciativa do senhor primeiro-ministro”, referiu o colecionador.

António Cachola falava, em Elvas, no decorrer do VI Encontro Fora da Caixa E=MC2 da Caixa Geral de Depósitos (CGD), que reuniu empresários e outros responsáveis, no Centro de Negócios Transfronteiriço da cidade raiana.

A importância da arte e a sua ligação com a economia numa região transfronteiriça, foi um dos temas que marcaram o debate, com António Cachola a defender “a cultura como espelho da realidade”, e para a qual todos, sem exceção, devem contribuir, pois as “artes e as humanidades são determinantes para a economia.”

Uma economia, que no caso de Elvas, se interliga com a vizinha Espanha, numa relação de proximidade, pese embora os desequilíbrios que se verificam entre estas regiões fronteiriças.

“Estas duas realidades são o prolongamento geográfico uma da outra. O Alentejo e Extremadura tem as mesmas características. O que nos falta e o que Espanha tem, é uma organização administrativa diferente”, acentuou o Comendador, defendendo a necessidade de conceber “uma instância supramunicipal”, para criar “no Alentejo formas de acelerar os processos.”

Apesar de reconhecer diferenças entre ambos os lados da fronteira, desde logo em termos demográficos, António Cachola está convicto de que é possível esbater alguns desequilíbrios.

“Aqui, existe uma centralidade como não há igual no nosso país”, sublinha. “Estamos a viver e a crescer, simultaneamente, em duas culturas, com um pé em cada lado da fronteira”, assegura o colecionador, numa altura em que o país vizinho está no topo da atualidade, com a situação instável do Governo e os protestos dos independentistas da Catalunha.

Entre “muralhas e ameias”. O olhar de Portugal e da Europa para a Catalunha

Com eleições em novembro, num cenário confuso e instável, Espanha está também a braços com a violência e os protestos nas ruas da Catalunha. Um tema que esteve em destaque no programa da Rádio Renascença, “Casa Comum”, conduzido pelo jornalista José Pedro Frazão, gravado na cidade de Elvas, e que será transmitido na próxima segunda-feira.

“Mesmo que possa haver alguma simpatia pelo independentismo catalão, em termos muito pragmáticos, penso que o independentismo, este tipo de politica identitária independentista é muito má para a Europa e é má para Portugal, na medida em que possa levar à fragmentação, ao prolongamento da instabilidade e da incerteza, em Espanha”, considerou Bruno Cardoso Reis, um dos convidados do programa “Casa Comum”.

Segundo este professor universitário do Centro de Estudos Internacionais (CEI) do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), os independentistas catalães que muitas vezes apelam à Europa, são os mesmos que apresentam um “tipo de gestão politica, muito unilateral, com muitos ultimatos e recusa de consensos”, o que “é muito negativo e um grande inimigo do processo de construção europeia.”

Imaginar a Catalunha como parceiro na Europa, “com este tipo de postura”, é para Bruno Cardoso Reis, “algo realmente muito complicado de gerir ao nível da politica europeia”, que necessita “de menos fragmentação, mais convergência, mais cooperação e mais disponibilidade para negociar.”

Na mesma linha, a análise do embaixador António Tânger Corrêa, o segundo convidado do programa da Renascença.

“A Catalunha, em si, não é um problema. O problema, é quem é que está em foco na Catalunha. Os independentistas não são um só movimento, são pelo menos dois, e com apoios heterogéneos de fora”, assinala, recordando que existe “um movimento mais à esquerda, idealista, e outro mais conservador”, que em circunstancias normais “se antagonizariam.”

Situação que pode gerar uma “dinâmica de fracturação”, alega o embaixador, de resto, já “experimentada noutros locais, em Espanha, que não funcionou até agora, mas que pode despoletar uma nova tentativa de fracionamento de Espanha.”

Se é bom ou mau para Portugal, não sei, ninguém sabe, porque a mudança não depende de nós, nós é que temos de acompanhar a mudança e evoluir com ela”, defende.

Com longa experiencia na gestão de conflitos, António Tânger Corrêa, considera que Portugal só têm “que se centrar em si próprio”, e “ganhar muralhas e ameias para um combate que virá aí.”

“Não é um combate de guerra, mas que é um combate de convicções e são essas convicções que temos de ter para combater as convicções que nos são alheias”, remata o embaixador, já em situação de disponibilidade.

Do Alentejo para o mundo. A coragem dos empresários do interior

Do global para o local, empresários alentejanos apresentaram exemplos de sucesso, numa região do interior, conseguidos à custa de uma grande capacidade de inovação, resistência e adaptação às mudanças.

Longa é a tradição dos cereais no Alentejo. Menos longo é o caminho percorrido pela CERSUL, com cerca de três décadas de vida. José Rasquilha é o atual administrador deste Agrupamento de Produtores de Cereais do Sul. Um sector com altos e baixos, mas que têm procurado novos caminhos, atendendo à elevado a concorrência.

“Temos procurado arranjar brechas e nichos de mercado para sobreviver”, explicou o empresário no painel “Mercado empresarial da região e o contexto das ligações à Europa: oportunidades e desafios”, lamentando que o Alentejo não seja olhado, no seu todo, da mesma forma.

“Existe mais Alentejo, além do baixo e Alentejo central”, referiu, para recordar a necessidade de se construir a barragem do Pisão, no distrito de Portalegre. “Se houver água, há investimento, há mão de obra e a industria só vem se houver matéria prima”. Incrementar a industria numa região despovoada e desertificada, passa também, segundo José Rasquilha, pela criação de incentivos fiscais, coisa que, “nem este, nem nenhum Governo teve ainda coragem para fazer.”

Com um percurso de sucesso, a combater as adversidades inerentes ao interior, Luís Marvanejo destaca a localização como “vantagem competitiva”. No caso dos armazéns Marvanejo, empresa fundada em 1981, a concretização de investimentos, têm originado um “crescimento sólido”.

“Hoje exportamos para três continentes, operamos num mercado global, e tudo isto com base numa estratégia de diferenciação”, explica o administrador da empresa alentejana, nas áreas do entreposto, alimentação e cash&carry, que marca presença, também, de norte a sul do país, com logística própria nos distritos de Évora, Portalegre e Beja, e na vizinha Espanha, nas regiões da Extremadura e Andaluzia.

Num outro sector, também ele de grande relevância para o Alentejo, Maria Ana Alves é a mulher que administra o Grupo Ezequiel Francisco Alves. A empresa, criada em 1989, é hoje uma referencia na industria de blocos e comercialização de mármores, no concelho de Vila Viçosa, e que exporta 90% da sua produção. Mas é, igualmente, um exemplo, de superação de obstáculos, quando há uns anos, se propôs “diversificar o negócio das pedreiras.”

“Apostámos noutra área, num investimento ‘fora da caixa’, no ramo da hotelaria”, conta Maria Ana Alves, proprietária de um hotel, em Vila Viçosa. “É um sector mais difícil, pois precisamos de captar, todos os dias, potenciais novos clientes, enquanto que no sector dos mármores, temos clientes para a vida toda”, declarou a empresária.

Para os empresários alentejanos presentes no debate, a proximidade com Espanha é uma mais-valia, que tem sido aproveitada, de um e do outro lado da fronteira. Contudo, é necessário fazer muito mais para alavancar a economia da região. As acessibilidades são, no entender de muitos, o “calcanhar de Aquiles”.

A cidade de Portalegre, por exemplo, apenas está ligada à A23 e à A6 através do IP2. Depois, há a ferrovia e o Corredor Internacional Sul Sines-Elvas (Caia). Alguns troços da linha ferroviária de mercadorias já foram lançados, mas este “comboio” é muito lento.

“O corredor ferroviário é importante pois tudo o que nos aproxime é sempre vantajoso”, considera Maria Ana Alves.

Opinião semelhante, tem Luis Marvanejo: “Nós expedimos por via terrestre. Estamos a 400 quilómetros de Madrid, e desta forma ficamos menos competitivos. A ligação ao porto de Sines, podia ser boa para nós”.

No caso da CERSUL, José Rasquilha, vê com bons olhos este corredor ferroviário, embora os seus clientes estejam a norte de Portugal. “Os nossos grandes clientes estão na parte oeste e norte do país. Se houvesse uma linha ferroviária que nos ligasse ao norte, era muito importante, pois os custos rodoviários são muito elevados”.

O painel contou, ainda, com a presença de Francisco Cary. O administrador executivo da CGD ficou agradado com os exemplos que chegam do interior do país, “exemplos de empresas da região que estão viradas para o mundo” e que beneficiam de uma “excelente localização”.

“Temos uma vocação natural para financiar o desenvolvimento da economia portuguesa até por força do nosso plano de reestruturação”, referiu. “Estamos a investir nos ativos internacionais, sendo que a economia é um dos pilares das nossas iniciativas, em que apoiamos muito a internacionalização das empresas”, especificou Francisco Cary.

A resiliência e a inovação para combater tempos de crise

Depois de assistir, ao longo da tarde, a todo o debate, e convidado a intervir, Paulo Macedo começou por referir que não pretendia “maçar muito com a banca”, optando, antes, por abordar “a economia, mas virada para a vida concreta das pessoas e das empresas.”

E no concreto, começou por falar das taxas de juro, “as mais baixas da vossa vida”, e daquilo que mudou: “Há um novo posicionamento em termos de taxas de juro que, repetidamente, foram revistas em baixa e o que nos dizem é que continuarão negativas até mais cinco anos. Esta é a novidade”, anunciou.

O que pode isto significar no contexto económico português, em termos de perspetivas, oportunidades, ou até dificuldades, foi o que explicou o presidente da CGC.

“O conjunto de taxas de juro baixas, conjugado com um crescimento económico, que neste momento se prevê seja de 2%, com Portugal a crescer há cerca de cinco anos, ininterruptamente, parece-me que há um sentimento económico positivo, além de verificarmos alguma dinâmica”, referiu.

“Temos condições favoráveis em termos de taxas de juro, temos condições estáveis em termos económicos, fala-se que poderá haver algum arrefecimento da economia, mas o que vemos é que as empresas e os empresários têm condições para desenvolver certo tipo de iniciativas, reforçar a posição no mercado externo ou, por exemplo, aumentar investimentos para crescer no mercado interno”, sugeriu o presidente executivo.

Paulo Macedo lembrou, ainda, que foi no mercado externo que muitas empresas portuguesas conseguiram fazer face à crise anterior, tendo-se conseguido “uma resiliência e um aumento claro em termos da competitividade” por isso, falar em “novos investimentos para expansão em certos mercados é algo que faz sentido.”

Aos empresários, Paulo Macedo pediu para continuarem “a antecipar o futuro”, aprendendo, por outro lado, “que a sustentabilidade se constrói nos melhores tempos”, e que é necessário “motivar as equipas e dar-lhes um propósito.”

“Muita da resiliência, muito do futuro que passa pelas empresas, faz-se de inovação, mas faz-se, também, de práticas que podem ser melhoradas para fazer face a tempos mais difíceis”, concluiu o presidente da Caixa Geral de Depósitos.

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