AIS Lisboa 2017. Um retrato da Agricultura do Futuro? – Nuno Góis

AIS Lisboa 2017. Um retrato da Agricultura do Futuro? – Nuno Góis

Durante os passados dias 11 e 12 de outubro decorreu o Agro Innovation Summit 2017 em Oeiras. De forma simplista podemos descrever esta iniciativa como uma “espécie” de Websummit mas dedicado exclusivamente à Agricultura e que este ano teve como tema a “Digitalização da Agricultura”.

Antes de mais é necessário parabenizar os promotores deste evento nomeadamente a Comissão Europeia, o Governo Português e sobretudo o INOVISA e a Divisão Epi-Agri pelo excelente trabalho realizado.

Este evento reuniu à mesma mesa os decisores políticos, investigadores, agricultores e empresários. Num formato pouco convencional, o evento foi capaz de promover o diálogo entre vários stakeholders do agronegócio com o objetivo fundamental de perceber qual o futuro da inovação tecnológica na agricultura.

Ao longo de 15 sessões temáticas os participantes foram divididos em pequenos grupos de discussão. Mais de uma centena destes grupos resultaram num nível de interação único. Os resultados destas sessões poderão ser consultados até ao fim do ano aqui.

Um dos momentos altos deste AIS2017 foi a palestra do Prof. Henrique Leitão, autor de uma interessante palestra sobre o processo que é Inovar. Para isto, utilizou-se como referência o que aconteceu em Portugal na época dos Descobrimentos. Durante a sua palestra o Prof. Henrique Leitão demonstrou que um dos principais elementos motrizes dos Descobrimentos foi a inovação pela simplificação. Exemplo disso é a forma como os navegadores Portugueses simplificaram o astrolábio de forma a que este estivesse adaptado à sua utilização em alto mar.

Curiosamente uma frase que foi repetida até à exaustão nas conclusões das sessões temáticas foi que “Inovar é muitas vezes simplificar”. É por isso que acredito, que muitas vezes as décadas de experiência dos líderes de mercado podem beneficiar das visões descomprometidas e disruptivas de startups que procuram desafiar o status quo. Com frequência as soluções destas empresas não são concorrentes, mas sim complementares e urge por isso a necessidade de uma maior cooperação em benefício do Agricultor.

Outra das conclusões apresentadas durante a mesma palestra foi a importância da organização e centralização dos dados. Durante os Descobrimentos todos os capitães possuíam um diário de bordo onde eram obrigados a compilar todos os dias um conjunto de dados que seriam posteriormente analisados por cientistas e especialistas da época.

Talvez por isto não seja surpreendente que duas das startups galardoados com o Agro Innovation Startup of the Year Award centrem a sua atividade na aquisição, organização e tratamento de dados. A Wisecrop que se dedica ao desenvolvimento de uma solução agregado para o sector agrícola e a Farmcloud que faz o mesmo para o sector da pecuária.

Se por um lado tecnologicamente as empresas do sector estão prontas para responder aos desafios da Digitalização da Agricultura por outro, para que esta mudança se concretize, é essencial que as Políticas acompanhem esta mudança. Pelo formato adotado o AIS2017 representa o momento perfeito para o início deste debate.

A modernização da máquina do estado é essencial para que uma verdadeira integração possa ocorrer a todos os níveis. Por exemplo, apenas o ano passado através do Simplex+ passou a ser possível integrar os dados dos parcelários agrícolas disponíveis no iSIP (Sistema de Identificação Parcelar Online) em soluções de gestão agrícola, facilitando em muito a vida de quem utiliza estas ferramentas. Mesmo assim continua a existir muita informação passível de ser disponibilizada de uma forma mais simples e mais integrada, por exemplo, os dados relativos aos produtos fitossanitários com Autorização de Venda, mudança que teria benefícios óbvios para agricultores e prestadores de serviços.

Também não se compreende como o atual quadro comunitário não apoia os produtores na aquisição/subscrição de soluções na Cloud, modelos estes que que são mais transparentes e que protegem o próprio agricultor ao reduzir o risco. Isto porque nestas soluções, o custo anual é muito inferior ao custo que teriam com a aquisição de soluções por compra única, sendo que o produtor que não esteja satisfeito com uma solução pode facilmente optar por outra solução.

É por essa razão que numa altura em que já se discute a nova PAC fica a expectativa que as regras se adaptem e respondam à evolução do próprio mercado para que realmente possamos caminhar para uma Agricultura mais otimizada.

Daqui por um ano o AIS estará de volta, desta feita em Paris. As expectativas serão elevadas e sobretudo há a esperança que possamos nessa altura ver os frutos desta primeira edição.

 

Nuno Góis

Business Developer na Wisecrop

 

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