A água na cidade: adeus seca, ou talvez não! –  Frederico Meireles Rodrigues

A água na cidade: adeus seca, ou talvez não! – Frederico Meireles Rodrigues

Parece estar a chegar ao fim a seca mais severa dos últimos anos. As perdas económicas relacionadas com os seus efeitos estão na ordem do dia. No centro deste problema está a redução das reservas de água no solo e a capacidade de abastecimento de água em quantidade suficiente que supra as necessidades das pessoas e da produção de alimento. Há perdas na agricultura, floresta e terríveis consequências para as pessoas.

Na cidade o problema da escassez de água é subavaliado, mas por norma agrava-se. A cidade é menos permeável do que o campo, devido à maior concentração de edifícios e à rede extensa de acessos pavimentados. Resulta que, para além de impedirem a infiltração da água no solo, os materiais inertes com que edificamos têm uma reação à radiação solar que propicia maior absorção e armazenamento de energia. Por conseguinte, arrefecem mais lentamente e mantém temperaturas mais altas, por períodos mais longos.

Ao mesmo tempo, o meio urbano tende a ser mais seco do que o meio rural, já que, para além do problema anterior, os sistemas artificiais de drenagem desviam rapidamente a água do solo para os cursos de água, que depressa a devolvem ao mar.

Uma das consequências destas alterações atmosféricas é o aumento da evapotranspiração das plantas, que assim regulam a temperatura e humidade à sua volta, tal como nós arrefecemos o nosso corpo quando transpiramos. Em resultado, a cidade ganha um eficiente ar condicionado à custa da bombagem natural de água, do solo para o ar. Quando falta água no solo, acontece o chamado stress hídrico que, no caso das plantas, quando este é prolongado, pode causar a sua morte. Vemos muitos sinais alarmantes, como o aspeto murcho, as folhas concavas e queimadas, ramos terminais secos e frutos mirrados.

Ora, se, por um lado precisamos de uma cidade permeável e dotada de espaços verdes, que contribuam para moderar o clima e respondam a picos de escassez de água, por outro, para que estes espaços se mantenham verdes, tem sido necessário prever a irrigação das plantas na sua manutenção.

É aqui que a qualidade do desenho do espaço exterior urbano e do seu plano de manutenção assumem enorme relevância. Estes projetos devem ponderar gastos mínimos de água, a diminuição da velocidade da sua drenagem e a maximização da sua infiltração no solo. Os espaços verdes da cidade devem ser pensados que nem esponjas, que absorvam e retenham a água, para então a disponibilizarem lentamente.

Para a gestão da água é também importante desenvolver apreciação por uma estética ecológica, associada às condições locais, onde há alterações específicas ao longo do tempo e em que naturalmente a vegetação revela contrastes sazonais. Em vez do espaço verdejante a todo o custo, precisamos de cultivar o deleite pelo espaço rústico, diverso e resiliente, concebido para a incorporar plantas cujos requisitos naturais estão adaptados às condições de seca e calor estival intensos, adequadas às condições da região. Um espaço destes poupa horas de manutenção, produz menos resíduos e consume menos água. Um estudo sobre esta temática, conduzido na região da Califórnia, concluiu que a redução da água de rega pode chegar aos 90%. Recorde-se que o clima desta região em muito se assemelha àquele que encontramos em todo o sul da Europa e norte de África.

A conservação da água é uma prioridade para a qual toda a sociedade deve estar sensibilizada. Devemos consequentemente pensar nos espaços verdes em rede, promovendo os corredores ecológicos e maior continuidade de solo permeável, procurando integrar uma estrutura de vegetação tolerante à seca. Devemos incluir florestas no planeamento das cidades, que constituam os grandes pulmões verdes, e arborizar ao longo das ruas e avenidas, pois as árvores ajudam a regular a temperatura, reduzir a evaporação, aumentar a recetividade do solo para reter água e são filtros que aumentam o tempo de concentração da água. Devemos implementar sistemas de drenagem que procurem a infiltração da água e sua conservação no solo.

Espera-nos o tempo de chuva e quiçá de inundação, que é por norma tanto mais intensa quanto mais prolongada a seca. Talvez a abundância nos faça encontrar estas razões.

 

Frederico Meireles Rodrigues

Arquiteto Paisagista

Professor da UTAD

 

Comente este artigo
Anterior A UE e o Japão finalizam Acordo de Parceria Económica
Próximo AIS Lisboa 2017. Um retrato da Agricultura do Futuro? - Nuno Góis

Artigos relacionados

Opinião

O crescimento económico do sector agroalimentar nacional: duas questões relevantes – Francisco Avillez

1.Introdução
Os meus mais recentes artigos e intervenções públicas levantaram algumas questões das quais gostaria de sublinhar as duas que considero serem as mais relevantes e que, apesar de distintas, se encontram interrelacionadas.
Como é possível que o sector agroalimentar nacional tenha tido, nesta última década, […]

Opinião

Está na hora de as Empresas Agrícolas terem um DA? – Nuno Góis

No passado já tive a oportunidade de aqui debater as características do ecossistema agritecnológico nacional, assim como as principais tendências para os próximos anos. Porém, algo que poucas vezes vejo receber a merecida atenção e que me parece de grande importância é o processo de implementação […]

Opinião

Ecossistema Startup – Francisco Manso

Assistimos ao aparecimento de inúmeras “startups” no setor. Elas ocupam grandes eventos, fazem feiras, têm locais de incubação, movimentam somas de dinheiro impressionantes e estão a ocupar-nos as noticias e o nosso espaço televisivo… Mas o que é afinal uma uma startup?
Tal como uma semente de uma grande árvore uma startup é uma semente de uma grande empresa. […]