AgroVida abril – Inquietação, inquietação – editorial de Teresa Silveira

AgroVida abril – Inquietação, inquietação – editorial de Teresa Silveira

Que força é essa, amigo, leitor, que trazes nos braços e te faz continuar?

Que força é essa, que trazem nos braços e nas linhas de montagem as mais de 300 mil empresas europeias de alimentos e bebidas, que produzem anualmente cerca de 954 mil milhões de euros de bens* e que as faz não parar de laborar (apesar da súbita interrupção das exportações dentro e fora da UE que não sabem como e quando repor ou ampliar)?

Que força é essa, que trazem nos braços os 4.6 milhões dos profissionais dessas empresas por essa Europa fora, que diariamente se erguem, cumprem penosos turnos de trabalho quantas vezes noturnos e ao sol e à chuva e dão vida, forma, cor e sabor aos 3.1 mil milhões de toneladas* de produtos agrícolas, florestais, da pesca, alimentícios e bebidas que saem anualmente do mar, dos campos e das indústrias?

Que força é essa, que trazem nos braços e nas alfaias os mais de 238 mil agricultores, que cultivam os 3.6 milhões de hectares de superfície agrícola em Portugal e as suas mais de 258 mil explorações**, muitos dos quais não acedem ao retalho e, pior, perderam os seus pontos próximos de escoamento (feiras, mercados, o porta a porta ou a beira da estrada) e quebraram elos decisivos na relação produtor/consumidor?

Que força é essa, que trazem nos braços, nas linhas de enchimento e produção, nos empilhadores ou nos robots os mais de 115 mil profissionais da indústria agroalimentar nacional, que todos os dias os move, agora com redobradas medidas de proteção, no regresso ao chão das fábricas, aos laboratórios, às linhas de processamento, rotulagem e embalagem, aos empilhadores, aos armazéns (até de frio), aos gabinetes, aos computadores e aos cais de embarque, para que acedamos a um vastíssimo rol de alimentos nutritivos, inovadores, seguros e saudáveis?

Que força é essa, que trazem nos braços e na imaginação os empresários e gestores deste país, que injetam saber, criatividade, visão, capital, mão-de-obra, determinação e resiliência, capazes de gerar em todo o complexo agroalimentar vendas anuais superiores a 17 mil milhões de euros e exportações de 7.1 mil milhões** (pese embora a brusca incerteza do futuro e os avultados prejuízos com o fechamento abrupto dos tradicionais canais de vendas para o exterior)?

Não me digas que não me compr´endes / quando os dias se tornam azedos / não me digas que nunca sentiste / uma força a crescer-te nos dedos (…)” ***, dirá, dormente e impotente, cada um de nós, ante a dureza do momento gerada pela maior calamidade pública, económica e social das últimas décadas.

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer / Qualquer coisa que eu devia perceber / (…) Porquê, não sei ainda (…)”. ****

Não sabemos. Nunca saberemos.

Em tempos de pandemia, isolamento e incerteza, é só inquietação, inquietação.

* Eurostat, Estatísticas da Agricultura, Floresta e Pescas, 2019

** Instituto Nacional de Estatística (INE)

*** “Que Força é Essa”, Sérgio Godinho

**** “Inquietação”, José Mário Branco

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