A rega (pintar a paisagem de verde dá muito trabalho)

A rega (pintar a paisagem de verde dá muito trabalho)

Com a rega me deito e com a rega me levanto. Por estes dias, é a minha sina e dos agricultores vizinhos com quem me cruzo quando vou ao campos “mudar a rega”. Nestes meses de verão, regar é trabalho prioritário que temos de juntar ao resto das tarefas agrícolas. Pintar a paisagem de verde dá muito trabalho.
Sem água a tempo e horas o verde dá lugar ao amarelo da palha e às vezes ao negro das cinzas se houver ignição. Não sendo possível fazer regadio em todo o lado, havendo água é preciso captá-la e levá-la às plantas.
Uma vez, há alguns anos, queixei – me a um ministro da agricultura sobre o trabalho e as despesas de regar e tive como resposta: “Mas vocês aqui no Norte regam? Não vi nenhum pivô…” Era o resultado de ainda só conhecer a agricultura vista a partir de Lisboa…
Num país diverso com agriculturas diversas em tamanho e avanço tecnológico, são várias as formas de rega, desde a tradicional rega por alagamento (rega ao pé), passando pela rega com aspersores fixos ou móveis, em carrinhos de rega de fabrico artesanal ou enroladores de maior dimensão e menos trabalho, até aos famosos pivôs e à rega gota a gota, com a quantidade de água calculada “a olho” ou baseada em sensores e informação de satélites. Já experimentei todas, excepto o pivô. Era suposto esta evolução simplificar o nosso trabalho… Mas entretanto somos cada vez menos agricultores e cada um com mais área para cultivar e regar. Assim o tempo que poupámos na rega habitual vamos gastá-lo a regar novos terrenos.
A origem da água pode ser uma nascente (foto de @agromancelos em Amarante) , um poço, um furo artesiano, um curso de água ou um regadio. A bombagem geralmente é baseada em motor elétrico ou a gasóleo. O “comando à distância através do telemóvel é uma ajuda preciosa para ligar e desligar o motor elétrico. Entretanto, não sei se ainda funcionará por aí algum “engenho” de tração animal. Se houver, partilhem, gostava de ver.
A agricultura é acusada de “gastar” muita água. A agricultura utiliza água, não a gasta, a água não desaparece. Uma parte da água evapora-se durante a rega, outra parte evapora-se através das plantas ou diretamente do solo, onde outra parte se infiltra até aos aquíferos subterrâneos. E os alimentos tem água (o leite tem mais de 90% de água).
O inverno e a primavera foram generosos em chuva que reforçou os aquíferos, aqui na zona, mas julho foi agreste, muito quente e seco. Agosto, mais brando na temperatura, continua seco. A água vai escasseando nos poços e cursos de água. Ao cansaço inicial da montagem dos sistemas de rega do milho, devia suceder um tempo de trabalho regular mais tranquilo até à colheita, mas as avarias vão acrescentando trabalho ao trabalho. É tempo de regar, lutar e resistir. Já faltou mais para o fim da rega…

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O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.

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