A produção de cereais em Portugal, que futuro? – José Palha

A produção de cereais em Portugal, que futuro? – José Palha

A redução da área de cereais praganosos em Portugal, atingiu na ultima campanha, segundo dados do INE, o valor mais baixo dos últimos cem anos, de facto, só nos últimos trinta anos, a área reduziu de cerca de 900 mil há para aprox 257 mil há.

O que representa uma redução de 10% da produção agrícola nacional, para cerca de 3.5%. apenas na ultima década.
A maior parte desta área tem vindo a ser convertida em pastagem, alguma ao abandono, e outra parte em culturas economicamente mais atractiva como o olival ou o amendoal.

Este facto deve-se a diversos factores, dos quais podemos destacar os baixos preços do cereal pagos a produção, a fraca qualidade dos nossos solos, as alterações climáticas e a enorme volatilidade das produções em sequeiro.
Isto faz com que Portugal dependa em cerca de 80% das importações, de bens que são a base da alimentação humana e animal, sendo um caso único na Europa e no Mundo.

Este problema não afeta só os agricultores, afeta em grande medida o consumidor em geral, e o próprio Pais, devido ao enorme défice da balança comercial agrícola, os cereais representam 30% das importações agrícolas e 10% das importações alimentares, se reduzirmos as importações, obviamente seremos mais competitivos, e menos dependentes.
Neste cenário entendeu o Ministério da Agricultura, em estreita colaboração com a produção, representadas no grupo de trabalho pelas suas associações nacionais (ANPROMIS, AOP e ANPOC) definir uma estratégia nacional para a promoção da produção de cereais.

Deste trabalho que assentou basicamente em três eixos:

1) Reduzir a dependência externa, consolidar e aumentar as áreas de produção

2) Criar valor na fileira dos cereais

3) Viabilização da actividade agrícola em todo o território

Saíram vinte medidas que acreditamos serem possíveis de implementar no prazo estipulado de cinco anos para assim aumentar o grau de autoaprovisionamento dos cereais praganosas de 5% hoje, para 20% no final de 2023.
No entanto, a par das medidas indicadas na estratégia, a produção também está a fazer o seu trabalho para alterar este paradigma, e na nossa opinião, esta mudança passa sobretudo pela valorização da nossa produção, e essa valorização terá que ser feita pelo rendimento e pela qualidade.

Na questão do rendimento estamos absolutamente convictos que a formação dos agricultores é fundamental, é indispensável que as exploração agrícolas, e quem as dirige adotem técnicas mais modernas e eficientes de produção, neste sector, como o custo do itinerário técnico é relativamente baixo, as culturas tem sido feitas com recurso a “receitas” já antigas, que não levam em conta o potencial produtivo real da cultura, o que faz com que em anos de grande potencial os “inputs” sejam poucos e ai perde-se produção e o contrario também é verdade, em anos maus, não se deve investir na cultura.

Para evitar isto, a ANPOC em colaboração com o INIAV e o Instituto politécnico de Beja, organiza este ano, pelo terceiro ano consecutivo, uma formação técnica para agricultores e técnicos, com o objectivo de dotar os formandos de ferramentas técnicas e cientificas que lhes permitam tomar as melhores decisões em relação ao itinerário técnico das culturas, é uma formação pratica de seis sessões, que decorre durante todo o ciclo cultural das plantas, havendo uma sessão por mês, de Novembro a Junho, em que duas parcelas são acompanhadas durante esse período e nas fases mais criticas do seu desenvolvimento, situadas uma no alto Alentejo e outra no Baixo Alentejo, aí, verifica-se no campo o real estado da cultura, fazem-se contagens e medições, e, com ajuda de toda a tecnologia de agricultura de precisão já disponível, é avaliado o potencial produtivo da parcela e são feitas as recomendações ao agricultor. Queremos com isto que a produção de cereais seja mais eficiente e também, e obviamente ambientalmente sustentável.

Do lado da qualidade, apesar de não termos condições edafoclimaticas nem de solos, para grandes produções como por exemplo França ou Alemanha, temos no entanto condições para produzir qualidade, e essa característica já começa a ser valorizada pela industria, assim, e para garantirmos a qualidade do cereal Nacional a ANPOC publica todos os anos a LVR (Lista de variedades recomendadas) que não é mais que um “ranking” das variedades que nos dois ensaios que anualmente são realizados pelo IP Beja e pelo INIAV no alto e no baixo Alentejo tem as melhores prestações, quer agronómicas quer de qualidade, que é validada pela industria.

Com isto obtemos lotes maiores, mais homogéneo e com qualidade superior.

Este esforço pela qualidade já começou a dar frutos com o protocolo de fornecimento de trigo das OP associadas da ANPOC com a Sonae, que vai na segunda campanha de comercialização e que neste momento se cifra em 4 000 Ton/ano a um preço bastante competitivo, hoje, todo o pão produzido em loja da Sonae, é feito com trigo nacional certificado e com o selo “Cereais do Alentejo” bem como outros contratos, por enquanto em menor escala com outras cadeias de distribuição como a Auchan.

O que se tem feito no sector dos cereais, é, na minha opinião, a única maneira de continuarmos a produzir, e só se andarmos todos de mãos dadas, produção, indústria, investigação e poder politico, se formos mais eficientes e ambientalmente sustentáveis, podemos continuar a ser agricultores.

José Palha

Presidente da direção da ANPOC – Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais

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